Capítulo 28

1454 Words
Depois daquele momento, o silêncio voltou… mas agora era diferente. Os dois se afastaram de repente, como se só então a realidade tivesse voltado. A respiração ainda descompassada. Os olhares confusos. — Jamila… — Afonso tentou falar. Mas ela rapidamente levou a mão ao peito, tentando se recompor. — Não… — disse, ainda ofegante. — Não fala nada. Ele a olhou, sem entender completamente, mas respeitando. Os dois começaram a se vestir às pressas, ainda sem acreditar no que tinha acontecido. O coração de Jamila batia forte. Não era só emoção. Era medo. Muito medo. — Você precisa ir — disse ela, firme, mas com a voz baixa. — Entra primeiro. — Eu não vou te deixar aqui— — começou Afonso. — Vai sim — interrompeu ela. — Se alguém vê… eu… eu não posso passar por aquilo de novo. O peso das palavras fez ele parar. Ele sabia do que ela estava falando. Do castigo. Da dor. Afonso respirou fundo. — Eu nunca vou deixar ninguém te machucar de novo. Jamila apenas balançou a cabeça, sem responder. — Vai… — insistiu. Depois de alguns segundos, ele assentiu. — Tá… eu vou. Mas antes de sair, olhou para ela mais uma vez. Como se quisesse guardar aquele momento. E então foi. Seguiu em direção à casa grande, tentando parecer normal, mas com tudo ainda girando dentro dele. Jamila esperou. Alguns minutos. O suficiente. Então seguiu pelo caminho oposto. Em vez de ir direto para a casa… Foi até o rio. O lugar estava silencioso agora. A lua refletia na água. Ela parou na beira… respirando fundo. E então, lentamente, tirou o vestido e entrou na água. Fria. Gelada. Mas ela não recuou. Mergulhou. Como se quisesse lavar tudo. Ou talvez entender. Ficou ali por alguns instantes, deixando a água tocar seu corpo… tentando organizar os pensamentos. — O que eu fiz… — sussurrou. Mas, no fundo… Ela sabia. Não foi erro. Foi escolha. Mesmo que perigosa. Mesmo que proibida. Depois de um tempo, saiu da água. Vestiu-se novamente. E voltou. Com passos mais lentos. Mais pensativos. Entrou na casa grande em silêncio, sem chamar atenção. Foi direto para o quarto. Trocou de roupa. E se deitou. O olhar perdido no teto. O corpo ainda sentindo tudo. Mas, principalmente… A mente. Agora, Jamila já não se via da mesma forma. Não era mais só a menina que tinha chegado ali cheia de medo. Algo dentro dela tinha mudado. Crescido. E, naquela noite… Ela não adormeceu como antes. Mas como alguém que tinha atravessado um limite. E sabia… Que não havia mais volta. Na manhã seguinte, o sol m*l tinha nascido quando Jamila abriu os olhos. Ainda estava perdida nos próprios pensamentos. A noite anterior não saía da sua mente. Cada detalhe. Cada sensação. Seu coração acelerou só de lembrar… e, por um segundo, ela ficou ali, parada, tentando entender tudo o que aquilo significava. Foi então que a porta se abriu de repente. — Jamila! Ela se assustou, sentando rápido na cama. Era Sol. — Meu Deus, você me assustou… — disse Jamila, ainda tentando se recompor. Sol percebeu algo diferente no rosto dela, mas não comentou. — Eu preciso da sua ajuda. Jamila respirou fundo. — O que foi? — Eu marquei de encontrar o Artur perto do celeiro… — disse Sol, um pouco nervosa — mas eu não posso ir. — Por quê? — Meu pai me proibiu de ir falar com o Artur,até o dia que ele vim aqui pedir permissão. — suspirou — Mas você pode ir por mim? Jamila hesitou. — Eu? — Só pra avisar ele — explicou Sol. — Diz que meu pai quer que ele que meu pai quer que ele venha aqui… pedir o consentimento pra gente se ver direito. Jamila assentiu devagar. — Tá bom… eu vou. Sol sorriu, aliviada. — Obrigada! Sol então saiu para tomar café com os pais, tentando agir normalmente, enquanto Jamila se levantava. Ainda com a mente cheia. Mas tentando focar no que precisava fazer. Se arrumou rápido… e seguiu. O celeiro ficava um pouco afastado, silencioso naquela hora da manhã. Jamila chegou antes. Ficou ali, esperando. O coração ainda inquieto, mas agora por outro motivo. Pouco tempo depois, Artur apareceu. — Jamila? — disse, surpreso ao vê-la. — Oi… Ele se aproximou. — Cadê a Sol? Jamila respirou fundo. — Ela