Tina caminhava apressada pelo corredor, o coração ainda acelerado com o que tinha visto. Parou em frente à porta, bateu e entrou sem esperar resposta.
— Dona Ofélia… a senhora não vai acreditar no que eu vi.
Ofélia, sentada em sua poltrona, levantou o olhar devagar.
— Fala logo, Tina.
— O Afonso… com a Jamila… eles estavam se beijando.
O silêncio caiu no quarto por alguns segundos.
O olhar de Ofélia endureceu.
— Eu sabia…
Ela se levantou lentamente, caminhando pelo quarto.
— Aquela menina… se fazendo de inocente.
Tina se aproximou, curiosa.
— E agora, dona Ofélia?
Ofélia parou, pensativa.
— Agora a gente não pode agir com pressa.
— Mas a senhora não vai fazer nada?
Ela virou, com um leve sorriso frio.
— Vou… mas do jeito certo.
Tina esperava.
— A gente joga devagar… com inteligência.
— Como assim?
Ofélia se aproximou mais dela.
— Você vai continuar perto do Afonso.
Tina arregalou os olhos.
— Eu?
— Sim… você.
— Mas dona Ofélia…
Ela interrompeu.
— Você vai ser doce… atenciosa… presente.
Tina entendeu aos poucos.
— Pra provocar ela…
Ofélia sorriu.
— Exatamente.
— Fazer a Jamila sentir ciúmes.
Tina cruzou os braços, já entrando no jogo.
— E o Afonso?
— Homem é fácil de confundir… ainda mais quando tem duas mulheres por perto.
Tina deu um leve sorriso.
— Entendi…
Ofélia voltou para sua poltrona, satisfeita.
— Eu quero ver até onde vai esse romance.
— E quando a gente age?
Ofélia respondeu fria.
— Quando ela estiver fraca.
Tina assentiu.
— Pode deixar… eu sei como fazer isso.
Ofélia fechou os olhos por um instante, tranquila.
— Ótimo… então começa hoje mesmo.
Tina se virou para sair, já com outro olhar.
Mais decidido.
Mais perigoso.
E naquele momento…
o jogo contra Jamila…
tinha começado de verdade.
Tina não perdeu tempo. No dia seguinte já apareceu diferente, mais arrumada, mais atenta a cada detalhe. Passou pelo espelho e sorriu.
— Hoje começa de verdade…
Saiu decidida, procurando Afonso pelo terreno. Encontrou ele perto do celeiro, concentrado no trabalho.
— Afonso… você nunca descansa?
Ele virou, surpreso com o tom leve dela.
— Tô tentando terminar isso logo.
Tina se aproximou devagar.
— Você sempre diz isso…
Ela pegou um pano e começou a ajudar sem pedir.
— Deixa eu te ajudar um pouco.
Afonso estranhou, mas não recusou.
— Não precisa…
— Eu quero — ela respondeu, olhando direto pra ele.
De longe, Jamila vinha caminhando… e parou ao ver a cena.
Tina ao lado dele.
Próxima demais.
Rindo.
Jamila sentiu o incômodo subir na hora.
— Então é assim…
Ela cruzou os braços, observando.
Tina percebeu Jamila ali, mas fingiu não ver.
Se aproximou ainda mais de Afonso.
— Você devia sair mais… viver um pouco.
— Eu já vivo — ele respondeu.
Ela sorriu de lado.
— Não do jeito certo…
Jamila não aguentou e se aproximou.
— Interrompo alguma coisa?
Afonso olhou para ela.
— Jamila… não, a gente só tava…
Tina interrompeu com um sorriso doce.
— Eu só tava ajudando.
Jamila manteve o olhar firme nela.
— Eu vi.
Silêncio.
Tina fingiu inocência.
— Você também pode ajudar, se quiser.
Jamila respondeu seca.
— Eu sei muito bem como ajudar.
Afonso percebeu o clima pesado.
— Calma… não precisa disso.
Tina deu um leve sorriso, como se tivesse vencido um pequeno passo.
— Eu já tô indo… não quero atrapalhar.
Ela passou por Jamila de propósito, bem perto.
— Depois a gente conversa, Afonso.
Saiu tranquila.
Jamila ficou ali, olhando ela ir embora.
— Ela tá muito oferecida…
Afonso suspirou.
— Jamila…
— O quê?
— Você tá com ciúmes?
Ela virou rápido.
— Não viaja.
Ele deu um leve sorriso.
— Tá sim.
Jamila se aproximou, séria.
— Eu só não gosto de gente falsa.
Afonso segurou o olhar dela.
— Então não é ciúmes?
Ela hesitou por um segundo.
— Não.
Mas o olhar dizia tudo.
De longe, Tina observava escondida.
— Tá funcionando…
Ela sorriu satisfeita.
