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AURELIS: O REI ECLIPSADO

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Blurb

Em Aurelis, a divindade não é um direito de nascença — é um ofício brutal, entalhado à força em osso e sangue.

No topo desta cidade em espiral, as Treze Famílias das Estigmas colhem poder sob um sol eterno. Já em suas raízes, no abismo sufocante das "Favelas de Cinzas", os esquecidos apodrecem em meio ao ** de deuses caídos.

Kaelen nasceu para ser o orgulho da Primeira Família, até que seu nascimento desencadeou a Anomalia do Eclipse. Para evitar que seu presságio sombrio maculasse as nuvens, os Anciãos o marcaram como uma maldição. De forma sistemática, arrancaram o reluzente "Núcleo Solar" de sua coluna, arrancaram seus olhos e descartaram seu corpo quebrado nos dutos de lixo do Nono Nível.

Dezesseis anos depois, um sacrifício de sangue proibido estilhaça o selo.

Kaelen ressurge das pilhas de cadáveres do abismo. Seu olho direito não queima mais em dourado; foi substituído por um Eclipse de Escuridão Total, capaz de devorar as mesmas Estigmas que um dia o definiram.

— Vocês roubaram minha luz. Agora, eu lhes darei a Noite.

Esta é uma escalada através de nove camadas do inferno. Kaelen irá caçá-los um por um, reivindicando seus treze núcleos roubados dos tronos acima. Ele não busca redenção. Ele não deseja um trono. Ele só quer ver a Cidade Dourada desmoronar enquanto o sol, finalmente, se apaga.

