Os dias foram passando, e aos poucos Jamila foi se recuperando. As feridas nas costas ainda doíam, mas já estavam cicatrizando. Com a ajuda de Chinara e os cuidados constantes, ela voltou a se levantar, a caminhar… e logo, como sempre, voltou ao trabalho.
Mas nada dentro dela era como antes.
Em uma tarde mais tranquila, Sol apareceu animada.
— Jamila, vamos sair um pouco?
Jamila estranhou.
— Sair?
— Só um passeio… — respondeu, com um sorriso que já entregava que tinha mais coisa por trás.
Jamila cruzou os braços, desconfiada.
— Sol…
— Relaxa! — disse ela. — E dessa vez já deixei claro pra minha mãe: se eu for ver o Artur, a culpa é minha. Você não tem nada a ver com isso.
Jamila suspirou, mas acabou cedendo.
— Tá bom…
Quando estavam saindo, Afonso apareceu.
— Indo pra onde?
Sol respondeu rápido:
— Passear.
Ele olhou para Jamila… e decidiu na hora:
— Eu vou junto.
Jamila baixou o olhar, tentando disfarçar o que sentiu.
Sol apenas sorriu de leve.
Ela já sabia.
Os três seguiram juntos por um caminho mais afastado, entre árvores e silêncio. O clima era leve… mas havia algo no ar.
Algo não dito.
Até que Sol resolveu quebrar.
— Então… — começou, casualmente — faz quanto tempo?
Afonso franziu a testa.
— Quanto tempo o quê?
— Que você tá apaixonado pela Jamila.
O silêncio foi imediato.
Jamila parou de andar.
— Sol!
— Ué, tô mentindo? — respondeu ela, simples.
Afonso soltou um leve suspiro, passando a mão pelo rosto.
— Você não tem jeito…
Jamila ficou sem saber onde olhar.
— Eu não devia nem estar aqui… — murmurou.
— Devia sim — disse Sol, olhando pra ela. — Porque isso envolve você também.
Jamila ficou quieta.
O coração acelerado.
Sol então olhou para Afonso.
— E você? Vai fingir até quando?
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois olhou para Jamila.
Direto.
Sem fugir.
— Eu não tô fingindo — disse, firme.
Jamila sentiu o peso daquilo.
— Eu já falei… — continuou ele — eu gosto de você.
Ela desviou o olhar.
— Isso não muda nada…
— Muda pra mim.
O silêncio caiu.
Sol observava tudo, atenta.
— Jamila… — disse ela, mais suave — você também sente.
Jamila respirou fundo.
— Isso não importa.
— Importa sim.
— Não aqui — respondeu ela, com a voz mais firme. — Eu sei o meu lugar.
As palavras vieram duras.
Reais.
Afonso deu um passo mais próximo.
— Eu não vejo você desse jeito.
— Mas o mundo vê — respondeu ela, olhando pra ele. — Sua família vê.
O silêncio pesou novamente.
Sol abaixou um pouco o tom.
— E se não fosse assim?
Jamila deu um pequeno sorriso triste.
— Mas é.
O vento passou leve entre as árvores.
E, naquele momento…
Ficou claro que o sentimento existia.
Forte.
Recíproco.
Mas preso em uma realidade muito maior do que eles.
E Sol percebeu…
Que, se quisesse ajudar de verdade…
Ia ter que fazer mais do que só falar.
O silêncio entre os três ficou pesado por alguns instantes.
O som do vento nas árvores parecia mais alto do que qualquer palavra.
Sol olhava de um para o outro, pensando… calculando.
Ela não era boba.
Sabia exatamente o tamanho do problema.
Mas também sabia que aquilo já tinha ido longe demais para ser ignorado.
— Tá… — disse por fim, cruzando os braços — então vocês vão ficar nisso?
Jamila e Afonso não responderam.
— Sentem, mas fingem que não sentem?
Jamila desviou o olhar.
