Depois de algum tempo ali no jardim, o som de passos se aproximando chamou a atenção deles.
Sol virou o rosto… e abriu um sorriso na hora.
— Artur!
Ele vinha caminhando em direção a eles. Era um rapaz alto, de postura leve, olhos escuros atentos e um jeito tranquilo que contrastava com o ambiente rígido da fazenda.
— Eu achei que você não vinha — disse Sol, animada.
— E perder a chance de te ver? — respondeu ele, com um sorriso.
Sol ficou sem graça… mas feliz.
Afonso observava em silêncio, avaliando.
Jamila deu um pequeno passo para trás, mais quieta, como sempre fazia quando havia gente nova.
— Esses são… — começou Sol — meu irmão, Afonso… e ela é a Jamila.
Artur olhou para os dois, educado.
— Prazer.
Afonso apenas assentiu.
— Prazer.
Jamila abaixou levemente a cabeça, tímida.
— Prazer…
Artur percebeu a timidez dela, mas não comentou nada, mantendo o respeito.
Os quatro começaram a conversar.
Sol puxava assunto com facilidade, rindo, contando coisas do dia a dia, enquanto Artur acompanhava, entrando na brincadeira.
Afonso participava mais discreto, mas atento.
E Jamila…
Ficava mais calada.
Observando.
De vez em quando, sorria com algo que era dito, mas evitava se expor muito.
— Você quase não fala — comentou Artur, com um tom leve, tentando incluí-la.
Jamila ficou um pouco sem jeito.
— Eu… prefiro escutar.
Sol riu.
— Ela é assim mesmo.
Afonso olhou para Jamila por um instante… com aquele olhar que já dizia muito.
E ela percebeu.
Desviou rapidamente.
Mas um leve sorriso escapou.
O clima era tranquilo.
Leve.
Algo raro para todos eles.
E, por alguns minutos…
Parecia que não existiam regras, diferenças… ou problemas.
Só quatro jovens…
Conversando.
Vivendo um momento simples.
Mas, mesmo ali…
O destino continuava se movendo.
E aquele encontro…
Ainda poderia trazer consequências que nenhum deles imaginava.
A conversa seguiu leve por um tempo.
Sol e Artur pareciam completamente à vontade, rindo, trocando olhares, como se o mundo ao redor não existisse. Afonso observava, mais tranquilo agora, percebendo que aquele encontro não era uma ameaça… apenas o começo de algo entre os dois.
Jamila continuava mais quieta, mas já não tão distante.
De vez em quando, soltava um comentário, um sorriso… e isso já era o bastante para chamar a atenção de Afonso.
— Você devia falar mais — disse ele, em tom baixo, só para ela.
Jamila olhou de lado.
— Pra quê?
— Porque eu gosto de te ouvir.
Ela desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar.
Sol percebeu… como sempre
Sol percebeu… como sempre.
Mas, dessa vez, apenas sorriu de leve e não disse nada.
A tarde foi passando, e logo o céu começou a mudar de cor, anunciando que era hora de voltar.
— Acho melhor a gente ir — disse Afonso, olhando ao redor.
Sol fez uma careta.
— Já?
Artur sorriu.
— Antes que dê problema…
Os quatro riram de leve, mas sabiam que era verdade.
O clima ficou um pouco mais sério na despedida.
— Eu volto a te ver? — perguntou Artur, olhando para Sol.
Ela hesitou por um segundo… mas respondeu com sinceridade:
— Quero.
Ele assentiu.
— Então eu dou um jeito.
Afonso observava tudo em silêncio.
Jamila ficou mais atrás, como sempre.
— Foi um prazer conhecer você — disse Artur, olhando para ela.
Jamila sorriu tímida.
— Igualmente.
Depois disso, eles se despediram.
Sol ainda olhou para trás uma última vez… antes de seguir.
O caminho de volta foi mais silencioso.
Cada um perdido em seus próprios pensamentos.
Sol pensando em Artur.
Afonso… em Jamila.
E Jamila… tentando organizar tudo que sentia.
Assim que chegaram à casa grande, um empregado se aproximou.
— Sinhá Sol… seu pai quer falar com a senhorita no escritório.
O coração dela acelerou.
— Agora?
