Capítulo 1 - Amanda

1857 Words
- … só acho que deveríamos sair e comemorar, amiga!   O entusiasmo na voz de meu amigo – o melhor de todos – Michael, com quem dividia apartamento há muitos anos, era palpável e não me causou espanto. Seu humor era inabalável e sempre estava pronto para comemorar o que fosse. Seja 1k de seguidores no insta ou a compra daquele carro novo que tanto desejava, sempre era hora de comemorar. É parte de quem ele é, desde sempre. Impossível mudar tal característica.   - Acha mesmo que é uma boa ideia? Amanhã começo no novo emprego. Passar a noite toda na farra vai me deixar com cara de ressaca em meu primeiro dia.   - Você é a primeira pessoa que conheço que vai começar a trabalhar em plena terça-feira. Pessoas normais começam na segunda-feira, sabia disso?   - Não é culpa minha. Na verdade, só não comecei hoje porque meu uniforme não ficou pronto a tempo. Inclusive, preciso passar lá na empresa daqui a pouco para buscar. Deixaram na portaria.   - Não muda de assunto.... Vaaaaamos! Só se vive uma vez, Amanda. - Estava decidido a me convencer a acompanhá-lo.   - O que aconteceu com o boy de ontem? Já dispensou? - brinquei.   - Ai, amiga… é tão difícil, viu? Não senti afinidade com ele. Ele é gato, tem um peitoral maravilhoso, uma pegada surreal… mas não tem nada na cabeça. Só conversa bobeira.   - Você merece coisa muito melhor; tenha certeza disso. E sobre a saída de hoje… não sei não. – Falei coçando a cabeça com impaciência.   Michael estava literalmente jogado no chão em meio às inúmeras caixas espalhadas na sala. Tinha caixa por todo o apartamento desde que a mudança chegou há dois dias. Desde a mudança não fazíamos nada a não ser arrumar coisas e mais coisas; só pensávamos em deixar tudo em ordem o quanto antes. Não contratamos uma empresa para arrumar tudo porque queríamos deixar com a nossa cara. Confesso que àquela altura, eu já estava arrependida de ter concordado com esse plano.   Ele abriu aquele enorme e sedutor sorriso para mim – Michael era um homem muito bonito, corpo sarado, cabelos escuros e olhos cor de mel – mesmo depois de dias de bagunça e arrumação, sua beleza era impecável. Eu ficava muito estressada com isso e as vezes queria bater nele por ser tão gato – ainda bem que ele era uma das pessoas que eu mais amava neste mundo. Só tinha um problema: não tinha sorte no amor – o que não era muito diferente de mim.   - Não disse que íamos passar a noite toda, embora seja uma ideia incrível! - baixou a voz nessa última frase - Apenas um jantarzinho e um pouco de vinho – continuou insistindo – A gente vai naquele restaurante que você queria tanto conhecer. Fiquei sabendo que tem happy hour também. Voltamos antes das nove, prometo!   - Vou fazer o possível para chegar a tempo – mostrei a ele os trajes de academia que usava – Vou conhecer a academia que vimos ontem e também preciso aproveitar o tempo livre para passar na portaria da empresa, onde deixaram meu uniforme para que eu pegasse, lembra? Pensei também em calcular a distância e o tempo que vou levar andando daqui para o escritório. Não posso correr o risco de me atrasar já no primeiro dia só por ter sido uma i****a e não ir conhecer o território.   - Tá muito simples de resolver essa questão: faça a metade do treino na academia hoje e compensa no treino de amanhã. Volte correndo para casa depois de pegar seu uniforme, isso ajuda a manter a forma também – ele era muito sorrateiro. Seu jeito malandrinho me fez gargalhar. Tenho muita fé de que ainda vou ver aquele rosto esculpido por anjos estampado nas maiores revistas de moda do mundo com a legenda “O Cabelereiro dos Famosos!”. Michael era o tipo de homem que era lindo até quando acordava.   - Podemos combinar de ir na sexta-feira. O que acha? Aí sim… comemoramos a noite inteira, sem culpa e sem ter de acordar cedo no dia seguinte – sugeri, torcendo que ele aceite minha proposta – Me deixe sobreviver a minha primeira semana, ok? Ou quase semana. – Corrigi.   - Tudo bem - ele finalmente desistiu e se rendeu - Tá combinado. E se você inventar alguma desculpa, saio arrastando você pelos cabelos como aqueles homens das cavernas faziam – criou coragem para levantar do chão e continuar arrumando os livros na estante – Acho que hoje jantaremos um delicioso macarrão à carbonara. – Completou como se não tivesse acabado de ter um ataque de pelanca.   - Hummm… não faz isso comigo! Estou indo a academia para ficar em forma e você quer me encher de macarrão?! - faço uma falsa reclamação. Além de tudo, é um excelente cozinheiro.   - Você não devia estar indo não sei aonde? - fingiu estar bravo com as mãos na cintura e me despedi dele fechando a porta em seguida.   Desci até o hall de entrada do prédio, onde encontrei o senhor Charles – o Porteiro – que lia o jornal do dia. Parecia absorto em meios às notícias.   - Boa tarde, senhor Charles. Tudo bem? - o cumprimentei.   - Boa tarde, senhorita Smith. Estou bem, obrigado. E a senhorita? - ele respondeu, sempre muito educado.   - Estou bem obrigada. Deixaram algo aqui para mim? Pedi a uma colega que fizesse uma entrega. Como ainda não mudei o endereço antigo, ela me disse que traria minha correspondência e deixaria aqui.   - Ainda não; mas assim que chegar, lhe aviso.   -Muito obrigada, senhor. Charles. Até mais tarde.   - Por nada, senhorita. Esfriou um pouco, poder ser que venha a chover. Tome cuidado.   Agradeci com um aceno e segui com a minha programação. O clima lá fora realmente tinha esfriado, estava ameno, o que me permitiu aproveitar bastante o trajeto de ida. Adoro frio, chuva, clima nublado… me deixam mais feliz – eu sei, isso é estranho.   A cidade é muito encantadora e isso eu já sabia - vivi toda minha vida aqui - mas esse outro lado da cidade é realmente uma surpresa para mim que literalmente vim do lado oposto, onde vivi a vida quase toda.   Graças aos atributos financeiros de Michael e de minha família, conseguimos comprar um apartamento muito bem localizado – o que facilitará muito nossas vidas em relação a economizar tempo e dinheiro para irmos aos nossos trabalhos. No início, relutei bastante em aceitar que meu pai e ele arcariam com todas as nossas despesas como mudança e tudo o que envolvia este salto louco que demos em nossas vidas, mas ambos me convenceram. Michael usou o argumento de que sou sua única família e que por mim faria tudo o que fosse possível. Não posso negar que meu sentimento é recíproco, ele é minha família também – não é a única família que tenho, é claro, no entanto, por ele sou capaz de enfrentar o mundo inteiro.   A medida em que me deixava absorver por meus devaneios, fui me afastando do prédio onde morávamos… tudo estava muito tranquilo e eu não tinha dúvida alguma de que me adaptaria com muita facilidade àquela nova rotina, em uma nova moradia, com nova vizinhança e… um novo emprego. Esse pensamento fez meu estômago revirar; o nervosismo natural de estreia. A maioria das pessoas passam por isso e comigo não seria diferente.   Aquele lado da cidade era um completo desconhecido para mim e sinceramente, queria ir com calma e aprendendo tudo devagar, afinal, foi o lugar que escolhi para chamar de lar e ainda há tantos lugares para conhecer, há tanta coisa nova que preciso experimentar. Muitos comportamentos me impressionam, rostos diferentes, sotaques. Aqui é possível encontrar várias etnias e acho tudo isso muito incrível. Talvez quem já more deste lado da cidade há muito tempo nem repare em nada disso; mas como para mim, tudo é novidade, essas características saltam aos olhos.   É quase impossível se manter indiferente diante de todo aquele cenário, mas era necessário, para mostrar segurança a mim mesma. Aquela mudança de ares era, de longe, a atitude mais corajosa que eu já havia tomado. Apesar de não termos saído da cidade, estávamos mergulhando em um universo completamente novo, principalmente na esfera profissional.   Saí da casa de meus pais quando entrei na faculdade e não retornei mais. De lá fui morar com Michael e tentar trilhar meus próprios horizontes, muito embora escutasse com certa frequência que deveria voltar para a casa deles, que sentiam minha falta e etc. Eu queria mais que isso. Queria me desafiar a fazer coisas novas. Trabalhei em um modesto escritório do pai de uma amiga assim que saí da faculdade de Direito e foi uma experiência muito enriquecedora. Fiquei lá durante quatro anos e foi quando surgiu a oportunidade de trabalhar em uma das firmas de advocacia importantes do estado: a Johnson & Williams. Seria a associada de um dos advogados que compunham o quadro da firma, o que exigiria um pouco além do que eu já havia feito em minha experiência anterior, mas isso não me incomodava. Como disse, eu queria me desafiar.   Minha amiga, que havia aberto as portas da firma de sua família aceitou minha saída sob a condição de que eu fosse e “fizesse bonito”. Nunca irei esquecer o dia de minha despedida; meu último dia no escritório foi marcado por muito choro, bolinhos e lembranças de nossa longa história juntas. É o tipo de experiência que realmente marca.   Aceitei de bom grado a ajuda de meus pais para que eu pudesse me estabelecer e a partir daí, seguiria por conta própria; afinal de contas, não é todo mundo que tem a chance de nascer em berço de ouro como tive, mas isso não significa que devo agir feito um parasita para o resto de minha vida. Tudo estava acontecendo de acordo com o planejado. Eu estava feliz por estar começando a tomar as rédeas de minha vida de verdade e grata por todo o amparo financeiro que havia recebido até aqui. Toda a grana que minha família tinha, era deles. Mérito deles e eu queria agora correr atrás do meu futuro, ao invés de ser a herdeira do império construído por meu pai.   Eles já fizeram tanto por mim; tive muito conforto, viagens pelo mundo, faculdade bancada por eles, carro caro, roupas caras e por último, o apartamento em que moramos atualmente. Porém, estava mais do que na hora de começar a cuidar de mim mesma. Era tão difícil fazê-los compreender que eu gostaria de realizar minhas próprias conquistas e confesso que as vezes se tornava um pouco cansativo explicar a eles (principalmente à minha mãe), que eu queria me sentir uma vencedora em algum momento. Mas enfim, aos poucos venho realizando meus próprios feitos e tem sido uma experiência incrível. Solitária, considerando minha vida amorosa desastrosa, mas faz parte.  *** Caros leitores e leitoras, Siga meu perfil aqui na Dreame e siga também minhas histórias. Isso me incentiva muito a continuar escrevendo. Obrigada por lerem minhas histórias!  ***
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