Capitulo 2

1155 Words
O sol já começava a se pôr quando Jamila chegou à grande casa dos seus novos donos. Era tudo muito diferente do que ela já tinha visto: paredes altas, móveis elegantes e um silêncio que dava medo. Seu coração batia acelerado, não de esperança, mas de incerteza. Foi então que ela conheceu seus novos senhores. Ofélia, uma mulher de olhar frio e postura rígida, a observou como quem analisa um objeto. Ao seu lado, o senhor Santiago, mais calado, apenas assentiu, como se aprovasse a compra sem precisar dizer uma palavra. — Essa é a nova — disse Ofélia, seca. — Vai cuidar da Sol. Jamila apenas abaixou a cabeça. Logo, uma menina pequena apareceu correndo pelo corredor. Tinha cabelos soltos e um sorriso leve, inocente. — Essa é Sol — disse Ofélia. — E você vai fazer tudo por ela. Sol se aproximou curiosa, olhando Jamila de cima a baixo. — Você vai brincar comigo? — perguntou, com doçura. Jamila forçou um pequeno sorriso. — Vou sim, sinhazinha. Mas nem tudo era leve naquele lugar. Jamila aprendeu rápido que qualquer erro custava caro. Se Sol tropeçasse, mesmo que fosse distraída, a culpa era de Jamila. Se chorasse, Jamila apanhava. Se se sujasse, Jamila era castigada. Os dias passaram a ser de constante tensão. Foi em uma dessas tardes difíceis que Jamila conheceu melhor Chinara. Chinara também era de Moçambique, mas já estava ali há muitos anos. Seus olhos carregavam tristeza, mas também uma força silenciosa. Ao ver Jamila pela primeira vez sendo castigada, aproximou-se mais tarde, quando ninguém via. — Escuta, menina — disse em voz baixa — aqui a gente sobrevive aprendendo a observar. Jamila olhou para ela com atenção, segurando as lágrimas. — Não é culpa minha… — sussurrou. Chinara colocou a mão no ombro dela. — Eu sei. Mas aqui, culpa não importa. O que importa é evitar o erro antes que ele aconteça. Desde então, Chinara passou a orientar Jamila sempre que podia. Ensinava como antecipar as vontades de Ofélia, como distrair Sol antes que ela fizesse algo perigoso, como esconder o cansaço. — Nunca deixe eles verem você fraca — dizia Chinara. — Porque eles usam isso contra você. Apesar da dureza da vida, Sol começava a criar um carinho por Jamila. A menina não entendia a crueldade ao redor — só queria companhia. E Jamila, mesmo com medo, encontrava pequenos momentos de conforto ao cuidar dela. Mas, dentro do peito, a dor da separação dos irmãos ainda queimava. Todas as noites, antes de dormir, ela fechava os olhos e sussurrava: — Aziza… Amir… onde vocês estão? E em silêncio, prometia a si mesma: Um dia… iria encontrá-los.Enquanto Jamila lutava para sobreviver na casa grande, o destino de seus irmãos seguia caminhos tão duros quanto — ou até piores. ziza e Amir não tiveram a mesma “sorte”. Depois da separação no porto, os dois foram vendidos juntos, mas não para uma casa rica. Foram levados para uma fazenda afastada, onde o trabalho começava antes mesmo do sol nascer. Aziza, com apenas 6 anos, foi forçada a crescer rápido demais. Ela segurava a mão de Amir com força, como se aquilo fosse a única coisa que ainda a ligava ao mundo que conheciam. — Fica perto de mim — ela sempre dizia. — Eu vou cuidar de você. Amir, com seus 4 anos, ainda não entendia tudo. Chorava muitas noites chamando por Jamila. — Cadê a nossa irmã? — perguntava, com a voz fraca. Aziza engolia o choro. — Ela tá viva… a gente vai encontrar ela… eu prometo. Mas, no fundo, ela não sabia se aquilo era verdade. Na fazenda, não havia espaço para infância. As crianças eram tratadas como pequenos adultos. Recebiam ordens duras, comida escassa e punições ainda mais severas. Aziza começou a trabalhar carregando pequenos baldes, limpando o que mandavam, sempre tentando proteger Amir de tarefas mais pesadas. Muitas vezes, ela assumia culpas que não eram suas só para evitar que ele fosse castigado. E isso tinha um preço. Numa manhã quente, Amir deixou cair um recipiente de água. O barulho chamou atenção de um capataz, que veio furioso. — Quem foi?! — gritou. Amir congelou. Antes que ele dissesse qualquer coisa, Aziza deu um passo à frente. — Fui eu… O castigo veio sem piedade. Amir assistiu, chorando, sem poder fazer nada. Naquela noite, os dois estavam deitados no chão duro, dividindo o pouco de calor que tinham. Amir abraçou a irmã com força. — Eu não quero mais isso… Aziza, mesmo com o corpo doendo, passou a mão na cabeça dele. — Aguenta… por favor… a gente precisa viver… Ela olhou para o céu escuro, através de uma pequena fresta. E, assim como Jamila, fez uma promessa silenciosa: — Um dia… nós vamos sair daqui. E vamos encontrar nossa irmã. Mas, diferente de Jamila, Aziza já começava a perder algo precioso: A esperança inocente de criança. No lugar dela, nascia uma coragem dura… moldada pela dor. O tempo foi passando lentamente naquela casa grande, onde os dias pareciam iguais… mas, para Jamila, muita coisa mudou. Sol já não era mais apenas a menina que ela cuidava — tornou-se sua companhia, sua pequena amiga. Mesmo com a diferença de idade, as duas criaram um laço forte. Sol confiava em Jamila como se fosse uma irmã mais velha, alguém que a protegia dos medos e a fazia sorrir nos dias silenciosos da mansão. Jamila, por sua vez, cresceu. A menina assustada que chegou ali deu lugar a uma jovem de presença marcante. Aos 15 anos, sua beleza chamava atenção — não apenas pela aparência, mas pela força que carregava no olhar. Era um olhar de quem já tinha vivido demais para a própria idade. Mas, por trás dessa força, ainda existia saudade. Saudade de Aziza… de Amir… Saudade de uma vida que parecia cada vez mais distante. Quem preenchia um pouco desse vazio era Chinara. Com o passar dos anos, Chinara deixou de ser apenas alguém que dava conselhos. Tornou-se abrigo. Era ela quem cuidava dos ferimentos escondidos, quem ensinava Jamila a ser forte sem perder sua essência, quem a lembrava de quem ela era — e de onde vinha. — “Você não é só o que fizeram com você”, dizia Chinara, com firmeza. “Você é o que ainda vai se tornar.” Jamila guardava essas palavras como um tesouro. À noite, quando tudo ficava em silêncio, as duas conversavam baixinho. Chinara contava histórias de Moçambique, relembrava tradições, músicas, costumes… e, assim, mantinha viva a raiz que tentaram arrancar. Jamila escutava tudo com atenção. Era como se, através de Chinara, ela ainda estivesse ligada aos seus irmãos. E dentro dela, crescia algo novo… Não era só dor. Era esperança. Uma esperança silenciosa, quase escondida — mas forte o suficiente para fazê-la acreditar que, um dia, encontraria Aziza e Amir novamente. E que sua história… ainda estava longe de terminar.
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