1 - A Alvorada do Catador
A poeira óssea nunca assentava no Cemitério.
Kaelen apertou a máscara de filtragem contra o rosto, sentindo a vedação barata de borracha rachar mais um milímetro. Mais três dias e ela ia falhar de vez. Mais três dias e seus pulmões iam calcificar que nem os da Velha Ma — depósitos brancos se espalhando pelo tecido rosado até cada respirada soar como dados chacoalhando numa xícara.
Ele não tinha três dias pra desperdiçar com sentimentalismo.
A catedral de costelas se erguia à frente, uma arquitetura retorcida de restos divinos arqueando duzentos metros acima. Luar — se é que dava pra chamar aquele brilho bioluminescente doentio das camadas superiores de "luar" — filtrava pelas brechas no osso, projetando sombras que se moviam contra a luz. Sempre contra a luz. Como se os sonhos do deus ainda se reproduzissem na estrutura mineral, recusando-se a aceitar a morte.
As botas de Kaelen esmagavam a camada de cinzas. Embaixo, fragmentos. Fragmentos divinos que valiam pasta proteica suficiente pra durar uma semana, se você soubesse onde procurar e como evitar os territórios dos outros catadores.
Ele sabia.
O detector de fragmentos — um scanner médico desmontado que ele tinha levantado de um prospector morto — zumbia contra o quadril. Três bipes. Perto. Ele se agachou, dedos raspando pela poeira óssea e medula petrificada até fecharem em volta de algo quente.
Quente.
Fragmentos divinos não deviam ser quentes.
O estilhaço não era maior que seu polegar, mas pulsava num ritmo que combinava com as batidas do coração dele. Luz dourada e n***a espirala va sob a superfície — hipnótica, errada, linda. A respiração de Kaelen embaçou o interior da máscara. Isso não era um fragmento. Era uma semente — essência divina condensada que valia mais que seis meses de garimpagem.
Valia m***r por ela.
O ataque veio do ponto cego dele, precisamente calculado. Um pedaço de fêmur afiado assobiou em direção ao crânio. Kaelen rolou pra esquerda, não pra trás — pra trás ia encostá-lo na parede de costelas sem saída. O atacante sabia disso. Três deles, então. Táticas padrão de matilha pro Cemitério.
O porrete ósseo bateu onde a cabeça dele tinha estado, rachando o chão coberto de cinzas. Kaelen se levantou com a própria arma — um osso de antebraço limado até virar espeto — e enfiou pela patela do atacante. Não o golpe mortal. Nunca o golpe mortal primeiro.
O homem gritou. Ótimo. Gritos traziam os outros pra fora.
Dois catadores emergiram de trás de uma coluna vertebral, rostos escondidos atrás de máscaras melhores que a de Kaelen. Roupas mais novas. Rações de água fresca visíveis nos cintos. Não eram do Cemitério. Camada do meio, talvez Camada Três. Favelados brincando de caçador.
"A semente," o da esquerda disse, voz achatada pelo filtro da máscara. "Passa ela. A gente deixa você continuar respirando."
Os dedos de Kaelen apertaram o estilhaço. Ele pulsou mais forte agora, respondendo ao batimento cardíaco elevado, à adrenalina em disparada. O calor se espalhou pelo braço como infecção.
"Não."
Ele disse calmamente. Sem emoção. Porque emoção era fraqueza no Cemitério, e fraqueza era morte.
Os catadores avançaram juntos. Esperto. Mas Kaelen sobrevivia ali desde os oito anos, desde o dia em que acordou na poeira sem memória exceto a sensação de queda e a dor fantasma de algo vital sendo arrancado da coluna.
Ele desviou da primeira estocada, agarrou o pulso do segundo homem e usou o impulso pra arremessá-lo de cara contra o pilar de costelas mais próximo. Osso encontrou osso. O estalo ecoou pela catedral. O homem escorregou pra baixo, deixando um rastro vermelho.
O terceiro catador hesitou. Erro fatal.
