Capítulo 18

2621 Words
Meredith não era do tipo que acreditava em contos de fadas, mas digamos que ela e Brisbee já tinham entendido que estavam ali para “copular” e dar filhos à Starian. Elas não estavam empolgadas, ao contrário, aquilo gerava um certo medo, mas sabiam que Gisele tinha uma oportunidade de ouro: fazer isso com alguém que valia a pena. E ela havia jogado essa oportunidade fora. — Não podem me culpar por estar fazendo o certo. Eu me assustei com essa história de casamento e eternidade. É bizarro! — Gisele tentou se justificar. — Não, garota bonita. — Meredith se sentou ao seu lado enquanto ajeitava a sua bandeja de refeição e Brisbee fazia o mesmo. — Bizarro é a gente conseguir t*****r com o planeta inteiro e na hora de tomar juízo sair correndo. E ainda trazer isso para um planeta que tem o processo do modo mais simplificado possível. Aqui não tem essa merda de fazer um “test drive” e depois decidir se quer dirigir o possante. Gisele pegou seu pote, abriu os hashis de metal e mexeu a gosma verde. Havia pelotas brancas com um caldo verde e uma gosma transparente, de um aspecto não muito bonito mas deliciosamente suculento. — Eu não fiz isso. — reclamou. — Qual é, Gi? — Brisbee insistiu — Trauma? Porque assim, se você não ficar com ele, vai ser designada a outro Stariano. — Gente eu só… — Ela bateu os hashis no pote e quando ia reclamar, Cassandra Maltez se aproximou da mesa com seu prato em mão e foi tomando lugar na mesa com elas. — Cassandra? — Soube que dispensou o Stariano dourado — a mulher foi logo se adiantando — e fez bem. Sei que essas duas estão tentando te convencer do contrário, mas você fez bem. Meredith revirou os olhos. — Vai pregar aqui? Hoje não é um bom dia, Cassandra. — Brisbee tentou impedir. — Eu orei por você e sua salvação! — ela sorriu convicta — Minhas preces foram atendidas. Você não está grávida e não terá aberrações para espalhar esses demônios pelo universo. Gisele nunca deu ouvidos à Cassandra, mas naquele momento sentiu uma pontada de dor ao ouvir ela dizer a palavra “grávida” e “aberrações” na mesma frase. Não que a julgasse, já que Gisele tinha medos por ouvir e dar credibilidade a várias histórias que nunca viu acontecer. Acreditar, induz as pessoas ao sucesso, mas também ao fiasco. Gisele optou se calar enquanto a mulher se colocou a falar sobre sua missão nesse planeta e sua tentativa de converter as mulheres daqui para um mundo limpo. O engasgo ficou preso em sua garganta, porque nem seque ponderou o óbvio. Ela se deitou com Darius e o fez isso fortemente, e o dispensou sem nem sequer imaginar se havia alguma coisa na sua barriga. E ela decidiu que tentaria entender seus sentimentos um pouco melhor, uma vez que surgiu em sua cabeça o fato de que não poderia pensar apenas em si mesma. E sim, as palavras de Meredith tinham um grande peso. Se Gisele tivesse que fazer o experimento com outro Stariano, ela jamais conseguiria. — A chefona vem aí. — Meredith deu um cutucão em Gisele ao notar que ela estava um pouco fora do ar, então Gisele levantou os olhos e viu Elaine com seu jaleco branco, caderneta nas mãos e óculos no rosto. Junto com ela havia mais dois Starianos juntos, mas nenhum deles era Darius. — Eu acho que já sabe o motivo da minha vinda, não é? — Elaine tentou ser educada, mas sentiu a ponta do desgosto na voz da mulherzinha. — Eu preciso que venha comigo. Depois peça uma refeição, é urgente. Ninguém conseguiu abrir os lábios. Apenas olharam penalizadas para Gisele, observaram ela se levantar enquanto Brisbee lhe direcionava um olhar otimista e Meredith mexia nos lábios um “boa sorte” para a amiga. Cassandra não compactuava com Elaine, então