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1 - A Alvorada do Catador
A poeira óssea nunca assentava no Cemitério. Kaelen apertou a máscara de filtragem contra o rosto, sentindo a vedação barata de borracha rachar mais um milímetro. Mais três dias e ela ia falhar de vez. Mais três dias e seus pulmões iam calcificar que nem os da Velha Ma — depósitos brancos se espalhando pelo tecido rosado até cada respirada soar como dados chacoalhando numa xícara. Ele não tinha três dias pra desperdiçar com sentimentalismo. A catedral de costelas se erguia à frente, uma arquitetura retorcida de restos divinos arqueando duzentos metros acima. Luar — se é que dava pra chamar aquele brilho bioluminescente doentio das camadas superiores de "luar" — filtrava pelas brechas no osso, projetando sombras que se moviam contra a luz. Sempre contra a luz. Como se os sonhos do deus ainda se reproduzissem na estrutura mineral, recusando-se a aceitar a morte. As botas de Kaelen esmagavam a camada de cinzas. Embaixo, fragmentos. Fragmentos divinos que valiam pasta proteica suficiente pra durar uma semana, se você soubesse onde procurar e como evitar os territórios dos outros catadores. Ele sabia. O detector de fragmentos — um scanner médico desmontado que ele tinha levantado de um prospector morto — zumbia contra o quadril. Três bipes. Perto. Ele se agachou, dedos raspando pela poeira óssea e medula petrificada até fecharem em volta de algo quente. Quente. Fragmentos divinos não deviam ser quentes. O estilhaço não era maior que seu polegar, mas pulsava num ritmo que combinava com as batidas do coração dele. Luz dourada e n***a espirala va sob a superfície — hipnótica, errada, linda. A respiração de Kaelen embaçou o interior da máscara. Isso não era um fragmento. Era uma semente — essência divina condensada que valia mais que seis meses de garimpagem. Valia m***r por ela. O ataque veio do ponto cego dele, precisamente calculado. Um pedaço de fêmur afiado assobiou em direção ao crânio. Kaelen rolou pra esquerda, não pra trás — pra trás ia encostá-lo na parede de costelas sem saída. O atacante sabia disso. Três deles, então. Táticas padrão de matilha pro Cemitério. O porrete ósseo bateu onde a cabeça dele tinha estado, rachando o chão coberto de cinzas. Kaelen se levantou com a própria arma — um osso de antebraço limado até virar espeto — e enfiou pela patela do atacante. Não o golpe mortal. Nunca o golpe mortal primeiro. O homem gritou. Ótimo. Gritos traziam os outros pra fora. Dois catadores emergiram de trás de uma coluna vertebral, rostos escondidos atrás de máscaras melhores que a de Kaelen. Roupas mais novas. Rações de água fresca visíveis nos cintos. Não eram do Cemitério. Camada do meio, talvez Camada Três. Favelados brincando de caçador. "A semente," o da esquerda disse, voz achatada pelo filtro da máscara. "Passa ela. A gente deixa você continuar respirando." Os dedos de Kaelen apertaram o estilhaço. Ele pulsou mais forte agora, respondendo ao batimento cardíaco elevado, à adrenalina em disparada. O calor se espalhou pelo braço como infecção. "Não." Ele disse calmamente. Sem emoção. Porque emoção era fraqueza no Cemitério, e fraqueza era morte. Os catadores avançaram juntos. Esperto. Mas Kaelen sobrevivia ali desde os oito anos, desde o dia em que acordou na poeira sem memória exceto a sensação de queda e a dor fantasma de algo vital sendo arrancado da coluna. Ele desviou da primeira estocada, agarrou o pulso do segundo homem e usou o impulso pra arremessá-lo de cara contra o pilar de costelas mais próximo. Osso encontrou osso. O estalo ecoou pela catedral. O homem escorregou pra baixo, deixando um rastro vermelho. O terceiro catador hesitou. Erro fatal. Kaelen o chutou pra trás, pro jardim de espetos ósseos que brotavam do chão como equipamento de tortura medieval. O homem gritou. Continuou gritando. O som molhado e dilacerado perseguiu Kaelen enquanto ele corria pro fundo do Cemitério, a semente divina queimando contra a palma. Ele só parou de correr quando chegou na beira das Terras Áridas, onde o ** ósseo pairava tão denso que a visibilidade caía pra cinco metros. Os Cinzentos vagavam ali — vítimas de calcificação em estágio terminal, pele transformada em cálcio vivo, mentes há muito evaporadas. Eram inofensivos. Dignos de pena. Um aviso. Kaelen desabou contra um crânio semi-enterrado nas cinzas, peito arfando. O filtro da máscara estava entupido agora, cada respiração uma luta. Ele a arrancou, sugando o ar contaminado. Queimava. Ferroada metálica no fundo da garganta. Estertor molhado no peito. Mas ele estava vivo. Abriu a palma. A semente tinha rachado. Gavinhas douradas e negras espiralavam da f***a, contorcendo-se como fumaça viva. Enrolaram nos dedos dele, no pulso, penetrando a pele com pequenos ganchos de agonia. Kaelen tentou jogá-la longe. A mão não obedeceu. As gavinhas subiram mais alto, espalhando-se pelo antebraço como veias, como raízes buscando solo. Dor explodiu atrás dos olhos. O mundo se estilhaçou em imagens fragmentadas: um altar dourado, dois bebês envoltos em seda, mãos descendo com precisão cirúrgica, o som molhado de r***o, seu próprio grito infantil ecoando numa câmara abobadada, e então— Queda. Sempre queda. A visão de Kaelen se dividiu. O olho esquerdo via o Cemitério como era — cinza de cinzas, cinza de ossos, cinza de morte. O olho direito via outra coisa. Assinaturas de calor. Força vital ardendo como velas no escuro. Os Cinzentos não estavam mortos. Estavam brilhantes, corpos calcificados queimando com energia divina aprisionada, consumindo-os lentamente por dentro. Seu olho direito via o mundo como o deus tinha visto. Antes de morrer. Antes de construírem uma cidade do cadáver Dele. A percepção devia tê-lo aterrorizado. Em vez disso, ele riu. Era um som amargo, quebrado. A risada de um homem que tinha acabado de descobrir que era menos que humano e mais que vivo. Seu olho direito queimava, a íris se expandindo num anel n***o orlado de dourado — um eclipse perfeito. Quando a risada finalmente morreu na garganta, Kaelen se pôs de pé. As gavinhas tinham parado no cotovelo, formando um padrão de veias negras sob a pele. Pulsavam no ritmo do coração. A semente tinha sumido. Dissolvida. Absorvida. Ou talvez tivesse absorvido ele. Em algum lugar acima, além das camadas de osso e aço e néon, as famílias solares viviam em suas torres douradas. Elas tinham nomes. Tinham poder. Tinham tirado algo dele — arrancado quando ele era pequeno demais pra lutar, desamparado demais pra sequer lembrar. Mas agora ele estava lembrando. Kaelen pegou seu espeto ósseo e começou a andar. Não em direção à segurança do Mercado Inferior. Não em direção aos abrigos comunais onde outros catadores se amontoavam em busca de calor. Pra cima. O coração da cidade batia como tambor de guerra à distância, cada pulso sincronizado com a corrupção divina se espalhando pelas veias dele. Ele podia sentir agora — o peso vertical de Aurelis pressionando o Cemitério, três quilômetros de inferno industrial empilhados em cima de cadáver divino e miséria humana. Que pressionassem. Ele ia escalar. Ia recuperar o que foi roubado. E se a cidade o esmagasse no processo? Pelo menos ia morrer alcançando algo em vez de apodrecer nas cinzas como todos os outros.

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