Kaelen o chutou pra trás, pro jardim de espetos ósseos que brotavam do chão como equipamento de tortura medieval. O homem gritou. Continuou gritando. O som molhado e dilacerado perseguiu Kaelen enquanto ele corria pro fundo do Cemitério, a semente divina queimando contra a palma.
Ele só parou de correr quando chegou na beira das Terras Áridas, onde o ** ósseo pairava tão denso que a visibilidade caía pra cinco metros. Os Cinzentos vagavam ali — vítimas de calcificação em estágio terminal, pele transformada em cálcio vivo, mentes há muito evaporadas. Eram inofensivos. Dignos de pena.
Um aviso.
Kaelen desabou contra um crânio semi-enterrado nas cinzas, peito arfando. O filtro da máscara estava entupido agora, cada respiração uma luta. Ele a arrancou, sugando o ar contaminado. Queimava. Ferroada metálica no fundo da garganta. Estertor molhado no peito. Mas ele estava vivo.
Abriu a palma.
A semente tinha rachado.
Gavinhas douradas e negras espiralavam da f***a, contorcendo-se como fumaça viva. Enrolaram nos dedos dele, no pulso, penetrando a pele com pequenos ganchos de agonia. Kaelen tentou jogá-la longe. A mão não obedeceu. As gavinhas subiram mais alto, espalhando-se pelo antebraço como veias, como raízes buscando solo.
Dor explodiu atrás dos olhos.
O mundo se estilhaçou em imagens fragmentadas: um altar dourado, dois bebês envoltos em seda, mãos descendo com precisão cirúrgica, o som molhado de r***o, seu próprio grito infantil ecoando numa câmara abobadada, e então—
Queda.
Sempre queda.
A visão de Kaelen se dividiu. O olho esquerdo via o Cemitério como era — cinza de cinzas, cinza de ossos, cinza de morte. O olho direito via outra coisa. Assinaturas de calor. Força vital ardendo como velas no escuro. Os Cinzentos não estavam mortos. Estavam brilhantes, corpos calcificados queimando com energia divina aprisionada, consumindo-os lentamente por dentro.
Seu olho direito via o mundo como o deus tinha visto. Antes de morrer. Antes de construírem uma cidade do cadáver Dele.
A percepção devia tê-lo aterrorizado.
Em vez disso, ele riu.
Era um som amargo, quebrado. A risada de um homem que tinha acabado de descobrir que era menos que humano e mais que vivo. Seu olho direito queimava, a íris se expandindo num anel n***o orlado de dourado — um eclipse perfeito.
Quando a risada finalmente morreu na garganta, Kaelen se pôs de pé. As gavinhas tinham parado no cotovelo, formando um padrão de veias negras sob a pele. Pulsavam no ritmo do coração.
A semente tinha sumido. Dissolvida. Absorvida.
Ou talvez tivesse absorvido ele.
Em algum lugar acima, além das camadas de osso e aço e néon, as famílias solares viviam em suas torres douradas. Elas tinham nomes. Tinham poder. Tinham tirado algo dele — arrancado quando ele era pequeno demais pra lutar, desamparado demais pra sequer lembrar.
Mas agora ele estava lembrando.
Kaelen pegou seu espeto ósseo e começou a andar. Não em direção à segurança do Mercado Inferior. Não em direção aos abrigos comunais onde outros catadores se amontoavam em busca de calor.
Pra cima.
O coração da cidade batia como tambor de guerra à distância, cada pulso sincronizado com a corrupção divina se espalhando pelas veias dele. Ele podia sentir agora — o peso vertical de Aurelis pressionando o Cemitério, três quilômetros de inferno industrial empilhados em cima de cadáver divino e miséria humana.
Que pressionassem.
Ele ia escalar. Ia recuperar o que foi roubado. E se a cidade o esmagasse no processo?
Pelo menos ia morrer alcançando algo em vez de apodrecer nas cinzas como todos os outros.