Capítulo 39

1061 Words
Afonso estava no quarto, andando de um lado para o outro, passando a mão no rosto, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. — Não… isso não faz sentido… A porta abriu devagar. Santiago entrou, observando o filho. — O que aconteceu? Afonso virou rápido, tentando disfarçar. — Nada… Santiago percebeu na hora. — Você tá chorando. Silêncio. Afonso respirou fundo, sem conseguir mais esconder. — Foi a Jamila. Santiago fechou a porta e se aproximou. — O que ela fez? Afonso sentou na cama, destruído. — Ela terminou comigo… — Terminou como assim,terminou oque? — Disse que não quer mais nada… Santiago ficou em silêncio. Afonso apertou os olhos. — Disse que tá gostando de alguém. — Quem? Afonso respondeu com raiva e dor. — O feitor. Santiago respirou fundo, absorvendo. — E oque que tem a ver isso com você? Afonso levantou, nervoso. — Não, o senhor não entende! — Então me explica. — A gente se encontrava… escondido… Santiago ficou sério. — Vocês estavam juntos? — Eu amo ela! Silêncio pesado. — Não era brincadeira… não era nada disso que ela falou. — E você acha que ela mentiu? — Eu tenho certeza! Santiago andou pelo quarto, pensativo. — Afonso… — Ela não faria isso comigo… — Talvez tenha feito pelo bem dela. Afonso olhou indignado. — Como assim? — Você sabe como as coisas funcionam aqui. — Eu não me importo com isso! — Mas o mundo se importa. Afonso balançou a cabeça. — Eu ia assumir ela… eu ia ficar com ela… Santiago olhou firme. — E você acha que iam deixar? Silêncio. — Você ia sofrer… e ela mais ainda. — Eu não ligo! — Mas eu ligo. Afonso respirava pesado. — Então o senhor acha que foi melhor assim? Santiago demorou um pouco, mas respondeu. — Acho. — Porque isso ia destruir vocês dois. Afonso deixou uma lágrima cair. — Já destruiu… Santiago se aproximou e colocou a mão no ombro dele. — O tempo vai te fazer entender. — Eu não quero entender… — Eu só queria ela. Santiago suspirou. — Às vezes… a gente não fica com quem quer. Afonso abaixou a cabeça. — Isso não é justo… — Nunca foi. O silêncio tomou o quarto. E naquele momento… Afonso não sabia… que tinha perdido muito mais… do que imaginava. Santiago respirou fundo e se levantou. — Tenta descansar. Afonso não respondeu. — Isso vai passar. — Não vai. Santiago ficou em silêncio por um instante. — Vai sim. Ele saiu do quarto, fechando a porta devagar. Afonso ficou sozinho, olhando pro nada. — Eu não acredito… Passou a mão no rosto, ainda chorando. Na sala, Santiago encontrou Ofélia sentada, tranquila. — Você já sabe? Ela levantou o olhar. — Sei de tudo. Santiago suspirou. — Eu falei com o Afonso. — E então? — Ele tá destruído. Ofélia soltou uma leve risada. — Claro que tá. Santiago franziu a testa. — Isso não tem graça. Ela se recostou na cadeira. — Afonso acha que ia casar com uma escrava? Silêncio. — Só se ele passasse por cima do meu cadáver. Santiago olhou pra ela, sério. — Você foi longe demais. — Eu fiz o que precisava. Ele balançou a cabeça. — Você não pensa nas consequências. — Eu penso sim… por isso fiz. Santiago não respondeu. Só virou as costas. E saiu da sala. Ofélia ficou sozinha, com um leve sorriso frio. — Tudo no seu devido lugar… E naquele momento… ela acreditava… que estava no controle de tudo. Afonso saiu do quarto decidido. — Isso não vai ficar assim. Ele caminhou rápido até o lado de fora e avistou Jamila perto da senzala. — Jamila! Ela se virou, já tensa. — O que você quer? — Eu quero a verdade. — Eu já te disse. — Não disse não! Ele se aproximou, com os olhos cheios de dor. — Você acha que eu vou acreditar nisso? — Você precisa acreditar. — A gente se ama! Jamila desviou o olhar. — Não… — Não mente pra mim! — Eu não tô mentindo. Afonso segurou o braço dela. — Por que você tá fazendo isso? — Me solta. — Me responde! — Eu já respondi! Nesse momento, o feitor se aproximou. — Afonso… — Fica fora disso! — Calma… Jamila falou firme. — Não… ele não precisa ficar fora. Silêncio. — Eu tô gostando dele. Afonso ficou imóvel. — O quê? — E a gente vai se casar. O mundo pareceu parar. — Você não tá falando sério… Jamila olhou direto pra ele. — Tô sim. E antes que pensasse mais, ela puxou o feitor e o beijou. Um beijo direto. Forte. Decidido. Afonso deu um passo pra trás, como se tivesse sido atingido. — Não… Ele virou o rosto, sem conseguir olhar. — Não acredito nisso… Sem dizer mais nada, virou as costas. — Acabou… Saiu andando rápido. Logo depois, montou no cavalo. — Droga! E saiu em disparada. O silêncio ficou pesado. Jamila se afastou devagar. — Me desculpa… O feitor olhou pra ela com calma. — Não precisa pedir desculpa. — Eu não queria fazer isso assim… — Eu sei. Ele respirou fundo. — E para de me chamar de feitor. Ela olhou confusa. — O quê? — Meu nome é Cristiano. Ela assentiu devagar. — Tá… Cristiano. — Eu tô aqui por você. — Eu sei… — E por mim… Ele deu um leve sorriso. — Eu posso ser seu marido de verdade. Silêncio. — A não ser que você não queira. Jamila olhou pra ele, com os olhos ainda úmidos. — Eu… Ela respirou fundo. — Você tá fazendo tudo isso por mim. — Não… tô fazendo porque eu gosto de você. Jamila deu um pequeno sorriso. — Eu entendo… Ela baixou o olhar por um instante. — Então eu vou tentar. — Tentar o quê? — Ser sua mulher… de verdade. Cristiano ficou em silêncio, surpreso. — Mesmo que seja difícil… — Eu não vou te forçar a nada. — Eu sei… Ela respirou fundo. — Mas é o mínimo que eu posso fazer. — Por tudo que você tá fazendo por mim… Cristiano assentiu. — Então a gente vai fazer isso dar certo. Jamila deu um leve sorriso. Mas por dentro… ainda sentia o beijo de Afonso. E sabia… que não seria fácil esquecer.
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