não pôde vir… pediu pra eu falar com você. Artur ficou atento. — O que aconteceu? — O pai dela já sabe de você — explicou Jamila. — E disse que, se quiser ver a Sol… tem que ir até a casa grande. Ele franziu levemente a testa. — Ir lá? — Sim… pedir o consentimento dele. O silêncio caiu por um instante. Artur passou a mão pelo cabelo, pensativo. — Entendi… Jamila observava. — Ela quer te ver — acrescentou. — Mas agora… tem que ser assim. Artur assentiu devagar. — Eu imaginava que não ia ser fácil. Ele olhou para o celeiro por um segundo… e depois voltou o olhar para Jamila. — Obrigado por vir avisar. Jamila deu um leve sorriso. — Não tem problema. Mas, por dentro… Sua mente já começava a voltar para outro lugar. Para outra pessoa. Quando Jamila se despediu de Artur e começou a voltar, ainda imersa nos próprios pensamentos, ouviu alguém chamar seu nome. — Jamila! Ela parou. Reconheceu a voz na hora. Afonso. Ele vinha apressado, e ela sentiu o coração disparar. — O que você tá fazendo aqui? — perguntou, tentando manter a calma. — A Sol me contou onde você tinha ido… — respondeu ele, ainda sem fôlego. Ele olhou ao redor e, com cuidado, segurou a mão dela. — Vem… a gente precisa conversar. Antes que ela pudesse dizer algo, ele a conduziu para dentro do celeiro, onde havia sombra e mais privacidade. O cavalo dele estava ali, preso, tranquilo. Mas o clima entre os dois… não estava nada calmo. Eles ficaram frente a frente. Por um momento, nenhum dos dois falou. Só se olharam. Como se tudo da noite anterior ainda estivesse ali, entre eles. — Sobre ontem… — começou Afonso. Jamila baixou o olhar, sentindo o coração apertar. — A gente não devia… — murmurou. — Eu não me arrependo — interrompeu ele, firme. Ela levantou o olhar, surpresa. — Foi importante pra mim. O silêncio caiu. — Pra mim também… — admitiu ela, mais baixo. Aquilo aproximou ainda mais os dois. — Eu não consigo fingir que nada aconteceu — disse ele. — Nem eu… — respondeu ela. Os olhares se prenderam. A respiração mudou. E, sem perceber… A distância entre eles diminuiu. Até desaparecer. O beijo veio de novo. Intenso. Cheio de tudo o que estavam tentando conter. Mas, dessa vez, havia algo a mais. Consciência. Medo. Desejo. Jamila levou a mão ao peito dele, como se tentasse ao mesmo tempo se aproximar… e se segurar. Ele a puxou com cuidado, sem força, mas sem querer se afastar. O beijo se aprofundou por alguns instantes… Até que ela mesma se afastou, ofegante. — Afonso… — disse, com a voz trêmula — a gente precisa parar. Ele respirava pesado. Mas assentiu. Sabia que ela tinha razão. O mundo lá fora ainda existia. E era perigoso demais ignorar isso. Ele encostou a testa na dela. — Isso não muda o que eu sinto. Jamila fechou os olhos por um instante. — Eu sei… Mas também sabia… Que cada passo que davam juntos… Tornava tudo mais difícil de voltar atrás. Afonso ainda a olhava, tentando se controlar… mas o sentimento falou mais alto. Ele a puxou de volta. O beijo recomeçou, mais intenso, mais urgente, como se o tempo fosse curto demais para tudo o que queriam sentir. Jamila hesitou por um instante… mas não se afastou. As mãos dele deslizaram com cuidado, e ela fechou os olhos, se entregando àquele momento, mesmo sabendo de todos os riscos. O mundo lá fora parecia distante. Ali, dentro do celeiro, só existiam os dois. O carinho, o desejo… e algo mais profundo, que nenhum deles conseguia mais negar. Eles se aproximaram ainda mais, se entregando um ao outro com intensidade, mas também com sentimento, como se cada toque carregasse tudo o que não conseguiam dizer em palavras. O tempo passou sem que percebessem. Até que, aos poucos, o silêncio voltou. A respiração ainda descompassada. Os dois parados, próximos, tentando entender o que aquilo significava. Jamila foi a primeira a se afastar, mesmo com dificuldade foi vestindo sua roupa. — Isso… só complica tudo… — disse, em voz baixa. Afonso a olhou, sério. — Ou talvez seja o que a gente não consegue mais evitar. Ela não respondeu. Mas, no fundo… Sabia que ele estava certo.
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