Cristiano ficaram deitados em silêncio, ainda próximos, respirando mais calmos.
— Você tá bem?
— Tô…
Ela olhou pra ele, diferente de antes.
— Eu não imaginei que seria assim.
Ele sorriu de leve.
— Eu também não.
Cristiano passou a mão no braço dela com cuidado.
— Eu vou cuidar de você.
Jamila fechou os olhos por um instante.
— Eu tô me sentindo… menos sozinha.
— Você não tá sozinha.
— Eu sei…
Ficaram alguns segundos em silêncio.
Até que Cristiano lembrou de algo.
— Eu tenho uma notícia pra você.
Jamila abriu os olhos rápido.
— O que foi?
— Seus irmãos chegam amanhã.
Ela se levantou um pouco, surpresa.
— Sério?
— Sim.
Os olhos dela encheram de emoção.
— Eles vão estar aqui…
— Dona Ofélia já resolveu tudo.
— Meu Deus…
Jamila levou a mão ao rosto, emocionada.
— Eu esperei tanto por isso…
Cristiano sorriu, vendo a felicidade dela.
— Agora você precisa pensar em outra coisa.
— O quê?
— Quando eles chegarem… você precisa exigir que eles tenham um bom trabalho.
Jamila franziu a testa.
— Como assim?
— Um serviço melhor… mais leve.
— Pra eles não sofrerem tanto.
Jamila assentiu devagar.
— Você tá certo…
— Você precisa proteger eles agora.
Ela olhou firme.
— Eu vou proteger.
Cristiano segurou a mão dela.
— E eu vou te ajudar.
Jamila apertou a mão dele de volta.
— Obrigada… por tudo.
Ela deitou novamente, encostando nele.
— Amanhã… minha vida muda de novo.
Cristiano olhou pra ela com calma.
— E dessa vez… pra melhor.
Jamila fechou os olhos.
Pela primeira vez em muito tempo…
sentia um pouco de paz.
Jamila entrou no quarto devagar. Chinara ainda estava acordada, sentada na cama.
— Onde você tava?
— Eu tava com… meu futuro marido.
Chinara levantou as sobrancelhas.
— Então vocês tão mesmo juntos?
— Tamo.
— De verdade?
Jamila respirou fundo.
— Ele vai ser meu marido… eu preciso tentar ser feliz com ele.
Chinara assentiu.
— Ele não é uma pessoa r**m.
— Eu sei.
— Ele mudou muito depois que te conheceu.
Jamila deu um leve sorriso.
— Eu percebi…
— Até os outros ele tá tratando melhor.
— Eu sei…
Chinara deitou.
— Talvez dê certo.
Jamila olhou pro teto.
— Eu espero que sim.
O dia amanheceu com muito trabalho.
As duas estavam ocupadas desde cedo, organizando tudo.
Mas dessa vez, Jamila estava diferente.
Mais leve.
Mais animada.
Chinara percebeu.
— Você tá feliz hoje.
— Tô…
— É por causa dos seus irmãos?
Os olhos dela brilharam.
— É…
— Hoje eu vou ver eles.
Chinara sorriu.
— Eu também tô curiosa.
Na sala, Ofélia estava sentada.
Jamila respirou fundo e se aproximou.
— Posso falar com a senhora?
— Entre… e feche a porta.
Jamila entrou.
— Já que a gente tem um acordo…
Ofélia olhou com atenção.
— Fala.
— Eu quero que a senhora trate bem os meus irmãos.
Silêncio.
— Eles não vão pra senzala.
Ofélia franziu o rosto.
— E desde quando você faz exigência?
Jamila manteve a postura.
— Desde que eu tô cumprindo a minha parte.
Ofélia ficou em silêncio.
— Não é fácil o que eu tô fazendo.
— Eu não contei pro Afonso…
Silêncio pesado.
Ofélia respirou fundo.
— Seus irmãos vão ficar na casa grande.
Jamila arregalou levemente os olhos.
— Sua irmã vai ficar com você… ajudando nos afazeres.
— E meu irmão?
— Vai ajudar o feitor… e acompanhar Santiago e Afonso.
Jamila relaxou um pouco.
— Obrigada.
Ofélia respondeu fria.
— Não me agradeça… só cumpra o que prometeu.
Jamila assentiu.
— Eu vou cumprir.
Na parte da tarde, o feitor já tinha saído cedo.