E naquele momento…
o jogo que Ofélia planejou…
começava a dar resultado.
Jamila sentindo.
Tina provocando.
E Afonso…
cada vez mais envolvido no meio disso tudo.
No quarto, Ofélia observava pela janela, pensativa, enquanto Tina se aproximava.
— Não foi o suficiente.
— Eu fiz o que a senhora mandou — Tina respondeu.
— E fez bem… mas agora a gente precisa ir além.
Tina cruzou os braços.
— O que a senhora quer que eu faça?
Ofélia virou devagar.
— Quero que você se aproxime mais… toque mais… faça parecer que vocês têm i********e.
Tina sorriu de leve.
— Pra ela perder o controle.
— Exatamente — Ofélia respondeu. — Quero a Jamila insegura.
— Pode deixar… eu sei como mexer com ela.
Enquanto isso, no fundo da casa, Jamila estava ajoelhada perto do tanque, lavando roupas, concentrada, tentando afastar os pensamentos.
Passos se aproximaram.
— Tá trabalhando sozinha?
Jamila levantou o olhar.
— Ah… é você.
O feitor se aproximou, arregaçando as mangas.
— Deixa eu pegar um balde de água pra você.
— Não precisa… eu dou conta.
— Eu sei que dá… mas não custa nada ajudar.
Ele encheu o balde com água.
— Obrigada.
— Eu vou precisar sair esses dias — ele disse.
Jamila olhou curiosa.
— Sair? Pra onde?
— Algumas fazendas aqui perto… serviço mesmo.
Ela assentiu.
— Entendi…
Ele continuou, olhando de lado pra ela.
— Mas eu vou aproveitar… pra tentar saber alguma coisa dos seus irmãos.
Jamila parou na hora.
— Sério?
— Sério.
Os olhos dela brilharam.
— Você faria isso por mim?
— Claro que faria.
Sem pensar, Jamila se levantou e o abraçou.
— Obrigada… de verdade.
O feitor ficou surpreso por um segundo… mas logo correspondeu.
— Calma…
Ele segurou ela por um instante a mais.
Sentindo o corpo dela próximo.
O cheiro.
O calor.
— Eu vou tentar trazer notícias boas.
Jamila ainda abraçada, fechou os olhos por um instante.
Sentiu algo diferente.
Estranho.
Mas… bom.
Ela se afastou devagar.
— Eu… desculpa.
Ele deu um leve sorriso.
— Não precisa pedir desculpa.
Os dois ficaram se olhando por um momento.
Um clima diferente no ar.
Do outro lado, Tina observava escondida.
— Olha só…
Um sorriso surgiu no rosto dela.
— Isso vai ser interessante.
Ela se virou, já pensando no próximo passo.
— Dona Ofélia vai gostar disso…
E, sem que Jamila percebesse…
o jogo ao redor dela…
só ficava mais complicado.
Tina entrou no quarto apressada, com um sorriso no rosto, claramente satisfeita.
— Dona Ofélia… a senhora precisava ver.
— O que foi agora?
— Tá funcionando… melhor do que a gente esperava.
Ofélia largou o que estava fazendo e olhou pra ela.
— Me conta direito.
— Eu fui até o tanque… o Afonso tava lá… eu me aproximei, fiz tudo certinho.
— E a Jamila?
Tina sorriu mais ainda.
— Morrendo de ciúmes.
— Eu sabia.
— Ela tentou disfarçar… mas deu pra ver no jeito dela.
Tina riu baixo.
— E tem outra Jamila também gosta do feitor eu vi ela próxima de mais dele.
Ofélia estreitou o olhar.
— Próxima como?
— Abraço… conversa… clima estranho.
Silêncio por um segundo.
— Perfeito…
— Eu pensei a mesma coisa — Tina respondeu.
Ofélia começou a andar pelo quarto.
— Então agora a gente tem dois caminhos pra mexer com ela.
— Afonso… e o feitor.
— Exatamente.
Tina cruzou os braços, animada.
— O que a senhora quer que eu faça agora?
Ofélia parou e olhou firme.
— Continua com o Afonso… mas aumenta o nível.
— Mais próxima ainda?
— Muito mais. Quero que pareça que você tem liberdade com ele.
Tina sorriu.
— Ela não vai aguentar.
— E enquanto isso… o feitor faz o resto sozinho.
— Ela vai ficar perdida.
Ofélia assentiu, satisfeita.
— Confusa… insegura… e fraca.
Tina deu um leve riso.
— E quando ela estiver assim…
Ofélia completou fria.
— A gente derruba.
— Pode deixar… eu vou fazer ela sentir cada vez mais.
— Eu sei que vai.
Tina se virou pra sair, já animada.
— Isso tá ficando interessante.
Ofélia voltou a sentar, com um leve sorriso.