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— Onde… — A voz dela sai rouca. Ela engole em seco, tenta de novo. — Onde estou?
— Na suíte master — respondo. — Você desmaiou. Nós te trouxemos para cá.
Ela processa a informação lentamente. Olha ao redor, reconhecendo o quarto que arrumou horas antes. A cama que ela mesma ajeitou. Os travesseiros que alinhou com tanto cuidado.
— Vocês… — Ela nos encara novamente. — Vocês são os donos.
Afirmo com a cabeça.
— Sim.
Ela tenta se sentar de novo. Dessa vez, consigo ajudar, apoiando suas costas com cuidado. Ela aceita o apoio, mas seu corpo ainda está tenso, pronto para fugir.
— Você desmaiou — repito. — Provavelmente exaustão e fome. Estava trabalhando há quanto tempo?
Ela pensa.
— O dia todo. A semana toda.
— Sem comer direito?
— Comi… — Ela hesita. — Ontem comi. Hoje pela manhã apenas tomei um café preto.
Aleksandr faz um som baixo. Desaprovação. Não contra ela — contra a situação. Contra o fato de que ninguém cuidou dela.
Matteo se afasta da parede e pega o copo d'água que deixamos no criado-mudo.
— Beba — ele diz, estendendo o copo. — Devagar.
Ela aceita o copo com mãos trêmulas. Bebe em pequenos goles, os olhos ainda nos alternando, tentando entender o que está acontecendo.
Quando termina, segura o copo contra o peito como se fosse um escudo.
— Eu… — Ela engole em seco. — Eu sinto muito. Eu não devia ter desmaiado. O serviço… eu ia terminar de arrumar o quarto, eu só precisava…
— Taynara.
A voz de Aleksandr a interrompe.
Ela congela.
O russo se inclina ligeiramente para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. A postura é relaxada, mas a intensidade do olhar é tudo menos isso.
— A casa está perfeita. Você fez um trabalho excepcional. Não tem nada para se desculpar.
Ela parece não saber como processar um elogio vindo de um homem como ele.
— Obrigada — murmura.
Matteo se aproxima mais um passo.
— Quanto tempo mesmo faz que você não come?
Eu e o Alek o olhamos com o olhar repreendedor, ele costuma ser insistente. Gosta de verificar pra notar se a mentiras.
Ela hesita.
— Desde ontem.
— O dia inteiro trabalhando sem comer?
— Eu ia comer. Só… esqueci.
Nós três trocamos um olhar.
Esqueceu.
Quem esquece de comer trabalhando?
Alguém dedicado. Alguém que quer impressionar. Alguém que coloca o dever acima das próprias necessidades.
Mais uma prova.
Mais uma confirmação.
— Vou mandar trazer comida — Matteo decide, pegando o celular. — O que você gosta de comer, Taynara?
Ela parece surpresa com a pergunta.
— Eu… qualquer coisa. Mas não precisa.
— O que você gosta? — insisto, com um sorriso.
Ela me olha, e algo muda em sua expressão. Talvez seja o sorriso. Talvez seja o tom de voz. O medo diminui ligeiramente.
— Pizza — ela admite, baixinho. — Gosto de pizza.
Matteo sorri.
— Pizza! — ele diz com o sotaque italiano.
Ele sai do quarto, falando ao celular em italiano. A porta se fecha atrás dele, e de repente o ambiente parece menor. Mais íntimo.
Aleksandr continua na poltrona, observando. Eu continuo na cama, perto dela.
Ela aperta o copo contra o peito.
— Como vocês se chamam? — pergunta finalmente.
A pergunta simples. Direta. Que merece uma resposta honesta.
Mas o que é honestidade para homens como nós?
— Meu nome é Diego — digo primeiro. — Diego Herrera.
Aponto para Aleksandr.
— Ele é o Aleksandr Volkov. O italiano que saiu é Matteo Bianchi.
Ela processa os nomes. Os sotaques. Tudo.
— Vocês não são daqui... Do Brasil...
— Não.
— Vieram de onde?
— De vários lugares. — Aleksandr responde, poupando-me de uma explicação longa. — Nossos negócios nos trouxeram ao Brasil.
— Negócios?
— Sim.
Ela hesita.
— Que tipo de negócios?
Aleksandr e eu trocamos um olhar.
A pergunta é direta demais para ser ignorada, mas perigosa demais para ser respondida com honestidade. Não agora. Não para ela. Não ainda.
— Negócios variados — respondo, com um sorriso. — Importação. Exportação. Investimentos.
Ela não parece completamente convencida, mas também não pressiona.
Em vez disso, olha ao redor novamente.
— Esta casa… é de vocês?
— É nossa, sim.
— Dos três?
— Dos três.
Ela absorve a informação.
— Três homens... que moram juntos? — ela pergunta com malícia, eu e o Alek nos olhamos. Sabemos bem o.que ela tá insinuando.
— Moramos…
— É… incomum.
Sorrio.
— Muita coisa em nós é incomum, Taynara. Mas se quer saber, não somos gays. Somos uma família.
Ela cora levemente. Não sei se é pelo jeito que falei ou pelo jeito que estou olhando para ela. Provavelmente os dois.
Aleksandr se levanta.
— Vou ver o Matteo. — Ele olha para mim. — Fica com ela.
É uma ordem disfarçada de informação. Eu entendo.
Ele quer que eu fique. Que ganhe a confiança dela. Que descubra mais.
Quando a porta se fecha atrás dele, Taynara relaxa ligeiramente. Percebo que a presença de Aleksandr a intimidava mais do que a minha.
— Ele é intenso — ela comenta, baixinho.
Rio.
— Você não tem ideia.
— E o outro? Matteo?
— O italiano? Ele é mais leve. Mas não se engane. Todos nós somos perigosos, Taynara. Cada um do seu jeito.
Ela me encara.
— Por que está me dizendo isso?
— Porque você merece saber. — Inclino a cabeça. — Você trabalhou duro nesta casa. Dedicou uma semana da sua vida para deixar tudo perfeito para estranhos. Isso merece honestidade.
— Honestidade parcial — ela corrige, com um traço de humor na voz. — Você ainda não disse o que realmente fazem.
Espertinha.
Gosto disso.
— Honestidade gradual — negocio. — Combinado?
Ela pensa por um momento.
— Combinado.
Estendo a mão. Ela hesita por um segundo, depois aceita. Nossas palmas se tocam.
A mão dela é pequena na minha. Áspera, como observei antes, mas quente. Viva.
— Prazer em conhecê-la oficialmente, Taynara Lopes.
Ela sorri. Um sorriso pequeno, tímido, mas genuíno.
— Prazer em conhecê-lo. Eu acho.
Rio novamente.
— Acho? Só acha?
— Vocês são estranhos. Três homens... lindos numa mansão enorme, me olhando como se eu fosse… — Ela hesita. — Como se eu fosse algo que não sou.
— E o que você é?
— Uma faxineira.
Ela diz isso sem vergonha, mas também sem orgulho. Apenas fato.
— Você é mais do que isso — digo.
Ela ergue uma sobrancelha.
— Você nem me conhece.
— Conheço o suficiente.
— O quê, por exemplo?
Penso.
— Sei que você é dedicada. Que tem orgulho do que faz. Que não desiste mesmo quando está exausta. Que tem mãos de trabalhadora e coração de guerreira.
Ela parece surpresa.
— Como sabe tudo isso?
— Porque eu era como você. Antes...
— Antes do quê?
— Antes de tudo isso. — Gesticulo ao redor. — Antes do dinheiro. Do poder. Das mansões. Eu também fui alguém que precisava lutar por cada migalha.
Ela me observa com atenção redobrada.
— O que mudou?
— Conheci Aleksandr e Matteo. E juntos, construímos algo.
— Algo ilegal?
Sorrio.
— Algo nosso.
Ela processa isso.
A porta se abre. Matteo entra, seguido por Aleksandr. O italiano carrega uma caixa de pizza que exala um cheiro irresistível.
— A ordem foi atendida — ele anuncia, colocando a caixa na cama. — Coma.
Taynara olha para a pizza, depois para nós.
— Vocês vão ficar me olhando comer?
— Sim — Aleksandr responde, simplesmente.
Ela cora novamente, mas abre a caixa.
É pizza de calabresa. A favorita de qualquer brasileiro que não pode gastar muito.
Ela pega um pedaço com cuidado, como se ainda não acreditasse que aquilo é para ela. Dá uma mordida pequena.
Os olhos dela se fecham por um segundo.
Satisfação pura.
Nós três trocamos um olhar.
É incrível como algo tão simples pode ser tão cativante.
— Tá boa? — Matteo pergunta. — Do seu agrado?
Ela acena com a cabeça, a boca cheia.
— Desculpa — ela murmura, engolindo. — É que eu estava com muita fome.
— Come — digo. — Pode comer tudo. A gente já jantou.
Ela não precisa de mais incentivo.
Devora o primeiro pedaço em segundos. Pega o segundo com menos hesitação.
Nós apenas observamos.
Há algo de íntimo nisso. Algo de vulnerável. Ver alguém comer com fome verdadeira é como testemunhar um segredo que poucos compartilham.
Quando termina o terceiro pedaço, ela parece perceber que estamos olhando. Limpa a boca com as costas da mão, envergonhada.
— Desculpa — repete. — Vocês devem achar que sou uma esfomeada.
— Achamos que você é humana — Aleksandr corrige. — E que merece comer.
Ela segura o quarto pedaço, mas não morde. Apenas olha para ele.
— Por que estão sendo tão gentis?
— Porque podemos ser — respondo. — Porque você merece.
Ela balança a cabeça.
— Isso não faz sentido. Vocês não me conhecem. Eu só trabalhei para vocês por uma semana.
— E nessa semana, você mostrou quem é.
— Mostrei? Como?
— A casa — Matteo intervém. — A dedicação. O cuidado. Isso não se finge, Taynara. Isso é quem você é.
Ela parece lutar contra a emoção.
Ninguém nunca disse coisas assim para ela. Dá para ver nos olhos. Dá para ver na forma como aperta o pedaço de pizza sem morder.
— Vocês são estranhos — ela repete, mas a palavra agora soa diferente. Menos acusação. Mais… constatação.
— Sim — Aleksandr confirma. — Somos.
Ela finalmente morde o quarto pedaço.
Nós três nos acomodamos — Aleksandr na poltrona, Matteo numa cadeira que puxou para perto, eu na borda da cama. Os quatro, num círculo improvisado, enquanto uma garota da periferia come pizza na suíte master de uma mansão.
Se alguém me dissesse que isso aconteceria, eu não acreditaria.
E, no entanto, aqui estamos.
O começo de algo que ainda não entendemos completamente.
Mas que todos nós três já sabemos: vai mudar tudo.
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