Capítulo 54 - Conhecendo o Rei vampiro

2251 Words
O ar no quarto ficou subitamente pesado, denso e estático, como se o próprio tempo tivesse hesitado em passar, congelado pela intrusão da morte. O frio antinatural que acompanhava a presença de Malik Strigoi intensificou-se, um frio que parecia roubar o calor da vida, transformando o cômodo em uma câmara de gelo onde apenas a febre incessante de Mia oferecia algum contraste de temperatura. O choque entre a agonia da Luna e o poder gélido e milenar do Rei Vampiro era brutal e palpável. Bryan Blackwolf manteve-se como uma barreira viva, de carne e fúria, entre a criatura e sua companheira. Cada músculo em seu corpo estava tensionado até o limite do rompimento. Seus ossos já rangiam com a transformação parcial — garras totalmente expostas, caninos alongados e pontiagudos, a pele tremulando entre a forma humana e a lobuna. O rugido interno de Bones, seu lobo, era uma sirene de alarme na mente de todos os Blackwolfs presentes, um som gutural de pura ameaça e instinto de proteção. O cheiro de sangue de Alfa e adrenalina pairava no ar. "Se ele se mover, se ele sequer respirar em falso, nós o matamos", rosnou Bones em sua mente, a voz carregada de fúria primitiva e um instinto de territorialidade que suplantava a lógica. Foi então que o intruso fez algo inesperado, um gesto de suprema arrogância e cortesia, que desarmou momentaneamente a prontidão selvagem dos lobos. — Me chamo Malik Strigoi, sou um vampiro da raça bestial, sou o primeiro dessa linhagem — declarou o vampiro, a voz profunda e ressonante como o eco de uma cripta antiga, executando uma reverência tão perfeita e cerimoniosa que só podia ter sido aprendida em cortes reais de eras passadas. Seus olhos , que momentos antes brilhavam com uma fome selvagem, agora refletiam uma curiosidade quase clínica, desapegada, ao examinar Mia. A indumentária de couro n***o, elegante e medieval, destacava-o como um ser de outra era, um fantasma de poder. — Ela resiste mais do que eu esperava … pensei que dessa vez ela seria mais fraca — observou, erguendo uma mão enluvada de couro n***o para gesticular em direção à Luna. — Meu veneno já teria reduzido um guerreiro comum a um saco de ossos rangentes em menos de seis horas. Sua loba... ela luta. Bryan avançou com um rosnado que fez o chão de carvalho sob seus pés tremer, sua paciência esgotada. Mas Benjamin, o Beta, que havia chegado com os outros guerreiros, antecipou o movimento explosivo do Alfa e bloqueou seu caminho com um braço firme, seus próprios músculos rijos em alerta. Benjamin mantinha os olhos fixos no vampiro, o nariz franzido em uma careta de repulsa enquanto analisava cada microexpressão do intruso, procurando uma falha, um ponto fraco que pudesse ser explorado no combate. — O que você quer, sanguessuga? — cuspiu Bryan, a voz áspera e distorcida pela raiva e pelo medo esmagador que sentia por Mia. A raiva era dirigida a Malik, uma válvula de escape; o medo, ao destino incerto de Mia. Malik revelou seus caninos em algo que, para ele, talvez fosse um sorriso, mas que para os lobos era uma manifestação de crueldade gélida. As presas superiores, visivelmente mais longas e afiadas que as de um Lycan, brilharam por um instante sob a luz bruxuleante das velas. — Sua Luna está morrendo, Alfa — declarou, cada palavra cuidadosamente medida, ressoando com a autoridade fria da morte. Ele não estava fazendo uma ameaça, mas constatando um fato inevitável. — E só eu posso reverter o processo. Evy Blackwolf, a Luna Antiga e médica e curandeira, que estava ali cuidando de Mia no momento, adiantou-se, suas próprias garras surgindo mesmo em forma humana, um presságio de sua força ancestral. Seu rosto estava pálido de preocupação e indignação. — Você a envenenou! Que jogo é esse, criatura das trevas? Malik virou-se lentamente para a curandeira, e pela primeira vez, algo parecido com emoção genuína, talvez pesar ou desdém por terem que recorrer a ele, cruzou seu rosto pálido. — Não foi um ataque — corrigiu ele, com um tom professoral, o sotaque antigo carregando ecos de milênios passados. — Foi minha marca. Um chamado. Um convite. Seus olhos fixaram-se novamente em Mia, agora com uma intensidade quase dolorosa, como um proprietário examinando um tesouro valioso. A temperatura no quarto pareceu cair ainda mais, e a própria presença de Malik se expandiu, preenchendo o espaço com uma aura de poder inquestionável. Ele não estava ali para negociar de igual para igual, mas para ditar os termos de um tratado mortal, quase um leilão pela vida de Mia. — Porque ela, como eu e como você, somos todos filhos da Deusa da Lua, temos um fragmento da Deusa em cada um de nós aqui. — Ele fez uma pausa dramática, e seu rosto contorceu-se em uma máscara de ódio puro e profundo ao proferir o próximo nome. — E Daemon Hemlock... ele virá atrás