— É o melhor…
— Pra quem? — rebateu Sol.
Afonso soltou um suspiro.
— Sol…
— Não, deixa eu falar — insistiu ela. — Porque depois quem sofre são vocês dois.
Ela se aproximou um pouco mais de Jamila.
— Você merece ser feliz também.
Jamila balançou a cabeça.
— Nem sempre a gente pode escolher isso.
— Mas pode tentar — disse Sol, firme.
Jamila ficou em silêncio.
Afonso então falou, mais baixo:
— Eu tô disposto a tentar.
Jamila olhou pra ele.
E aquele olhar… dizia tudo.
Mas também trazia medo.
— E quando descobrirem? — perguntou ela. — Quando seu pai souber? Sua mãe?
Afonso travou por um segundo.
— Eu resolvo.
— Não é tão simples! — disse ela, um pouco mais forte. — Nunca é!
O clima voltou a pesar.
Sol respirou fundo.
— Então vamos fazer ser — disse ela, decidida.
Os dois olharam pra ela.
— Eu não vou deixar vocês dois sofrerem por causa disso sem nem tentar.
Jamila franziu a testa.
— Sol…
— Eu tô falando sério — continuou. — A gente pode começar devagar. Sem ninguém saber.
Afonso olhou para Jamila.
A ideia mexeu com ele.
— Sol, isso é perigoso…
— Tudo aqui já é perigoso — respondeu ela.
Mais silêncio.
Jamila sentia o coração acelerado.
A ideia era tentadora.
Mas o medo…
— Eu não sei… — disse, quase num sussurro.
Afonso se aproximou mais um pouco.
— A gente não precisa decidir tudo agora…
Ela olhou pra ele.
Tão perto.
Tão sincero.
— Só… não foge de mim — completou.
Aquilo a atingiu.
Profundo.
Jamila fechou os olhos por um instante.
Respirou fundo.
E, sem dizer nada…
Não se afastou.
Sol observou.
E sorriu de leve.
Sabia que aquele era o começo de algo.
Mesmo que perigoso.
Mesmo que proibido.
Mas, pela primeira vez…
Havia uma escolha sendo feita.
E não apenas aceita.
Sol ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para o horizonte, como se organizasse os próprios pensamentos.
Então falou.
— Sabe… eu nunca concordei com nada disso.
Jamila e Afonso olharam para ela.
— Com o quê? — perguntou Afonso.
Sol respirou fundo.
— Com essa história de escravidão.
O clima mudou na hora.
As palavras dela tinham peso.
— Eu acho errado — continuou, com firmeza. — Muito errado.
Jamila abaixou o olhar, surpresa… como se não estivesse acostumada a ouvir aquilo em voz alta.
— Todo mundo aqui é tratado como se não fosse gente… — disse Sol. — Mas é.
Ela olhou diretamente para Jamila.
— Você é.
Os olhos de Jamila se encheram de emoção.
— Não importa a cor… não importa de onde veio… — continuou Sol. — Todo mundo sente, sofre, sonha…
Afonso ficou em silêncio, absorvendo.
Sol então cruzou os braços, decidida.
— E eu não vou fingir que isso é normal.
O vento passou leve entre eles.
— Se vocês dois gostam um do outro… — disse ela, olhando para os dois — então eu vou ficar feliz.
Jamila engoliu seco.
— Feliz mesmo.
Afonso olhou para Sol, surpreso.
— Você sabe o que isso significa, né?
— Sei — respondeu ela. — Problema, briga, confusão…
Deu um pequeno sorriso.
— Mas também sei que vale a pena quando é de verdade.
Jamila sentiu o coração apertar.
Porque, no fundo…
Era exatamente isso que ela mais queria acreditar.
Mas tinha medo.
Muito medo.
Sol se aproximou dela.
— Você não tá sozinha.
Jamila levantou o olhar lentamente.
E, pela primeira vez…
Sentiu que talvez…
Só talvez…
Existisse um caminho diferente.