Capítulo 27

997 Words
A noite caiu trazendo com ela algo diferente na fazenda. Não era só mais um fim de dia. Era noite de tradição. Na senzala, as luzes da fogueira começaram a se acender, os tambores improvisados ganhavam ritmo, e as vozes se uniam em cantos antigos, carregados de história e resistência. Jamila sentia aquilo no peito. Era mais do que uma festa. Era identidade. Era memória. E, por um instante, ela pensou em alguém que nunca tinha visto aquilo… — Sol. Jamila hesitou. Nunca tinha feito aquilo antes. Mas, mesmo assim, decidiu. Na casa grande, Sol estava em seu quarto quando Jamila apareceu na porta. — Posso falar com você? Sol sorriu. — Sempre. Jamila respirou fundo. — Hoje… vai ter uma festa lá na senzala… uma festa nossa. Sol ficou curiosa. — E…? Jamila abaixou um pouco o olhar, tímida. — Eu queria te convidar. O silêncio veio por um segundo. E então o rosto de Sol se iluminou. — Sério? Jamila assentiu. — Mas… se você quiser. — Eu quero! — respondeu na hora. Mas, como esperado… Não seria tão simples. Quando a mãe de Sol soube, a reação foi imediata. — De jeito nenhum. — Mas mãe— — tentou Sol. — Eu não vou permitir você no meio deles! O clima ficou tenso. Mas, dessa vez, Santiago estava presente. Ele observou a situação por alguns segundos antes de falar: — Deixe a menina ir. A esposa virou-se, surpresa. — Você está falando sério? — Estou. Ela não gostou. — Isso não é lugar para ela. Santiago manteve a calma. — Não vai acontecer nada. Sol olhou para o pai, quase sem acreditar. — Obrigada… A mãe não disse mais nada… mas o olhar mostrava claramente sua desaprovação. E assim, naquela noite… Sol foi. Ao lado de Jamila. Quando chegaram, tudo parecia diferente para ela. A luz da fogueira iluminava os rostos. O som dos tambores vibrava no peito. As vozes cantando… fortes, profundas. Era bonito. Era vivo. Sol olhava ao redor, encantada. — Isso é… incrível… As pessoas percebiam sua presença. Mas, ao invés de rejeição… Havia respeito. Alguns abaixavam levemente a cabeça. Outros sorriam discretamente. Jamila estava ao lado dela o tempo todo. — Tá tudo bem? — perguntou. — Tá… — respondeu Sol, ainda admirada. — Eu nunca vi nada assim. Logo, Chinara apareceu, sorrindo. — Então você veio… Sol sorriu de volta. — Vim. E, aos poucos, ela foi sendo puxada para aquele mundo. Para a roda. Para a música. Para a dança. E, mesmo sendo diferente… Foi acolhida. Na casa grande, Afonso ouviu. O som distante dos tambores. Das vozes. Algo dentro dele o puxou. Ele saiu. Sem avisar. Seguiu na direção da música. E, quando chegou… Parou. Os olhos procuraram. Até encontrarem. Jamila. Dançando. Sorrindo. Livre. E, ao lado dela… Sol. Ele não conseguiu evitar o sorriso. Mas também não conseguiu esconder o que sentia. Porque, naquele momento… Ficou ainda mais claro. Mais afastado, nas sombras… O feitor observava. Em silêncio. Os olhos atentos. Ele viu Afonso chegar. Viu o jeito que ele olhava para Jamila. Sem disfarçar. Sem medo. E aquilo confirmou o que ele já sentia. — Então é verdade… — murmurou. O olhar dele escureceu. Agora não havia dúvida. Afonso estava apaixonado. E aquilo… Não era só um problema. Era uma ameaça. Porque, pela primeira vez… Ele não era o único querendo Jamila. E aquela disputa… Estava só começando. A noite seguiu cheia de vida. As risadas, os cantos e o som dos tambores foram diminuindo aos poucos, enquanto as pessoas começavam a guardar tudo. As panelas, os instrumentos, os tecidos… cada um ajudando como podia. Jamila, Sol e Afonso se reuniram perto da fogueira, agora mais baixa, comendo um pouco das comidas feitas ali. Era simples, mas cheio de sabor… e de significado. Sol sorria, leve, como nunca. — Eu nunca vou esquecer isso — disse, olhando ao redor. Jamila sorriu. — É a nossa forma de continuar… mesmo com tudo. Afonso observava as duas… mas seus olhos sempre voltavam para Jamila. Havia algo naquela noite. Algo diferente. Com o tempo, as pessoas foram se despedindo. A fogueira já estava quase se apagando. Sol se levantou, ainda sorrindo. — Eu vou entrar… antes que minha mãe resolva aparecer. Os três riram de leve. Ela olhou para Jamila. — Obrigada… de verdade. — Sempre — respondeu Jamila. Sol então olhou para o irmão, com um leve sorriso de quem sabia mais do que dizia… e entrou. O silêncio tomou conta aos poucos. Só restavam os estalos suaves da fogueira. Afonso se levantou. — Eu ajudo você. Jamila assentiu. Os dois começaram a apagar o fogo, jogando terra, mexendo os restos com cuidado. Mas, aos poucos… O trabalho virou conversa. E a conversa… virou silêncio. Um silêncio diferente. Carregado. Afonso parou por um instante. Olhou para ela. De verdade. Como se estivesse vendo tudo… ao mesmo tempo. — Você tá linda hoje… — disse, baixo. Jamila sentiu o coração acelerar. — Eu não tô diferente… — Tá sim. O jeito que ele falou… Fez ela perder o ar por um segundo. Os dois ficaram próximos. Muito próximos. O som da noite ao redor parecia distante agora. — Afonso… — ela começou, mas a voz falhou. Ele não respondeu. Apenas se aproximou mais. Devagar. Dando tempo para ela recuar. Mas ela não recuou. E então… Os lábios se encontraram. Dessa vez, diferente de todas as outras. Mais intenso. Mais verdadeiro. Como se tudo o que estavam segurando viesse à tona de uma vez. Jamila levou a mão ao peito dele. Afonso a segurou pela cintura. O beijo se aprofundou, carregado de desejo… mas também de sentimento. De entrega. Eles se afastaram por um segundo, ofegantes… mas não o suficiente para se separar. Os olhares se encontraram. Sem medo. Sem palavras. E, naquela noite… Eles se deixaram sentir. Sem pensar no amanhã. Sem pensar nas consequências. Só naquele momento. Porque, pela primeira vez… Não era só proibido. Era inevitável.
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