— Sim.
Ela trocou um olhar rápido com Afonso… e depois com Jamila.
— Vai dar tudo certo — disse, tentando parecer confiante.
E seguiu.
No escritório, Santiago estava sentado, sério.
— Senta.
Sol obedeceu.
O silêncio por alguns segundos já dizia muito.
— Quero saber sobre esse rapaz… — disse ele, direto. — Artur.
Sol respirou fundo.
— O que tem?
— Quais são as intenções dele com você?
Ela ficou em silêncio por um instante… mas decidiu ser sincera.
— A gente se gosta.
Santiago a observou com atenção.
— Isso não é suficiente.
Sol apertou as mãos.
— Ele é um bom rapaz.
— Pode até ser — respondeu Santiago — mas existem regras.
O clima ficou mais firme.
— Se ele quiser continuar te vendo… — continuou — vai ter que vir aqui.
Sol levantou o olhar.
— Aqui?
— Isso mesmo. Na minha casa. — disse ele. — E vai pedir minha autorização.
O coração dela disparou.
— Pra quê?
— Pra conversar com você como deve ser.
O silêncio caiu.
Sol sabia o que aquilo significava.
Era sério.
Muito mais do que encontros escondidos.
— E até lá… — completou Santiago — nada de encontros escondidos.
Sol engoliu seco.
— Sim, senhor.
Ele assentiu.
— Pode ir.
Ela se levantou, ainda processando tudo.
Ao sair do escritório…
Sabia que as coisas tinham mudado.
E que, a partir dali…
Nada mais seria tão simples.
Jamila seguiu com Chinara até o rio, levando as bacias e os utensílios da casa grande. O caminho era simples, de terra batida, cercado pelo verde… e, por alguns instantes, parecia que o mundo ali era outro.
Ao chegarem, o cenário era diferente de tudo dentro da casa grande.
As mulheres já estavam lá, ajoelhadas nas pedras, lavando roupas e louças, conversando, rindo… algumas cantavam baixinho, criando uma melodia suave que se misturava com o som da água corrente.
Crianças corriam livres pela margem, mergulhando no rio, brincando sem medo.
Jamila parou por um instante, observando.
Mesmo sendo escravas… havia vida ali.
Havia união.
Havia um tipo de liberdade que não existia dentro das paredes da casa grande.
Chinara percebeu.
— Aqui a gente respira um pouco… — disse, com um leve sorriso.
Jamila assentiu.
E, pela primeira vez depois de tudo…
Sentiu um pouco de paz.
Elas se juntaram às outras e começaram a trabalhar.
A água fria tocando as mãos, o ritmo repetitivo… e as vozes cantando ao fundo ajudavam a acalmar a mente.
Jamila até sorriu em alguns momentos, acompanhando o canto, se permitindo esquecer por um tempo tudo o que estava vivendo.
Na volta, o sol já começava a cair.
O caminho estava mais silencioso.
Chinara seguia à frente, conversando com outra mulher, enquanto Jamila vinha um pouco mais atrás.
Foi então que viu.
O feitor.
Parado no caminho.
Ela parou por um instante.
O coração acelerou… mas não de medo como antes.
Era diferente agora.
Ele também a viu.
E se aproximou devagar.
— Tá melhor? — perguntou, olhando para ela com atenção.
Jamila assentiu levemente.
— Tô… graças a você.
Ele desviou o olhar por um segundo.
— Eu não fiz muito.
Ela deu um pequeno passo mais perto.
— Fez sim.
O silêncio caiu entre os dois.
Jamila respirou fundo.
— Eu queria te agradecer… — disse, sincera. — Pelo que você fez naquele dia… e depois… pelos cuidados.
Ele a olhou novamente.
E, pela primeira vez, não havia dureza no olhar.
Só algo mais calmo.
— Eu não ia deixar você daquele jeito…
Jamila sentiu o coração apertar.
— Mesmo assim… obrigada.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Como se aquilo fosse novo pra ele.
— Você não precisa me agradecer — respondeu, mais baixo.
Mas precisava.
E ela sabia disso.
Os dois ficaram ali por um instante… se olhando.
Sem pressa.
Sem tensão.
Mas carregados de algo que começava a crescer.
Algo perigoso.