Capítulo 30

988 Words
No outro dia, ainda muito cedo, a fazenda seguia sua rotina… mas longe dali, outra história começava a se cruzar com a de Jamila. Dona Ofélia saiu acompanhada de um feitor até o local onde aconteciam as negociações. Ela já tinha um objetivo claro. Queria uma escrava só para ela. Alguém que a servisse de perto, que estivesse sempre ao seu lado. Ao chegar, o cenário era o de sempre. Mulheres alinhadas. Olhares baixos. Corpos cansados. Marcas de sofrimento que não precisavam de palavras. Ofélia caminhava devagar entre elas, observando cada uma com atenção. Perguntava idade, origem, valor… mas nada parecia agradar completamente. — Essa não… — dizia. — Muito fraca. — Essa também não serve. O tempo passava. Até que, de repente, ela parou. Seus olhos se fixaram em uma mulher. Tina. Uma n***a de cerca de 25 anos. Mas o que chamou atenção não foi só sua aparência… Foi o olhar. Enquanto todas mantinham a cabeça baixa… Ela olhava para frente. Erguida. Como se, mesmo ali, não aceitasse se curvar completamente. Ofélia franziu levemente a testa, intrigada. Aproximou-se. — Nome? — Tina — respondeu, firme, mas sem desafio. Aquele jeito… diferente. Aquilo agradou Ofélia. — Essa aqui — disse, decidida. O feitor ao lado assentiu e tratou dos valores. Sem muita demora… Tina foi comprada. E, sem saber… Estava prestes a entrar em uma nova realidade. Uma casa nova. Novas regras. Quando Dona Ofélia chegou à casa grande, já desceu com o olhar firme, como quem tinha tomado uma decisão importante. — Chinara! — chamou, sem demora. Chinara apareceu rapidamente. — Sim, senhora. — Prepare um quarto para ela — disse, apontando para Tina. — Quero tudo limpo. Separe roupas… e mande que tome um banho. Depois, traga comida. E, quando terminar… leve-a até a sala. — Sim, senhora. Chinara fez exatamente como mandado. Levou Tina até um dos quartos, preparou a água, deixou roupas limpas dobradas sobre a cama e um prato de comida simples. — Pode tomar banho… descansar um pouco — disse Chinara, com um tom mais suave. Mas Tina não respondeu. Permaneceu em silêncio. Nem mesmo quando Chinara tentou puxar conversa. Apenas observava. Firme. Fechada. Depois de algum tempo, já limpa e vestida, Tina foi conduzida até a sala. Ao entrar, Dona Ofélia já estava esperando. — Feche a porta. Chinara obedeceu… e saiu. Tina ficou ali, de pé. — Sente-se — ordenou Ofélia. Tina sentou, mantendo a postura erguida. Ofélia a observou por alguns segundos, analisando cada detalhe. — Aqui… você não vai trabalhar como as outras — começou ela. — Não vai para o campo, nem para a cozinha. Tina continuava em silêncio, ouvindo. — Você vai servir apenas a mim. Uma pausa. — Vai me acompanhar. Vai estar ao meu lado. Vai me obedecer… e vai fazer o que eu mandar. Tina assentiu levemente com a cabeça. — Comida, roupa… você vai ter. Mas tudo vem de mim. O olhar de Ofélia endureceu um pouco. — Porque aqui dentro… eu estou sozinha. As palavras saíram mais carregadas do que ela esperava. — Todos viraram as costas pra mim. O silêncio tomou conta da sala por um instante. Tina apenas a observava. Sem julgamento. Sem submissão exagerada. Apenas… presente. E isso, de alguma forma, agradou Ofélia. — Então você vai ser útil pra mim — finalizou. Tina assentiu novamente. E, naquele momento… Sem que ninguém percebesse completamente… Um vínculo começou a se formar. Não de amizade. Mas de interesse. De estratégia. Porque Tina não era como as outras. E Ofélia também não. E juntas… Poderiam mudar o rumo de muitas coisas dentro daquela casa. Depois daquela conversa, o silêncio permaneceu por alguns instantes na sala. Ofélia observava Tina com atenção. Havia algo nela… algo difícil de explicar. Não era submissão. Também não era desafio. Era… controle. — Pode ir — disse Ofélia por fim. — Chinara vai te mostrar o quarto. Tina levantou devagar, sem dizer uma palavra, e saiu. Mas, ao fechar a porta… Ofélia ficou pensativa. Pela primeira vez em muito tempo, sentia que tinha alguém ao seu lado. Alguém que poderia entender… ou pelo menos obedecer sem questionar demais. Nos dias seguintes, Tina começou a se adaptar. Não se misturava com os outros. Não conversava. Apenas observava. E aprendia. Percebia tudo que acontecia dentro da casa grande. Os olhares. Os silêncios. As tensões. Nada passava despercebido por ela. Em uma manhã, enquanto organizava algumas coisas no quarto de Ofélia, Tina ouviu vozes no corredor. Parou. Ficou em silêncio. Era Sol. — Eu não concordo com isso, mãe! — dizia, irritada. Ofélia respondeu com frieza: — Você não precisa concordar. Precisa obedecer. — E a Jamila? Ela não teve culpa de nada! O nome chamou a atenção de Tina. Ela ficou ainda mais atenta. — Aquela escrava já está ocupando espaço demais aqui dentro — respondeu Ofélia. — E isso vai acabar. Tina estreitou levemente o olhar. — Eu não vou deixar a senhora machucar ela de novo! — disse Sol. — Você não tem escolha. Os passos se afastaram. O silêncio voltou. Tina ficou parada por alguns segundos… processando. Jamila. Agora ela sabia. Quem era. E que tinha importância naquela casa. Mais tarde, Tina estava ao lado de Ofélia, ajudando-a com algumas roupas. — Você percebe tudo, não percebe? — disse Ofélia, de repente. Tina levantou o olhar. — Percebo. Ofélia deu um leve sorriso. — Ótimo. Ela se aproximou um pouco mais. — Então vai entender quando eu disser… que tem gente aqui que precisa ser colocada no seu devido lugar. Tina não respondeu. Mas ouviu. — E você vai me ajudar com isso. O silêncio foi a única resposta. Mas, por dentro… Tina já começava a montar as peças. Quem era importante. Quem era ameaça. E quem poderia ser usado. E, naquele jogo silencioso que começava a se formar dentro da casa… Ela não pretendia ser apenas uma peça. Mas talvez… Uma das mais perigosas.
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