Afonso estava no quarto, andando de um lado para o outro, passando a mão no rosto, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
— Não… isso não faz sentido…
A porta abriu devagar. Santiago entrou, observando o filho.
— O que aconteceu?
Afonso virou rápido, tentando disfarçar.
— Nada…
Santiago percebeu na hora.
— Você tá chorando.
Silêncio.
Afonso respirou fundo, sem conseguir mais esconder.
— Foi a Jamila.
Santiago fechou a porta e se aproximou.
— O que ela fez?
Afonso sentou na cama, destruído.
— Ela terminou comigo…
— Terminou como assim,terminou oque?
— Disse que não quer mais nada…
Santiago ficou em silêncio.
Afonso apertou os olhos.
— Disse que tá gostando de alguém.
— Quem?
Afonso respondeu com raiva e dor.
— O feitor.
Santiago respirou fundo, absorvendo.
— E oque que tem a ver isso com você?
Afonso levantou, nervoso.
— Não, o senhor não entende!
— Então me explica.
— A gente se encontrava… escondido…
Santiago ficou sério.
— Vocês estavam juntos?
— Eu amo ela!
Silêncio pesado.
— Não era brincadeira… não era nada disso que ela falou.
— E você acha que ela mentiu?
— Eu tenho certeza!
Santiago andou pelo quarto, pensativo.
— Afonso…
— Ela não faria isso comigo…
— Talvez tenha feito pelo bem dela.
Afonso olhou indignado.
— Como assim?
— Você sabe como as coisas funcionam aqui.
— Eu não me importo com isso!
— Mas o mundo se importa.
Afonso balançou a cabeça.
— Eu ia assumir ela… eu ia ficar com ela…
Santiago olhou firme.
— E você acha que iam deixar?
Silêncio.
— Você ia sofrer… e ela mais ainda.
— Eu não ligo!
— Mas eu ligo.
Afonso respirava pesado.
— Então o senhor acha que foi melhor assim?
Santiago demorou um pouco, mas respondeu.
— Acho.
— Porque isso ia destruir vocês dois.
Afonso deixou uma lágrima cair.
— Já destruiu…
Santiago se aproximou e colocou a mão no ombro dele.
— O tempo vai te fazer entender.
— Eu não quero entender…
— Eu só queria ela.
Santiago suspirou.
— Às vezes… a gente não fica com quem quer.
Afonso abaixou a cabeça.
— Isso não é justo…
— Nunca foi.
O silêncio tomou o quarto.
E naquele momento…
Afonso não sabia…
que tinha perdido muito mais…
do que imaginava.
Santiago respirou fundo e se levantou.
— Tenta descansar.
Afonso não respondeu.
— Isso vai passar.
— Não vai.
Santiago ficou em silêncio por um instante.
— Vai sim.
Ele saiu do quarto, fechando a porta devagar.
Afonso ficou sozinho, olhando pro nada.
— Eu não acredito…
Passou a mão no rosto, ainda chorando.
Na sala, Santiago encontrou Ofélia sentada, tranquila.
— Você já sabe?
Ela levantou o olhar.
— Sei de tudo.
Santiago suspirou.
— Eu falei com o Afonso.
— E então?
— Ele tá destruído.
Ofélia soltou uma leve risada.
— Claro que tá.
Santiago franziu a testa.
— Isso não tem graça.
Ela se recostou na cadeira.
— Afonso acha que ia casar com uma escrava?
Silêncio.
— Só se ele passasse por cima do meu cadáver.
Santiago olhou pra ela, sério.
— Você foi longe demais.
— Eu fiz o que precisava.
Ele balançou a cabeça.
— Você não pensa nas consequências.
— Eu penso sim… por isso fiz.
Santiago não respondeu.
Só virou as costas.
E saiu da sala.
Ofélia ficou sozinha, com um leve sorriso frio.
— Tudo no seu devido lugar…
E naquele momento…
ela acreditava…
que estava no controle de tudo.
Afonso saiu do quarto decidido.
— Isso não vai ficar assim.
Ele caminhou rápido até o lado de fora e avistou Jamila perto da senzala.
— Jamila!
Ela se virou, já tensa.
— O que você quer?
— Eu quero a verdade.
— Eu já te disse.
— Não disse não!
Ele se aproximou, com os olhos cheios de dor.
— Você acha que eu vou acreditar nisso?
— Você precisa acreditar.
— A gente se ama!
Jamila desviou o olhar.
— Não…
— Não mente pra mim!
— Eu não tô mentindo.
Afonso segurou o braço dela.
— Por que você tá fazendo isso?
— Me solta.
— Me responde!
— Eu já respondi!
Nesse momento, o feitor se aproximou.
— Afonso…
— Fica fora disso!
— Calma…
Jamila falou firme.
— Não… ele não precisa ficar fora.
Silêncio.
— Eu tô gostando dele.
Afonso ficou imóvel.
— O quê?
— E a gente vai se casar.
O mundo pareceu parar.
— Você não tá falando sério…
Jamila olhou direto pra ele.
— Tô sim.
E antes que pensasse mais, ela puxou o feitor e o beijou.
Um beijo direto.
Forte.
Decidido.
Afonso deu um passo pra trás, como se tivesse sido atingido.
— Não…
Ele virou o rosto, sem conseguir olhar.
— Não acredito nisso…
Sem dizer mais nada, virou as costas.
— Acabou…
Saiu andando rápido.
Logo depois, montou no cavalo.
— Droga!
E saiu em disparada.
O silêncio ficou pesado.
Jamila se afastou devagar.
— Me desculpa…
O feitor olhou pra ela com calma.
— Não precisa pedir desculpa.
— Eu não queria fazer isso assim…
— Eu sei.
Ele respirou fundo.
— E para de me chamar de feitor.
Ela olhou confusa.
— O quê?
— Meu nome é Cristiano.
Ela assentiu devagar.
— Tá… Cristiano.
— Eu tô aqui por você.
— Eu sei…
— E por mim…
Ele deu um leve sorriso.
— Eu posso ser seu marido de verdade.
Silêncio.
— A não ser que você não queira.
Jamila olhou pra ele, com os olhos ainda úmidos.
— Eu…
Ela respirou fundo.
— Você tá fazendo tudo isso por mim.
— Não… tô fazendo porque eu gosto de você.
Jamila deu um pequeno sorriso.
— Eu entendo…
Ela baixou o olhar por um instante.
— Então eu vou tentar.
— Tentar o quê?
— Ser sua mulher… de verdade.
Cristiano ficou em silêncio, surpreso.
— Mesmo que seja difícil…
— Eu não vou te forçar a nada.
— Eu sei…
Ela respirou fundo.
— Mas é o mínimo que eu posso fazer.
— Por tudo que você tá fazendo por mim…
Cristiano assentiu.
— Então a gente vai fazer isso dar certo.
Jamila deu um leve sorriso.
Mas por dentro…
ainda sentia o beijo de Afonso.
E sabia…
que não seria fácil esquecer.