Ele mesmo foi buscar os irmãos dela.
Jamila olhava toda hora para a entrada.
— Eles vão chegar…
O coração dela batia forte.
— Finalmente…
Depois de tudo que perdeu…
algo estava voltando pra ela.
No cair da tarde, a carruagem apareceu ao longe. Jamila já estava do lado de fora com Chinara, ansiosa, o coração acelerado.
A carruagem parou. Cristiano desceu primeiro.
— Eles estão aí…
Jamila nem esperou.
A porta se abriu… e uma menina n***a, linda, desceu primeiro. Logo atrás, um rapaz alto, magro, com o olhar atento.
Jamila levou a mão à boca.
— Amir… Aziza…
Ela correu.
— Meus irmãos!
Os três se abraçaram forte, como se nunca mais fossem se soltar.
— Jamila! — Aziza chorava.
— Você voltou pra gente! — Amir dizia emocionado.
Jamila apertava os dois.
— Eu prometi… eu prometi que a gente ia ficar junto de novo!
Aziza chorava agarrada nela.
— Agora a gente tá junto…
— E ninguém mais vai separar a gente — Jamila disse firme.
Amir também abraçou as duas.
— Nunca mais…
Chinara se aproximou, emocionada.
— Sejam bem-vindos…
Aziza sorriu, ainda chorando.
— Obrigada…
Jamila segurou o rosto dos dois.
— Eu senti tanta saudade…
— A gente também — Amir respondeu.
Cristiano observava de longe, satisfeito.
— Valeu a pena…
— Vem, eu vou mostrar tudo pra vocês — Jamila disse.
Chinara ajudou Aziza a pegar algumas coisas.
— Você vai ficar com a gente na casa grande.
Aziza arregalou os olhos.
— Sério?
— Sim.
Amir olhou ao redor, meio desconfiado.
— E eu?
Cristiano respondeu.
— Você vai trabalhar comigo… mas vai ser bem tratado.
Amir assentiu.
— Tá bom.
Jamila segurou a mão dos dois.
— Agora vocês estão comigo.
E enquanto caminhavam juntos…
pela primeira vez em muito tempo…
Jamila sentia que uma parte do seu coração…
tinha sido curada.
Eles entraram na casa grande ainda emocionados. Jamila não soltava a mão dos irmãos.
— Vem, eu vou mostrar onde vocês vão ficar.
Aziza olhava tudo encantada.
— Isso aqui é muito bonito…
— Agora é sua casa também — Jamila disse sorrindo.
Chinara abriu a porta do quarto.
— Você vai ficar aqui com a gente.
Aziza entrou devagar.
— Eu nunca dormi num lugar assim…
Jamila abraçou ela.
— Agora vai dormir todos os dias.
Aziza chorou de novo.
— Obrigada…
Do outro lado, Cristiano levou Amir.
— Você vai me ajudar no trabalho.
Amir olhou firme.
— Eu trabalho duro.
— Eu sei… mas aqui você vai ser respeitado.
Amir assentiu.
— Isso já é muito.
Na cozinha, Chinara preparava algo simples.
— Hoje é dia de comemorar.
Jamila sorriu.
— É o melhor dia da minha vida.
Aziza se aproximou dela.
— Você mudou…
— Mudei muito.
— Mas continua sendo minha irmã.
Jamila segurou o rosto dela.
— Sempre vou ser.
Mais tarde, todos sentaram para comer.
Amir ainda observava tudo com cuidado.
— Eu ainda não acredito…
— Pode acreditar — Cristiano disse.
— Vocês estão seguros aqui.
Jamila olhou para os irmãos.
— Eu prometi… e cumpri.
Do outro lado da sala, Ofélia observava em silêncio.
— Só espero que ela não esqueça do acordo…
Santiago também olhava, pensativo.
— Essa história ta muito estranha.
No canto, Afonso apareceu por um instante… e viu a cena.
Jamila sorrindo com os irmãos.
Cristiano o feitor ao lado dela.
Ele travou.
— Então é isso mesmo…
Virou o rosto e saiu.
Sol percebeu e foi atrás dele.
— Afonso… espera!
Mas ele não quis parar.
— Eu só quero ficar sozinho.
Na mesa, Jamila ainda sorria.
Mas no fundo…
sabia que a felicidade que sentia…
vinha com um preço.
E esse preço…
ainda estava longe de terminar.