Os dias foram passando e o clima na fazenda parecia tranquilo por fora, mas cheio de jogos por dentro. O feitor já tinha viajado, deixando Jamila com a esperança de notícias.
Jamila e Afonso continuavam se encontrando sempre que podiam, mais próximos, mais seguros do que sentiam.
— Você achou que eu ia desistir fácil?
— Nunca achei… eu só não queria te prejudicar.
— Você não me prejudica… você me faz bem.
Eles riam juntos, escondidos, trocando olhares e carinho.
— Quando isso tudo acabar… a gente não vai precisar se esconder.
— Eu espero por isso todos os dias.
Tina continuava tentando. Se aproximava, tocava, provocava.
— Você nunca me dá atenção…
— Tina, você sabe que não é assim.
— Então como é?
Afonso mantinha distância, educado, mas firme.
— Eu respeito você… mas não é isso que você quer.
Tina forçava um sorriso.
— Você é difícil…
De longe, Jamila observava… mas dessa vez, tranquila.
— Ele não muda…
Um leve sorriso aparecia.
No quarto, Tina entrou irritada.
— Não tá funcionando!
— Como não?
— Ele não cai… e ela também não.
Ofélia fechou a expressão.
— Isso não é possível.
— Eu faço tudo… me aproximo… provoco… e nada!
Ofélia se levantou, nervosa.
— E a Jamila?
— Tá mais segura do que antes… parece que confia nele.
Silêncio pesado.
— Isso não pode continuar assim…
Tina cruzou os braços.
— Eles estão mais unidos…
Ofélia respondeu fria.
— Então a gente vai ter que mudar o jogo.
— De novo?
— Até dar certo.
Enquanto isso, no lado de fora, Jamila e Afonso conversavam sentados.
Afonso segurou a mão dela.
— Não adianta mesmo.
No quarto, Ofélia falava com mais frieza agora.
— Se não funciona com ciúmes…
Tina olhou curiosa.
— Então vai ser com dor.
Silêncio.
— O que a senhora quer dizer?
Ofélia olhou firme.
— Agora a gente vai atacar onde dói.
E enquanto Jamila e Afonso se fortaleciam…
Ofélia e Tina…
ficavam cada vez mais irritadas.
Porque, pela primeira vez…
seus planos…
não estavam funcionando.
O feitor voltou depois de dias fora. Assim que chegou, foi direto procurar Jamila. Ela estava no quintal quando viu ele se aproximando.
— Você voltou…
— Voltei.
Ela já se levantou, ansiosa.
— E então? Você conseguiu alguma notícia?
O feitor respirou fundo.
— Procurei em todas as fazendas que passei… perguntei por Aziza e Amir…
Jamila prendeu a respiração.
— E…?
— Nada.
O olhar dela caiu na hora.
— Nem sinal deles?
— Não… mas isso não quer dizer que não estão por aí.
Jamila tentou segurar, mas a tristeza apareceu.
— Eu achei que dessa vez…
O feitor se aproximou mais.
— Ei… olha pra mim.
Ela levantou os olhos, marejados.
— Eu não vou parar de procurar.
— Sério?
— Sério… eu vou tentar de novo, quantas vezes for preciso.
Jamila abraçou ele novamente.
— Obrigada…
Os dias foram passando e nada mudava.
A barriga de Jamila crescia… e o silêncio também.
Ela evitava Afonso cada vez mais.
Desviava quando ele chegava, inventava tarefas, sumia pelos cantos.
Na beira do rio, lavando roupas, Chinara já não aguentava mais.
— Jamila… isso não pode continuar assim.
— Eu sei…
— Não sabe não… se soubesse já tinha contado pra ele.
— Eu não consigo…
Chinara parou o que estava fazendo.
— Sua barriga tá crescendo.
— Eu sei…
— Logo todo mundo vai perceber.
— Eu sei!
Silêncio.
— Então por que você não conta?
— Eu tenho medo…
— Medo não resolve nada.
— E se ele me rejeitar?
Chinara olhou firme.
— E se ele não rejeitar?
Jamila baixou o olhar, angustiada.
— Eu não sei como fazer isso…
— Mas vai ter que fazer.
Chinara se aproximou mais.
— Você não pode esconder um filho.
Jamila levou a mão à barriga.
— Eu só queria mais tempo…
Mais afastada, escondida entre as árvores, Tina escutava tudo.
Parada.
Sem respirar direito.
— Grávida…
Os olhos arregalados.
— Do Afonso…
Ela levou a mão à boca.
— Isso não pode ser verdade…
Ficou em silêncio por um momento… absorvendo tudo.
— Quando dona Ofélia voltar… ela vai saber de tudo.
Enquanto isso, longe dali, Ofélia estava na casa de seus parentes, conversando normalmente, como se nada estivesse acontecendo.
O feitor, porém, estava inquieto.
Observava.
Perguntava.
Se aproximava dos trabalhadores.
Tentando descobrir algo.
Em um momento, ele conseguiu ouvir duas escravas conversando.
— Aqueles dois ali abraçados,chegaram faz muito tempo.
— A menina cuida do menino o tempo todo.
O feitor se aproximou.
— Como eles se chamam?
As duas se entreolharam.
— Ziza… e Amir.
O coração dele apertou.
— De onde eles vieram?
— Foram comprados… trouxeram de longe.
Ele ficou em silêncio.
— Eles têm família?
— Disseram que tinham uma irmã…
Feitor ficou observando a jovem n***a tão bonita quanto Jamila e o menino alto forte e os dois abraçados rindo.
De longe, Ofélia observava.
Sem se aproximar.
Só olhando.
Percebendo.
Guardando.
Mais tarde, já na carruagem de volta, Ofélia quebrou o silêncio.
— O que você estava conversando com aquelas escravas?
O feitor demorou um pouco, mas respondeu.
— Eu descobri uma coisa.
— Sobre o quê?
— Sobre a Jamila.
Ofélia virou o rosto, interessada.
— Fala.
— Os irmãos dela… foram comprados por aqueles fazendeiros.
Ofélia franziu o olhar.
— Jamila tem irmãos?
— Tem.
— Quem são?
— Uma menina… Ziza… ela disse que tinha seis anos quando foi separada.
— E o outro?
— Amir… um menino de quatro anos.
Silêncio.
Ofélia ficou pensativa por um momento.
E então sua expressão mudou.
Fria.
Controlada.
— Você não vai contar isso pra ninguém.
— Mas…
— Pra ninguém.
— Ela merece saber.
— Ela merece fazer o que eu mando.
Silêncio pesado.
— Você entendeu?
O feitor apertou a mão.
— Entendi.
— Vai fazer isso?
— Vou.
Ofélia voltou o olhar pra frente, tranquila.
Como se nada fosse.
E naquele momento…
dois segredos perigosos estavam prontos para explodir.
A gravidez de Jamila…
e a verdade sobre seus irmãos.
E Tina…
já estava pronta…
pra colocar fogo em tudo.