sequer se deu o trabalho de olhar para trás. Gisele usava um conjunto de moletom cinza pela manhã. Elas se trocavam depois da refeição matinal, mas saiu para acompanhar Elaine e os starianos. Com a convivência e o tempo, Gisele já não tremelicava com a presença deles e pensava muito menos nas histórias de terror que ouviu e fantasiou em sua cabeça, tornando sua estadia mais fácil no lugar. logo, se retiraram do refeitório e saíram dos olhos curiosos das outras humanas, dando espaço para Gisele se sentir mais a vontade. — Para onde vamos? — Pra minha casa. — Elaine abriu um sorriso, não parecia estar brava, mas notou Gisele olhar ao redor de um modo curioso enquanto andavam pelo território da quarentena. — Ele não está aqui. Ela abortou o mesmo elevador que Darius usara para ir pra sua casa, onde tinha levado Gisele no seu primeiro encontro. Ela tentou não pensar nisso e tentou fingir que não estava procurando ninguém, mas no instante que a porta fechou ela soltou um pequeno desabafo. — Ele me disse que se eu dissesse não, ele não estaria aqui pela manhã. Ele vem mais tarde? — Ele não vem mais, Gisele. — Elaine foi fria na resposta, mas ainda havia compaixão em seu olhar. — Bom ele precisa trabalhar, não é? Starianos militares são orgulhosos. Ele vai ter vir em algum momento. — Ela tentou brincar, mas Elaine retribuiu no mesmo tom. — O único trabalho que os capitães do General Galak têm na quarentena é o de se reproduzir com sua humana. Se não vai acontecer, eles se ocupam com outro tipo de trabalho. — Elaine deu o comando para o elevador e logo a caixa de aço passou a se mexer. — Eu sei que parece meio frio, mas Starian não é a nossa querida complicada Terra. Eles resumem vários sentimentos complexos, como o amor. Eles apenas se vinculam. — Não devia ser assim. — Giselle respondeu de um jeito desconfortável. — Eu discordo. — Ela olhou para a menina de bochechas coradas e sorriu empática. — Nós somos complicados demais, num mundo simples demais. Não é Darius o problema. Elaine saiu andando na companhia de seus guardas enquanto Gisele olhava a baixinha caminhas e pensava se a seguia ou não. No fim, ela não conseguiria fugir nem se quisesse. Ela também não queria levar broncas sobre os seus sentimentos, mas estava prestes a admitir que Elaine tinha razão. Para os starianos o amor era simples, mas para os humanos não. — Vamos até a casa dele? — perguntou a alcançando. — Ele revogou a casa. Seu cheiro está lá e a sua casa faz o âmago territorial dele agir como um monstro. Ele está longe, por questões de segurança. — Elaine caminhou pelas laterais da primeira área de acesso. — Starianos quando recusados agem por instinto. Volkon fez um jogo de morte comigo em uma cela. Sua intenção era me prender e matar Galak. — Gisele arregalou os olhos e Elaine parou no meio do caminho na frente de uma cápsula semelhante à de Darius — Darius conseguiu conter isso e pediu o distanciamento da fêmea. — Não deveríamos nos envolver com uma raça tão perigosa. — Gisele deixou escapar o pensamento e acabou ouvindo uma reprimenda. — Concordo. Mas se quiser voltar, posso entregá-la de volta para os humanos que a venderam por um metal barato. Eles são seguros e tenho certeza que a devolverão inteira para sua família. — Gisele piscou e engoliu devagar com o comparativo extremo, e entendeu a bronca e o recado. — Pelos menos os Starianos não fingem. A maioria não. Quando a porta da casa dela se abriu, Gisele sentiu um aroma fresco e cítrico tocar seu nariz. A entrada foi como ir para a cápsula de Darius, a porta se abriu como uma laranja do meio para fora e deu passagem para as duas. Os Starianos montaram guarda do lado de fora. Elaine