Capítulo 74 - O conclave dos lobos

1149 Words
A lua ainda nem tinha alcançado seu trono no céu quando a Costa da Lua simplesmente… silenciou. Não foi um silêncio normal. Foi aquele silêncio que antecede profecias. Que pesa nos ossos. Que faz o ar parecer espesso demais para entrar no peito. As árvores do leste pararam de balançar. Os sentinelas lupinos ergueram as orelhas ao mesmo tempo. E até a brisa — sempre atrevida — desistiu de brincar. Alguma coisa antiga estava chegando. — As confirmações continuam chegando — anunciou Babi, caminhando pelo salão com sua prancheta rúnica, onde os nomes brilhavam sozinhos. — Crescent Moon, Bloodwolf Pack, Silverfang, Obsidian Flame, Nightveil, Stormhowl… todos em rota. E… Ela fez uma pausa, observando linhas adicionais surgirem no metal encantado. — A Crimsonshade enviou delegação completa. Lunar Aegis atravessou as Montanhas de Sombra ao amanhecer. Serão os primeiros a chegar por via terrestre. Ela mordeu o lábio inferior — um raro sinal de tensão. — E os Moons Firstborn… confirmaram presença. Um arrepio coletivo percorreu os soldados próximos. Do outro lado do salão, guardas cerimoniais ajustavam as armaduras negras e prateadas, preparando a ala exclusiva onde os Anciãos Lupinos seriam recebidos. Velhos como a própria lua, trajavam mantos bordados com glifos que contavam histórias que ninguém vivo se lembrava de ter ouvido. Seus cajados de madeira lunar exalavam uma luz suave, como se o luar estivesse preso ali dentro, tentando escapar. Ninguém respirava muito fundo perto deles. Era instintivo. Então o chão vibrou. Levemente. Mas ninguém errou o significado. Calista Mykonos ergueu o rosto com olhos arregalados. — Eles chegaram… os Primeiros Filhos da Lua… E como se o anúncio tivesse aberto um portal invisível, carruagens negras surgiram do nevoeiro, puxadas por bestas que não eram totalmente lobos — e definitivamente não eram totalmente sombras. Seus olhos brilhavam como brasas vivas. Suas patas não tocavam o chão; pairavam, como se desprezassem o mundo físico. Em seguida, portais de gelo se abriram no centro dos jardins. Uma onda de ar gelado derramou-se como uma neblina viva, e soldados da Tempesthowl marcharam para fora, armaduras feitas de gelo-forja cintilando como estrelas congeladas. À medida que cada nova comitiva atravessava os portões de obsidiana, fogos lunares se acendiam no céu. Símbolos antigos se formavam nas nuvens — avisos para todos os que observavam de longe: O Conclave começou. Lá no alto do salão real, observando através das janelas encantadas, Bryan Blackwolf permanecia imóvel. Rei por título. Predador por natureza. Fúria domesticada apenas pela vontade. Ele analisava tudo com olhos calculados. Seu Chamado Real havia ecoado por todo o mundo lupino. E agora o mundo inteiro marchava para sua coroa. Ele sentiu orgulho. Mas também sentiu o peso. Um suspiro reverente começou a se espalhar pelos guardas. Nomes sussurrados. Nomes temidos. — Eles vêm… os últimos Anciãos… — roçaram os lábios de um soldado pálido. — Os fundadores esquecidos… E quando o ar mudou de novo — mais denso, mais frio, mais… eterno — todos sabiam que ele estava chegando. Daemon Hemlock. O antigo Rei Alfa. O portão sul se abriu como se tivesse sido empurrado por mãos invisíveis. E então ele entrou. Daemon atravessou os portões caminhando, sem pressa, mas com aquela presença que faz até o ar recolher as garras. O piso de mármore gelava sob seus passos, deixando rastros prateados que se dissipavam segundos depois. Seu manto de sombra viva abraçava o corpo como fumaça consciente, e a pele reluzia como mármore banhado em luar. Os olhos cor de terra — marrom, dourado , azul — vasculhavam tudo ao redor como se cada detalhe confessasse um pecado. Atrás dele, a comitiva dos Moons Firstborn: Os guerreiros surgiram primeiro, sombras em forma de homens, e seus mantos ondulavam como se fossem tocados por algo que não era vento. As sacerdotisas vieram logo atrás, entoando cânticos baixos, cegas para o mundo mas não para o poder cada palavra delas parecia puxar a lua para mais perto. E então, silencioso como um presságio, o lobo branco de três caudas entrou. O salão se inclinou ao redor dele. Não por respeito mais sim por instinto. Daemon percorreu o salão inteiro, ignorando olhares, medos e reverências. Só quando parou diante do trono, encarando Bryan, o efeito veio: o chão gelou sob suas botas, desenhando um círculo perfeito de gelo que cintilou por um segundo antes de desaparecer. — Os Primeiros Filhos da Lua atenderam ao Chamado — anunciou Elizabeth Ashworth, com reverência medida. Daemon não se curvou. Bryan também não. Frente a frente, estavam o antigo soberano das sombras e o novo rei da lua. — Seja bem-vindo — disse Bryan, com a voz pesada como tempestade. — Mesmo em tempo difíceis. Daemon deixou o sorriso aflorar, lento, afiado. — A loba sigma está aqui… não está? O salão inteiro se engasgou em murmúrios contidos. Ninguém deveria saber disso. Olhos se voltaram para Bryan — alguns assustados, outros incrédulos. Bryan não respondeu. Apenas sustentou o olhar de Daemon, firme, inquebrável. A tensão entre os dois fez o ar vibrar. E então, como se a própria lua tivesse ouvido o nome dela, uma luz prateada atravessou as nuvens e caiu dentro do salão, iluminando tudo com um brilho quase profético. Bryan deu um passo à frente, sua aura explodindo como um trovão silencioso. — Reuni vocês aqui porque estamos sob ataque — anunciou. — Borderwolf caiu. Mooncliff foi infiltrada. Até os Moons Firstborn sangraram. A ameaça é real. E a guerra está batendo em nossas portas. Um burburinho tenso começou a se espalhar, mas Bryan ergueu a mão e o som foi estrangulado no ar. Foi quando um Alfa mais velho, com manto de pedra e barba grisalha, se levantou com um sorriso diplomático demais. — Grande Rei Blackwolf, reconhecemos sua força… — começou ele. — E sabemos que um rei forte precisa de uma rainha à altura. — Ele acenou. Duas jovens lobas avançaram, belas, puras e obedientes. — Minhas filhas. Preparadas. Dignas.Puras. Outros imitaram. Uma sobrinha. Uma irmã. Uma filha. Uma jovem ajoelhou-se, oferecendo um colar de jade. O salão virou um mercado de alianças. Bryan não se moveu. Mas algo no ar… sim. — Retirem-nas — ele ordenou. — Todas. Agora. A voz dele não era humana. Era alfa. Era rei. Era absoluta. — Eu já tenho uma rainha. Minha companheira escolhida pela lua… Minha esposa. A mãe dos meus filhos. — Seus olhos escureceram. — E ao contrário dos rumores… ela existe, eu só nunca a mostrei a vocês até agora… Silêncio. Desses que calariam até deuses. Então os portões do salão se abriram com um rugido prateado. A aura dela chegou antes do corpo. Um vento frio. Um brilho lunar. O cheiro inconfundível da fêmea que o destino escolheu. Ela surgiu na entrada como se o mundo inteiro tivesse se inclinado para recebê-la. A rainha. A loba sigma. A única capaz de fazer Bryan perder o fôlego e Daemon sorrir perigosamente.
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