Capítulo 25

1197 Words
Os dias foram passando, e aos poucos Jamila foi se recuperando. As feridas nas costas ainda doíam, mas já estavam cicatrizando. Com a ajuda de Chinara e os cuidados constantes, ela voltou a se levantar, a caminhar… e logo, como sempre, voltou ao trabalho. Mas nada dentro dela era como antes. Em uma tarde mais tranquila, Sol apareceu animada. — Jamila, vamos sair um pouco? Jamila estranhou. — Sair? — Só um passeio… — respondeu, com um sorriso que já entregava que tinha mais coisa por trás. Jamila cruzou os braços, desconfiada. — Sol… — Relaxa! — disse ela. — E dessa vez já deixei claro pra minha mãe: se eu for ver o Artur, a culpa é minha. Você não tem nada a ver com isso. Jamila suspirou, mas acabou cedendo. — Tá bom… Quando estavam saindo, Afonso apareceu. — Indo pra onde? Sol respondeu rápido: — Passear. Ele olhou para Jamila… e decidiu na hora: — Eu vou junto. Jamila baixou o olhar, tentando disfarçar o que sentiu. Sol apenas sorriu de leve. Ela já sabia. Os três seguiram juntos por um caminho mais afastado, entre árvores e silêncio. O clima era leve… mas havia algo no ar. Algo não dito. Até que Sol resolveu quebrar. — Então… — começou, casualmente — faz quanto tempo? Afonso franziu a testa. — Quanto tempo o quê? — Que você tá apaixonado pela Jamila. O silêncio foi imediato. Jamila parou de andar. — Sol! — Ué, tô mentindo? — respondeu ela, simples. Afonso soltou um leve suspiro, passando a mão pelo rosto. — Você não tem jeito… Jamila ficou sem saber onde olhar. — Eu não devia nem estar aqui… — murmurou. — Devia sim — disse Sol, olhando pra ela. — Porque isso envolve você também. Jamila ficou quieta. O coração acelerado. Sol então olhou para Afonso. — E você? Vai fingir até quando? Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois olhou para Jamila. Direto. Sem fugir. — Eu não tô fingindo — disse, firme. Jamila sentiu o peso daquilo. — Eu já falei… — continuou ele — eu gosto de você. Ela desviou o olhar. — Isso não muda nada… — Muda pra mim. O silêncio caiu. Sol observava tudo, atenta. — Jamila… — disse ela, mais suave — você também sente. Jamila respirou fundo. — Isso não importa. — Importa sim. — Não aqui — respondeu ela, com a voz mais firme. — Eu sei o meu lugar. As palavras vieram duras. Reais. Afonso deu um passo mais próximo. — Eu não vejo você desse jeito. — Mas o mundo vê — respondeu ela, olhando pra ele. — Sua família vê. O silêncio pesou novamente. Sol abaixou um pouco o tom. — E se não fosse assim? Jamila deu um pequeno sorriso triste. — Mas é. O vento passou leve entre as árvores. E, naquele momento… Ficou claro que o sentimento existia. Forte. Recíproco. Mas preso em uma realidade muito maior do que eles. E Sol percebeu… Que, se quisesse ajudar de verdade… Ia ter que fazer mais do que só falar. O silêncio entre os três ficou pesado por alguns instantes. O som do vento nas árvores parecia mais alto do que qualquer palavra. Sol olhava de um para o outro, pensando… calculando. Ela não era boba. Sabia exatamente o tamanho do problema. Mas também sabia que aquilo já tinha ido longe demais para ser ignorado. — Tá… — disse por fim, cruzando os braços — então vocês vão ficar nisso? Jamila e Afonso não responderam. — Sentem, mas fingem que não sentem? Jamila desviou o olhar. — É o melhor… — Pra quem? — rebateu Sol. Afonso soltou um suspiro. — Sol… — Não, deixa eu falar — insistiu ela. — Porque depois quem sofre são vocês dois. Ela se aproximou um pouco mais de Jamila. — Você merece ser feliz também. Jamila balançou a cabeça. — Nem sempre a gente pode escolher isso. — Mas pode tentar — disse Sol, firme. Jamila ficou em silêncio. Afonso então falou, mais baixo: — Eu tô disposto a tentar. Jamila olhou pra ele. E aquele olhar… dizia tudo. Mas também trazia medo. — E quando descobrirem? — perguntou ela. — Quando seu pai souber? Sua mãe? Afonso travou por um segundo. — Eu resolvo. — Não é tão simples! — disse ela, um pouco mais forte. — Nunca é! O clima voltou a pesar. Sol respirou fundo. — Então vamos fazer ser — disse ela, decidida. Os dois olharam pra ela. — Eu não vou deixar vocês dois sofrerem por causa disso sem nem tentar. Jamila franziu a testa. — Sol… — Eu tô falando sério — continuou. — A gente pode começar devagar. Sem ninguém saber. Afonso olhou para Jamila. A ideia mexeu com ele. — Sol, isso é perigoso… — Tudo aqui já é perigoso — respondeu ela. Mais silêncio. Jamila sentia o coração acelerado. A ideia era tentadora. Mas o medo… — Eu não sei… — disse, quase num sussurro. Afonso se aproximou mais um pouco. — A gente não precisa decidir tudo agora… Ela olhou pra ele. Tão perto. Tão sincero. — Só… não foge de mim — completou. Aquilo a atingiu. Profundo. Jamila fechou os olhos por um instante. Respirou fundo. E, sem dizer nada… Não se afastou. Sol observou. E sorriu de leve. Sabia que aquele era o começo de algo. Mesmo que perigoso. Mesmo que proibido. Mas, pela primeira vez… Havia uma escolha sendo feita. E não apenas aceita. Sol ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para o horizonte, como se organizasse os próprios pensamentos. Então falou. — Sabe… eu nunca concordei com nada disso. Jamila e Afonso olharam para ela. — Com o quê? — perguntou Afonso. Sol respirou fundo. — Com essa história de escravidão. O clima mudou na hora. As palavras dela tinham peso. — Eu acho errado — continuou, com firmeza. — Muito errado. Jamila abaixou o olhar, surpresa… como se não estivesse acostumada a ouvir aquilo em voz alta. — Todo mundo aqui é tratado como se não fosse gente… — disse Sol. — Mas é. Ela olhou diretamente para Jamila. — Você é. Os olhos de Jamila se encheram de emoção. — Não importa a cor… não importa de onde veio… — continuou Sol. — Todo mundo sente, sofre, sonha… Afonso ficou em silêncio, absorvendo. Sol então cruzou os braços, decidida. — E eu não vou fingir que isso é normal. O vento passou leve entre eles. — Se vocês dois gostam um do outro… — disse ela, olhando para os dois — então eu vou ficar feliz. Jamila engoliu seco. — Feliz mesmo. Afonso olhou para Sol, surpreso. — Você sabe o que isso significa, né? — Sei — respondeu ela. — Problema, briga, confusão… Deu um pequeno sorriso. — Mas também sei que vale a pena quando é de verdade. Jamila sentiu o coração apertar. Porque, no fundo… Era exatamente isso que ela mais queria acreditar. Mas tinha medo. Muito medo. Sol se aproximou dela. — Você não tá sozinha. Jamila levantou o olhar lentamente. E, pela primeira vez… Sentiu que talvez… Só talvez… Existisse um caminho diferente.
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