tirou o jaleco, deixou a caderneta sobre uma cômoda na entrada e assim que passaram pelo pelo pequeno hall de entrada, um pequeno robô flutuante e arredondado surgiu no meio da casa. — Bem vinda, senhora Paladimus. — Ela piscou digitalmente para Gisele e sorriu em seu display. — Bem vinda senhora Goldarx. Gisele franziu o cenho, olhou para Elaine e sorriu um pouco sem graça. — Oi. Dos fundos da casa, uma Stariana da raça Ellidium, pequena e de antenas no topo da cabeça, surgiu sorridente. Ela vestia um jaleco rosado, tinha os cabelos presos e olhos pequenos. — Que a graça de starian esteja com Elaine. — Ela cumprimentou a baixinha, e depois se curvou educada para Gisele. — Bem vinda, senhora Goldarx. — Penea, como ela está? — Acordada. Eu fiz um chamado e o Capitão Paladimus mencionou que já estava a caminho. Elaine apenas sorriu para Gisele e fez um gesto para que a mocinha a seguisse. E ela o fez, observando cuidadosamente o espaço em que a baixinha morava. A cápsula era alta, do tamanho perfeito para abrigar Starianos. Alta e espaçosa. Havia uma decoração semelhante aos utensílios da terra, mas com toque super evoluídos. Tudo parecia interligado a um comando inteligente. A casa era futurista, dando extrema facilidade em todos os seus usos. — Pinea, faça dois fervidos quentes e doce. Por favor. Elaine sumiu para dentro do quarto enquanto a Ellidium aceitava a tarefa sorridente. Logo a porta automática se fechou atrás de Gisele, mas o que a deixou de boca aberta não foi o cômodo futurista, foi o bebê azul acordado no centro do cômodo dentro de um berço semelhante a uma concha metalizada e tentando sugar seus dedinhos. Star tinha as orelhas pontudas como as de Volkon, era redonda e tinha um pequeno chamuscado preto de pelos na cabeça. Era o bebê azul mais bonito que podia ver. Os olhos da criança eram idênticos aos do pai e ela ainda abriu um sorriso banguela assim que a mão apontou os braços para pegá-la. Ela usava fraldas de algodão e tinha apenas uma estrela rosa presa na ponta da fralda, sem roupinhas extravagantes. — Ela é… — Gisele estava paralisada e m*l conseguiu falar. — Sim. Ela é a minha filha e a de Volkon. — Normalmente ela fica mais comigo mas a chegada das novas humanas tem me ocupado constantemente. Ela colocou a bebê sobre a cama, usou seu degrau para subir na cama grande e foi logo desabotoando a blusa, para expôr um seio. Ela se recostou na cabeceira, puxou dois travesseiro e trouxe Star para si, até acomodá-la faminta ao ponto de sucção. — Star foi mostrada para toda Starian no dia que me casei com Volkon. E a população Stariana se dividiu entre aceitar a nova geração de nascidos, e uma pequena parte ainda recusa os mestiços. Gisele se aproximou devagar, por algum motivo queria tocar no bebê, mas se conteve. Ela prestou atenção em Elaine e se sentou á beira da cama achando aquele momento um tanto mágico. — Está falando da rebelião? — Não. Da população mesmo. — Elaine suspirou ao olhar para a filha. — A rebelião é um núcleo inteligente que luta contra todas as formas de se unir com qualquer ser diferente de Starian. Eles também ferem os da própria espécie. As poucas fêmeas que existem, as submetem a procedimentos horrorosos que custam suas vidas. É uma ideologia perigosa e muito preconceituosa. — Acho que Darius me falou algo assim. — A população tem um conceito diferente, mas igualmente perigoso. Eles não querem mestiços, não aprovam humanos e sentem que estão perdendo Starian com a nossa chegada. — E porque o Rei de Starian fez algo contra o seu próprio povo? — O lorde Stariano é bem político, e política é difícil de explicar. Mas imagine que sua linha de vida final foi