Capítulo 38

1017 Words
Jamila saiu da sala com as pernas fracas, tentando segurar o choro. O feitor veio logo atrás, sem saber o que dizer. — Jamila… — Não fala nada… por favor… Ele ficou em silêncio, respeitando. Chinara se aproximou. — Você fez o que precisava. — Eu não queria isso… — Eu sei… Jamila levou a mão à barriga. — Ele nunca vai saber… Silêncio. Dentro da sala, Ofélia chamou Tina novamente. — Entra. — Sim, senhora. — Já resolvi. Tina sorriu curiosa. — E então? — Ela vai se casar com o feitor. Tina arregalou os olhos. — E o filho? — Vai ser dele. Tina sorriu, satisfeita. — Perfeito… — E ninguém pode saber da verdade. — Pode deixar. — E Afonso? — Tina perguntou. Ofélia respondeu fria. — Não vai desconfiar de nada. — E se desconfiar? — Eu resolvo. Tina saiu, satisfeita. — Isso vai ser interessante… Do lado de fora, o feitor parou Jamila. — Você não precisava aceitar assim… — Eu precisava sim… — A gente pode dar um jeito… — Já dei. Silêncio. — Eu só quero meus irmãos perto de mim. O feitor assentiu. — E eu vou cuidar de você. Jamila olhou pra ele, cansada. — Eu sei… Chinara falou firme. — Agora você tem que ser forte. — Eu não sei se consigo… — Vai ter que conseguir. Mais tarde, Afonso apareceu, procurando por Jamila. — Vocês viram a Jamila? O feitor respondeu primeiro. — Ela tá cansada… foi descansar. Afonso estranhou. — Ela anda estranha… Chinara desviou o olhar. — É só cansaço. Afonso não ficou convencido. — Eu vou falar com ela depois. De longe, Tina observava. — Não vai não… Um sorriso surgiu. No quarto, Jamila estava sentada, chorando baixo. — Me perdoa… Passou a mão na barriga. — Eu não vou poder te contar quem é seu pai. E naquele momento… sem saber de nada… Afonso já estava sendo afastado. Chinara entrou no quarto e encontrou Jamila sentada na cama, com os olhos vermelhos. — Você não pode deixar isso assim. — Eu não aguento… — Vai ter que aguentar. — Eu não sei como olhar pra ele… Chinara se aproximou. — Quanto mais você demora, pior fica. — Eu sei… — Você precisa falar com ele hoje. — Hoje? — Hoje. Antes que ele descubra de outro jeito. Jamila respirou fundo, segurando o choro. — Eu não queria fazer isso… Chinara segurou a mão dela. — Mas vai salvar seus irmãos. Silêncio. Jamila levou a mão à barriga. — Eu vou fazer… Alguns minutos depois, Jamila saiu procurando Afonso. O coração batia forte. Ela encontrou ele perto do estábulo. — Afonso… — Jamila… eu tava te procurando. Ela desviou o olhar. — A gente precisa conversar. Ele percebeu o tom sério. — O que foi? Jamila respirou fundo. — Eu não quero mais encontrar com você. Silêncio. — Como assim? — A gente precisa parar. — Por quê? — Porque… eu tô gostando de outra pessoa. Afonso ficou sem reação. — O quê? — Eu não posso mais ficar com você. Ele deu um passo mais perto. — Quem é? Jamila fechou os olhos por um segundo. — O feitor. O silêncio ficou pesado. Afonso balançou a cabeça, sem acreditar. — Você tá mentindo. — Não tô. — Isso não faz sentido… — Faz sim. — E tudo que a gente viveu? Jamila segurou o choro. — Acabou. Os olhos dele se encheram de lágrimas. — Não… não acabou assim. — Acabou. — Você não pode fazer isso comigo. — Eu já fiz. Afonso respirou fundo, indignado. — Foi tudo mentira então? Jamila não respondeu. — Olha pra mim e fala! Ela levantou o olhar, destruída. — Eu não quero mais você. Aquilo foi como um golpe. Afonso recuou, com lágrimas caindo. — Eu não acredito… Ele virou as costas. — Você me destruiu. Jamila ficou parada, sem conseguir se mexer. — Me perdoa… Mas ele já estava indo embora. Afonso entrou no quarto, fechou a porta com força. — Não… Passou a mão no rosto, chorando. — Isso não pode estar acontecendo… Do lado de fora… Jamila desabou em lágrimas. — Eu fiz isso por vocês… Segurando a barriga. E naquele momento… dois corações se quebravam. Um por amor. E outro… por escolha. O feitor estava por perto e ouviu toda conversa e ao ver Afonso indo embora e Jamila lá parada chorando ele se aproximou para consolar ela. Ele ficou em silêncio por um tempo, mas por dentro algo acendeu. Mesmo com toda a situação, uma parte dele estava feliz. — Eu vou cuidar de você. — Obrigada por aceitar fazer isso… — Eu gosto de você. Jamila olhou pra ele, ainda abalada. — Mas isso não é justo com você. — Eu não me importo. Ele deu um leve sorriso. — Eu gosto de você… faz tempo. Jamila abaixou o olhar. — Eu sei… — E esse filho… — Ele vai ser tratado como meu. Jamila sentiu o coração apertar. — Obrigada… — Não me agradece… só fica bem e fica comigo. Mais tarde, Jamila foi até a sala. Ofélia já estava esperando. — Já resolveu? — Já. — E então? Jamila respirou fundo. — Eu falei com Afonso… terminei com ele. Ofélia observou cada detalhe da reação dela. — E ele acreditou? — Sim. — Ótimo. Jamila juntou as mãos, nervosa. — E meus irmãos? Ofélia respondeu calma. — Eu vou providenciar a compra deles. Os olhos de Jamila encheram de esperança. — Obrigada… Ofélia se levantou devagar. — Mas você vai cumprir até o fim. Jamila assentiu. — Vou. O olhar de Ofélia ficou frio. — Se você abrir a boca… Silêncio. — Eu vendo seus irmãos. Jamila tremeu. — Não… — Pra bem longe. Jamila respirou fundo, firme mesmo com medo. — Eu jamais faria isso. Ofélia continuou encarando. — Eu espero que não. Jamila abaixou a cabeça. — Eu vou cumprir tudo. Ofélia fez um leve gesto. — Pode ir. Jamila saiu, tentando se manter firme. Mas por dentro… sabia que agora… não tinha mais volta.
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