Jamila saiu da sala com as pernas fracas, tentando segurar o choro. O feitor veio logo atrás, sem saber o que dizer.
— Jamila…
— Não fala nada… por favor…
Ele ficou em silêncio, respeitando.
Chinara se aproximou.
— Você fez o que precisava.
— Eu não queria isso…
— Eu sei…
Jamila levou a mão à barriga.
— Ele nunca vai saber…
Silêncio.
Dentro da sala, Ofélia chamou Tina novamente.
— Entra.
— Sim, senhora.
— Já resolvi.
Tina sorriu curiosa.
— E então?
— Ela vai se casar com o feitor.
Tina arregalou os olhos.
— E o filho?
— Vai ser dele.
Tina sorriu, satisfeita.
— Perfeito…
— E ninguém pode saber da verdade.
— Pode deixar.
— E Afonso? — Tina perguntou.
Ofélia respondeu fria.
— Não vai desconfiar de nada.
— E se desconfiar?
— Eu resolvo.
Tina saiu, satisfeita.
— Isso vai ser interessante…
Do lado de fora, o feitor parou Jamila.
— Você não precisava aceitar assim…
— Eu precisava sim…
— A gente pode dar um jeito…
— Já dei.
Silêncio.
— Eu só quero meus irmãos perto de mim.
O feitor assentiu.
— E eu vou cuidar de você.
Jamila olhou pra ele, cansada.
— Eu sei…
Chinara falou firme.
— Agora você tem que ser forte.
— Eu não sei se consigo…
— Vai ter que conseguir.
Mais tarde, Afonso apareceu, procurando por Jamila.
— Vocês viram a Jamila?
O feitor respondeu primeiro.
— Ela tá cansada… foi descansar.
Afonso estranhou.
— Ela anda estranha…
Chinara desviou o olhar.
— É só cansaço.
Afonso não ficou convencido.
— Eu vou falar com ela depois.
De longe, Tina observava.
— Não vai não…
Um sorriso surgiu.
No quarto, Jamila estava sentada, chorando baixo.
— Me perdoa…
Passou a mão na barriga.
— Eu não vou poder te contar quem é seu pai.
E naquele momento…
sem saber de nada…
Afonso já estava sendo afastado.
Chinara entrou no quarto e encontrou Jamila sentada na cama, com os olhos vermelhos.
— Você não pode deixar isso assim.
— Eu não aguento…
— Vai ter que aguentar.
— Eu não sei como olhar pra ele…
Chinara se aproximou.
— Quanto mais você demora, pior fica.
— Eu sei…
— Você precisa falar com ele hoje.
— Hoje?
— Hoje. Antes que ele descubra de outro jeito.
Jamila respirou fundo, segurando o choro.
— Eu não queria fazer isso…
Chinara segurou a mão dela.
— Mas vai salvar seus irmãos.
Silêncio.
Jamila levou a mão à barriga.
— Eu vou fazer…
Alguns minutos depois, Jamila saiu procurando Afonso. O coração batia forte.
Ela encontrou ele perto do estábulo.
— Afonso…
— Jamila… eu tava te procurando.
Ela desviou o olhar.
— A gente precisa conversar.
Ele percebeu o tom sério.
— O que foi?
Jamila respirou fundo.
— Eu não quero mais encontrar com você.
Silêncio.
— Como assim?
— A gente precisa parar.
— Por quê?
— Porque… eu tô gostando de outra pessoa.
Afonso ficou sem reação.
— O quê?
— Eu não posso mais ficar com você.
Ele deu um passo mais perto.
— Quem é?
Jamila fechou os olhos por um segundo.
— O feitor.
O silêncio ficou pesado.
Afonso balançou a cabeça, sem acreditar.
— Você tá mentindo.
— Não tô.
— Isso não faz sentido…
— Faz sim.
— E tudo que a gente viveu?
Jamila segurou o choro.
— Acabou.
Os olhos dele se encheram de lágrimas.
— Não… não acabou assim.
— Acabou.
— Você não pode fazer isso comigo.
— Eu já fiz.
Afonso respirou fundo, indignado.
— Foi tudo mentira então?
Jamila não respondeu.
— Olha pra mim e fala!
Ela levantou o olhar, destruída.
— Eu não quero mais você.
Aquilo foi como um golpe.
Afonso recuou, com lágrimas caindo.
— Eu não acredito…
Ele virou as costas.
— Você me destruiu.
Jamila ficou parada, sem conseguir se mexer.
— Me perdoa…
Mas ele já estava indo embora.
Afonso entrou no quarto, fechou a porta com força.
— Não…
Passou a mão no rosto, chorando.
— Isso não pode estar acontecendo…
Do lado de fora…
Jamila desabou em lágrimas.
— Eu fiz isso por vocês…
Segurando a barriga.
E naquele momento…
dois corações se quebravam.
Um por amor.
E outro…
por escolha.
O feitor estava por perto e ouviu toda conversa e ao ver Afonso indo embora e Jamila lá parada chorando ele se aproximou para consolar ela.
Ele ficou em silêncio por um tempo, mas por dentro algo acendeu. Mesmo com toda a situação, uma parte dele estava feliz.
— Eu vou cuidar de você.
— Obrigada por aceitar fazer isso…
— Eu gosto de você.
Jamila olhou pra ele, ainda abalada.
— Mas isso não é justo com você.
— Eu não me importo.
Ele deu um leve sorriso.
— Eu gosto de você… faz tempo.
Jamila abaixou o olhar.
— Eu sei…
— E esse filho…
— Ele vai ser tratado como meu.
Jamila sentiu o coração apertar.
— Obrigada…
— Não me agradece… só fica bem e fica comigo.
Mais tarde, Jamila foi até a sala. Ofélia já estava esperando.
— Já resolveu?
— Já.
— E então?
Jamila respirou fundo.
— Eu falei com Afonso… terminei com ele.
Ofélia observou cada detalhe da reação dela.
— E ele acreditou?
— Sim.
— Ótimo.
Jamila juntou as mãos, nervosa.
— E meus irmãos?
Ofélia respondeu calma.
— Eu vou providenciar a compra deles.
Os olhos de Jamila encheram de esperança.
— Obrigada…
Ofélia se levantou devagar.
— Mas você vai cumprir até o fim.
Jamila assentiu.
— Vou.
O olhar de Ofélia ficou frio.
— Se você abrir a boca…
Silêncio.
— Eu vendo seus irmãos.
Jamila tremeu.
— Não…
— Pra bem longe.
Jamila respirou fundo, firme mesmo com medo.
— Eu jamais faria isso.
Ofélia continuou encarando.
— Eu espero que não.
Jamila abaixou a cabeça.
— Eu vou cumprir tudo.
Ofélia fez um leve gesto.
— Pode ir.
Jamila saiu, tentando se manter firme.
Mas por dentro…
sabia que agora…
não tinha mais volta.