Capítulo 36

1028 Words
Os dias foram passando e o clima na fazenda parecia tranquilo por fora, mas cheio de jogos por dentro. O feitor já tinha viajado, deixando Jamila com a esperança de notícias. Jamila e Afonso continuavam se encontrando sempre que podiam, mais próximos, mais seguros do que sentiam. — Você achou que eu ia desistir fácil? — Nunca achei… eu só não queria te prejudicar. — Você não me prejudica… você me faz bem. Eles riam juntos, escondidos, trocando olhares e carinho. — Quando isso tudo acabar… a gente não vai precisar se esconder. — Eu espero por isso todos os dias. Tina continuava tentando. Se aproximava, tocava, provocava. — Você nunca me dá atenção… — Tina, você sabe que não é assim. — Então como é? Afonso mantinha distância, educado, mas firme. — Eu respeito você… mas não é isso que você quer. Tina forçava um sorriso. — Você é difícil… De longe, Jamila observava… mas dessa vez, tranquila. — Ele não muda… Um leve sorriso aparecia. No quarto, Tina entrou irritada. — Não tá funcionando! — Como não? — Ele não cai… e ela também não. Ofélia fechou a expressão. — Isso não é possível. — Eu faço tudo… me aproximo… provoco… e nada! Ofélia se levantou, nervosa. — E a Jamila? — Tá mais segura do que antes… parece que confia nele. Silêncio pesado. — Isso não pode continuar assim… Tina cruzou os braços. — Eles estão mais unidos… Ofélia respondeu fria. — Então a gente vai ter que mudar o jogo. — De novo? — Até dar certo. Enquanto isso, no lado de fora, Jamila e Afonso conversavam sentados. Afonso segurou a mão dela. — Não adianta mesmo. No quarto, Ofélia falava com mais frieza agora. — Se não funciona com ciúmes… Tina olhou curiosa. — Então vai ser com dor. Silêncio. — O que a senhora quer dizer? Ofélia olhou firme. — Agora a gente vai atacar onde dói. E enquanto Jamila e Afonso se fortaleciam… Ofélia e Tina… ficavam cada vez mais irritadas. Porque, pela primeira vez… seus planos… não estavam funcionando. O feitor voltou depois de dias fora. Assim que chegou, foi direto procurar Jamila. Ela estava no quintal quando viu ele se aproximando. — Você voltou… — Voltei. Ela já se levantou, ansiosa. — E então? Você conseguiu alguma notícia? O feitor respirou fundo. — Procurei em todas as fazendas que passei… perguntei por Aziza e Amir… Jamila prendeu a respiração. — E…? — Nada. O olhar dela caiu na hora. — Nem sinal deles? — Não… mas isso não quer dizer que não estão por aí. Jamila tentou segurar, mas a tristeza apareceu. — Eu achei que dessa vez… O feitor se aproximou mais. — Ei… olha pra mim. Ela levantou os olhos, marejados. — Eu não vou parar de procurar. — Sério? — Sério… eu vou tentar de novo, quantas vezes for preciso. Jamila abraçou ele novamente. — Obrigada… Os dias foram passando e nada mudava. A barriga de Jamila crescia… e o silêncio também. Ela evitava Afonso cada vez mais. Desviava quando ele chegava, inventava tarefas, sumia pelos cantos. Na beira do rio, lavando roupas, Chinara já não aguentava mais. — Jamila… isso não pode continuar assim. — Eu sei… — Não sabe não… se soubesse já tinha contado pra ele. — Eu não consigo… Chinara parou o que estava fazendo. — Sua barriga tá crescendo. — Eu sei… — Logo todo mundo vai perceber. — Eu sei! Silêncio. — Então por que você não conta? — Eu tenho medo… — Medo não resolve nada. — E se ele me rejeitar? Chinara olhou firme. — E se ele não rejeitar? Jamila baixou o olhar, angustiada. — Eu não sei como fazer isso… — Mas vai ter que fazer. Chinara se aproximou mais. — Você não pode esconder um filho. Jamila levou a mão à barriga. — Eu só queria mais tempo… Mais afastada, escondida entre as árvores, Tina escutava tudo. Parada. Sem respirar direito. — Grávida… Os olhos arregalados. — Do Afonso… Ela levou a mão à boca. — Isso não pode ser verdade… Ficou em silêncio por um momento… absorvendo tudo. — Quando dona Ofélia voltar… ela vai saber de tudo. Enquanto isso, longe dali, Ofélia estava na casa de seus parentes, conversando normalmente, como se nada estivesse acontecendo. O feitor, porém, estava inquieto. Observava. Perguntava. Se aproximava dos trabalhadores. Tentando descobrir algo. Em um momento, ele conseguiu ouvir duas escravas conversando. — Aqueles dois ali abraçados,chegaram faz muito tempo. — A menina cuida do menino o tempo todo. O feitor se aproximou. — Como eles se chamam? As duas se entreolharam. — Ziza… e Amir. O coração dele apertou. — De onde eles vieram? — Foram comprados… trouxeram de longe. Ele ficou em silêncio. — Eles têm família? — Disseram que tinham uma irmã… Feitor ficou observando a jovem n***a tão bonita quanto Jamila e o menino alto forte e os dois abraçados rindo. De longe, Ofélia observava. Sem se aproximar. Só olhando. Percebendo. Guardando. Mais tarde, já na carruagem de volta, Ofélia quebrou o silêncio. — O que você estava conversando com aquelas escravas? O feitor demorou um pouco, mas respondeu. — Eu descobri uma coisa. — Sobre o quê? — Sobre a Jamila. Ofélia virou o rosto, interessada. — Fala. — Os irmãos dela… foram comprados por aqueles fazendeiros. Ofélia franziu o olhar. — Jamila tem irmãos? — Tem. — Quem são? — Uma menina… Ziza… ela disse que tinha seis anos quando foi separada. — E o outro? — Amir… um menino de quatro anos. Silêncio. Ofélia ficou pensativa por um momento. E então sua expressão mudou. Fria. Controlada. — Você não vai contar isso pra ninguém. — Mas… — Pra ninguém. — Ela merece saber. — Ela merece fazer o que eu mando. Silêncio pesado. — Você entendeu? O feitor apertou a mão. — Entendi. — Vai fazer isso? — Vou. Ofélia voltou o olhar pra frente, tranquila. Como se nada fosse. E naquele momento… dois segredos perigosos estavam prontos para explodir. A gravidez de Jamila… e a verdade sobre seus irmãos. E Tina… já estava pronta… pra colocar fogo em tudo.
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