avistada, Gisele, e seu ciclo acabará ali. Sozinha, sem amigos, sem pessoas ao seu redor, definhando apenas. Um planeta cada vez menos existente de vida. Imagine que sua raça, só está morrendo. Gisele se colocou pensativa por um momento, e ela realmente imaginou isso. Poucas pessoas, poucos nascimentos, menos gente, mais mortes… Ela chegou a conclusão de que o planeta Terra viveria um apocalipse sem efeitos extraordinários, mas apenas como uma linha desgastada que vai diminuindo cada vez mais. Solidão. Ela se viu caminhando por um mundo cheio de coisas para se viver, mas sozinha, e Gisele sentiu a solidão. — Ninguém conseguiria viver assim. Até mesmo quem diz amar estar sozinho, só diz isso porque há a opção de escolher estar sozinha. Agora, apenas estar sozinho… É medonho. — E assim foi vista a maioria dos Starianos. — Elaine chegou ao seu ponto. — Foi decidido pela maioria que eles buscariam uma forma de continuar vivendo. No entanto, ainda há riscos de extinção. O general Galak, por exemplo, é um dos últimos da sua espécie. Ele e o Lorde de Starian já estão quase sozinhos. Star se moveu nos s***s de Elaine, deixou escapar um fio de leite e ela notou que a filha estava satisfeita. Giselle observou ela guardar os s***s, ajustar o bebê nos braços e a colocar para arrotar. Também notou que a criança não era chorona. — Ela é tão quietinha. — Bebês Starianos são inteligentes. Não conseguem se comunicar, mas possuem um vínculo forte com o pai. — Ela olhou firme para Gisele. — Não é uma opção viver separado da criança. Quando tiver um filho em sua barriga, não poderá pensar se quer a eternidade ou não. A criança não vive sem as duas partes do vínculo, mãe e pai. Gisele respirou fundo, dobrou os braços e se levantou pensativa. — Foi por isso que me chamou? Para me dar uma bronca sobre eu simplesmente não saber se me casaria ou não? — Não. Eu te chamei aqui porque você estudou sobre o vínculo, ignorou as entrelinhas e agora pode estar grávida. — Gisele engoliu devagar, sentiu um frio na espinha descer em seco e olhou preocupada para Elaine. — E não dá para brincar de moça jovem indecisa nesse planeta, é arriscado demais para os dois lados. Então eu vou fazer alguns testes e se não estiver grávida, vamos libertar Darius do vínculo. Sua rejeição pode matá-lo e matar até você, se insistir na sua indecisão. Gisele engoliu devagar, sem saber o que pensar? — E depois disso? — Vai permanecer na quarentena até a readaptação, até o resultado do desvínculo se mostrarem perfeitos. — E depois? — Será realocada para outro Stariano. — Eu não quero! — Gisele simplesmente levantou a voz. — Não podem me tratar como uma égua parideira me trocando de animal a todo momento. Isso é desumano! — Vou te dizer o mesmo que ouvi quando eu estava na távola dos anciões, prestes a condenar Volkon por causa das minhas oscilações sentimentais. — Ela engoliu devagar, olhou para Star e depois para Gisele. — Os Starianos ainda precisam de muito tempo e convivência para se adaptar a nós, mas as humanas terão de fazer o mesmo. Nenhuma raça vai perecer por conta da outra. E você não tem escolha, pois já foi descartada no seu planeta. — Gisele engoliu devagar e sentiu os olhos se encherem de água. Ela observava Star e ouvia Elaine. — O Futuro de Starian é esse, Gisele. Nosso trabalho é ser as mães da nova geração. E temos muitas coisas para fazer. Ensinar os Starianos, cooperar com nossas adaptações e modernizar a nova Starian. Haverá um lugar aqui pra você, mas não precisa fazer isso sozinha. E mesmo que escolha fazer isso sozinha, não será uma opção fazer isso brincando com o vínculo Stariano.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD