Capítulo 77 - O Baile da Lua (Parte 2)

1634 Words
Daemon aproximou-se devagar, como um eclipse anunciando tempestade. Ele puxou a cadeira sem tirar os olhos de Mia e Bryan sentiu o estômago revirar. “Ótimo. O desgraçado vai sentar mesmo.” Daemon parecia entalhado em aço e orgulho, mas quando Mia falou… As defesas dele desmoronaram como vidro trincado. — Eu me lembro de tudo — Mia declarou, firme, serena, cruelmente calma. O impacto atingiu Daemon — e Bryan também. O lobo dentro dele rosnou. A mandíbula travou. A cada palavra, algo em Bryan escurecia. A insegurança vinha como farpa, rasgando por dentro. Mia continuou: Aquelas palavras foram um soco que não só atingiu Daemon; atingiu todo o salão — e cortaram Bryan como navalha. Depois outro, mais baixo, mais feroz: Como ela fala sobre isso tão naturalmente, como se eu fosse nada aqui? Foi como um golpe. Um soco no estômago, um raio caindo em um dia de sol. A máscara de impassividade que ele carregava há séculos rachou, revelando uma dor crua e antiga. Mia continuou, sua voz calma, mas com a força de um juiz proferindo uma sentença. – Da minha primeira vida. Da nossa história. Daquilo que fui para você… e daquilo que você me tirou! “Ela fala isso olhando pra ele… e eu aqui, invisível, sentindo tudo rasgar por dentro.” Ele olhou para Mia, indignado, esperando que ela ao menos notasse sua presença. Mas ela não o viu. Mia mantinha os olhos fixos em Daemon — e Bryan sentiu-se invisível, sentiu tudo dentro dele rasgar como se não tivesse lugar algum ali. Daemon prendeu a respiração, seus olhos dourados arregalados em choque, como se as palavras de Mia fossem fantasmas que voltavam para assombrá-lo. Até Lívia, ao seu lado, olhou para ele, uma expressão de desconfiança e revelação desenhada em seu rosto, a verdade sobre a história de seu companheiro se revelando. “Eu não acredito que esse filho da p**a tá falando isso na minha frente.” A fúria queimou no peito de Bryan como brasas vivas. Era indignação, ciúme e humilhação misturados um golpe certeiro no orgulho dele, no lugar exato onde doía mais: na ideia de que alguém, algum dia, já tinha sido o centro do universo de Mia antes dele. Bryan sentiu as palavras como lâminas. A ideia de outra vida, de outro vínculo tão profundo que o chamava de “companheiro escolhido” era uma humilhação que o rasgava por dentro. Ela já foi de outro. Ela já foi escolhida por ele. E eu? – Você me matou - Mia completou, a voz sem tremor, firme como o aço. – Por ciúmes. Por vingança. Porque eu desisti de você. Porque escolhi Malik. E você não aceitou minha escolha. A acusação soou como martelo. O mundo de Daemon afundou por um instante; sua expressão se quebrou. Bryan apertou a borda da mesa com tanta força que os nós dos dedos choravam. Partes dele queriam pular na frente de Mia, gritar que aquilo não era verdade, que ninguém tiraria dela o que era de hoje. Outra parte queimava de ciúme pelo simples fato de que havia um “antes” onde ele não existia como protagonista. Daemon abaixou a cabeça por um instante, como se o peso de milênios, de toda a eternidade, caísse sobre seus ombros, esmagando-o. A imagem do passado, da sua própria falha, parecia prendê-lo. – Eu estava sob um feitiço. Uma bruxa estava me controlando, envenenando meu sangue, minha alma… minha mente. Rowenna a minha sobrinha…- Ele levantou os olhos, que agora carregavam um brilho de desespero e arrependimento. – Eu não sabia mais o que era meu e o que era dela. Eu me tornei algo que jamais deveria ter sido.- Mia assentiu com lentidão, uma compreensão melancólica em seus olhos. — Eu sabia. Sabia do feitiço dela … Senti a influência dela em você, Daemon. Ela é mais poderosa do que você pensa … não é uma simples bruxa … E mesmo assim… tentei te amar. Tentei te salvar da escuridão que te consumia. Mas você não quis ser salvo, Daemon. Você preferiu se afogar na raiva e no orgulho. E por isso… perdeu tudo. O silêncio entre eles era absoluto, denso e carregado de uma história que a maioria dos presentes jamais compreenderia. Lívia, pálida, recuou um passo, a verdade sobre seu companheiro pesando sobre ela, um medo sutil em seus olhos. Daemon pareceu mais velho de repente, os séculos caindo sobre seus ombros. Mais ferido do que qualquer batalha externa poderia causar. Mais… humano. — Eu perdi mesmo e por isso peço perdão por tudo que fiz. Perdão.- ele sussurrou, a palavra soando estranha em seus lábios, como se nunca a tivesse proferido antes. Pela primeira vez em milênios, a arrogância deu lugar à contrição. — Hoje, meu castigo é viver eternamente sem filhos… e sem você, meu primeiro amor, minha primeira esposa.- A última parte, proferida com uma dor lancinante, fez Bryan rosnar novamente. O rosnar de Bryan não foi teatro. Foi visceral, uma voz que saiu do fundo de sua garganta como se já tivesse vivido muitas eras de contenção. Os olhares se viraram. Ele percebeu cada um deles como alfinetes e, por um momento, considerou se exilar por vergonha e possessão. Ele diz ‘minha primeira esposa’ e eu tenho que suportar isso? “Como você pode se ajoelhar pra ele? Pra esse homem que fala do teu nome como se tivesse direito?” Bryan rosnou. Alto. Selvagem. Um som primal que rasgou o salão, fazendo todos os olhares se virarem para a mesa principal, chocados com a intensidade da reação do Rei Alfa. Seus olhos brilhavam em um dourado furioso, a possessividade e a raiva por Mia sendo tão palpáveis quanto o ar. Daemon nem se virou para encarar Bryan. Seu foco estava unicamente em Mia. — Fique tranquilo, Alfa Bryan. Não vim tomar nada que te pertence. Só estou dizendo o que aconteceu em um passado distante. A história que me condenou e que agora se revela. A calma de Daemon foi como sal nas feridas de Bryan. Não era apenas o conteúdo das palavras; era a maneira cínica e serena com que o ex-companheiro parecia admitir tudo sem medo de perder. Bryan sentiu-se menor, mas a menor parte de si — o lobo — reagiu com urgência e violência. Mia pousou a mão sobre o braço de Bryan com leveza, um toque que, de alguma forma, acalmou a fúria do Rei Alfa, transmitindo-lhe paz e segurança. Seus olhos se fixaram em Daemon, e seu sorriso era de pura compreensão, uma luz em meio à escuridão da memória. — Eu não guardo raiva, Daemon. Nem remorso. Sua voz era suave, mas carregada de uma sabedoria que transcende o tempo. — Você já teve meu perdão antes mesmo de pedir por ele. Porque se eu não tivesse te perdoado… nunca poderia ter voltado. Não poderia ter abraçado essa nova vida. Não poderia estar aqui, agora. Mia disse aquilo sem teatralidade como se explicasse uma verdade simples. Mas para Bryan, a frase foi uma lâmina fria. “Ela já perdoou ele. Antes mesmo de dele pedir. Antes mesmo de eu existir nessa história inteira. E eu? Recebo um talvez eu te perdoe?” Daemon fechou os olhos por um momento, a dor e o alívio lutando em seu rosto. Quando os abriu, um brilho de resignação cruzava sua expressão, uma aceitação amarga do passado e do presente. — Que a Deusa ilumine o caminho de vocês. Ele se levantou e, antes de se afastar, curvou levemente a cabeça para Mia. Não como Rei ou Alfa prestando homenagem a uma Luna, mas como um homem que finalmente se ajoelha diante da luz que um dia tentou apagar, uma reverência silenciosa à mulher que o havia perdoado e libertado de seu próprio inferno interior. Lívia, ainda chocada e em silêncio, seguiu-o, seus olhos confusos entre o passado e o presente de Daemon, agora com uma nova e perturbadora verdade. Quando Daemon saiu do salão, um vazio pesado ficou para trás. E Bryan só conseguia pensar: Eu não vou perder você pra um fantasma. Não vou. Não importa quantas vidas você tenha tido antes da minha. A música começou. Um piano suave. Uma batida triste. O ar do salão mudou. E então, a voz feminina ecoou: “You should find someone who loves you Better than I do…” Bryan paralisou. O coração disparou. Mia sentiu a alma dele estremecer como vidro sob tensão. Por que essa música? Por que agora? Droga. Droga. A taça de Bryan trincou entre os dedos. Ele respirou fundo. Mas o universo já tinha decidido ferrá-lo naquela noite. Porque foi nesse exato instante… … que Júpiter Starlight entrou no salão. A música seguia, dolorosa, afiada como lâmina de prata. “You should find someone who loves you Better than I do…” Bryan engoliu seco, o peito latejando com um nó que não sabia se era ciúme, raiva ou medo — provavelmente tudo junto, tudo misturado, tudo demais. E então Júpiter entrou. Aquela silhueta que ele reconheceria mesmo de costas, mesmo cego, mesmo morto. O salão prendeu a respiração. Mia continuou sentada, perfeita, soberana, inalcançável como se nada do que havia acontecido minutos antes a tivesse tocado por dentro. E Bryan… sentiu o mundo girar. Sentiu a humilhação arder como fogo vivo sob a pele. Daemon, vidas passadas, perdão, história, destino… Tudo esfregando na cara dele. E quando seus olhos encontraram Júpiter, algo dentro dele — algo feio, primitivo e desesperado — sussurrou: “Júpiter pelo menos nunca foi de mais ninguém além de mim.” O pensamento foi vergonhoso, possessivo, egoísta. E ainda assim… verdadeiro. Cru. Instintivo. E foi com isso queimando no peito que Bryan percebeu: A noite estava só começando e ele já estava perdendo o controle.
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