ela. Como veio até mim, há tantos séculos. A primeira se chamava Luna e ela foi minha companheira, minha esposa, mãe dos meus filhos. O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo som abafado das garras de Bryan cravando-se na madeira do assoalho, um som de madeira sendo rasgada. Seu corpo tremia com o esforço hercúleo de não atacar imediatamente. A menção de Daemon Hemlock, um nome que Bryan evitava mencionar em voz alta devido à sua reputação sombria, e a revelação de um passado compartilhado com a Deusa da Lua, abalaram a todos. A história parecia se repetir em uma espiral de tragédia. — Explica. Tudo. Agora. — ordenou o Alfa, cada palavra um comando irrecusável, sua voz grave e carregada de uma autoridade que exigia respostas, quer ele gostasse delas ou não. Malik respirou fundo… um gesto desnecessário, todos perceberam, um hábito mortal que persistia mesmo após a morte. Era um resquício de humanidade. Quando falou novamente, sua voz soava diferente — menos calculista, mais humana, carregada de um pesar antigo, a voz de um rei deposto e traído. — Eu era um rei, Bryan Blackwolf. Um rei humano. Muito antes de sua alcateia existir. Há mil anos, antes de sua linhagem sequer ter nascido, Daemon e Raemon foram salvos pela Deusa da Lua e transformados em metade homem e metade lobo, com uma força maior do que qualquer compreensão humana. — A voz de Malik ganhou um tom sombrio, carregado de velhas cicatrizes emocionais. — Ele, Daemon, tinha poder e queria dominar tudo. Ele travou uma guerra sangrenta e violenta, milhares de vidas perdidas, e então ele chegou ao meu reino. Queria que eu me curvasse. E eu não aceitei. Eu queria proteger meu povo, mas ele tinha um exército de lobos com uma força que dominava todos os exércitos de todas as espécies. A dor na voz do vampiro era quase palpável, uma ferida que o tempo não curará. O rosto de Malik perdeu a frieza, dando lugar a uma expressão de angústia atemporal. — Perdi meu reino, minha família... ele matou minha doce Ângela.. bem na minha frente. Ele a violentou e a degolou, ela carregava meu segundo filho no ventre... depois disso, não satisfeito, ele abriu o ventre dela de forma c***l e arrancou meu filho de dentro, e depois matou meu primogênito. — As palavras eram um fio de veneno, pintando um quadro de horror impensável e indescritível. A cena, evocada com tamanha frieza, fez os guerreiros congelarem, a mão de Benjamin instintivamente apertando o braço de Bryan, paralisados pelo relato de um m*l tão antigo. — Ele me deixou agonizando com os corpos deles no salão principal do meu reino. E então a Deusa me ofereceu a vida eterna para combater Daemon... mas eu falhei. Os olhos de Malik se fixaram em Bryan, uma súbita amargura neles. — Eu me apaixonei pela filha dela, eu deveria ter matado ela, para tirar de Daemon o poder que ele extraía dela, mas não consegui. Como todos sabem, eu só posso andar na luz da lua. — Ele fez uma pausa, e um brilho gélido surgiu em seu olhar. — Montei meu exército de criaturas da noite e fui atrás dele, mas quando a vi, eu não consegui terminar. Eu a levei comigo. Ela se apaixonou por mim, eu me apaixonei por ela e eu a marquei. Ela me deixou mais forte, mais poderoso. Eu podia até andar sobre o sol, procriar. Tivemos filhos que até hoje sentem falta da mãe. — Uma sombra de tristeza cruzou o rosto de Malik, um vislumbre de humanidade que rapidamente se apagou. — Daemon não suportou ser rejeitado e depois de uns anos ele conseguiu chegar até ela e a matou, tirando mais uma vez a vida de mim. Ela tinha se tornado minha segunda chance… minha felicidade … meu tudo. Malik se virou para Mia novamente, a intensidade em seus olhos verdes-musgo retornando com força total. O peso de milênios estava em seu olhar. — Agora, sua Luna é minha última chance de acertar essa dívida. — Você não terá a minha Luna — rosnou Bryan, sua voz vinda do fundo do peito, mais instinto territorial do que fala racional. Seu maxilar estava travado. — Seja lá quem você for... eu não me importo. Você não conseguirá o que quer! A tensão se tornava elétrica no ar, vibrando em ondas invisíveis entre os corpos presentes. A raiva de Bryan era uma força da natureza. Malik ergueu uma sobrancelha, em um gesto de divertimento e condescendência que era pura provocação. — Não quero sua Luna — disse com frieza, o desinteresse no tom era um insulto. — Quero o poder dela. Ela pode ser toda sua. Só quero um acordo político. Nada mais. Já tenho mulheres o suficiente para me satisfazerem. Evy arfou, indignada com o desprezo. Benjamin franziu o cenho, o controle se esvaindo. Mas Bryan não se moveu. O Alfa tremia, não de medo, mas da contenção da fúria que ameaçava explodir. — Um acordo político? — repetiu Benjamin, a voz carregada de incredulidade e nojo. — Desde quando monstros fazem tratados com a gente? — Desde que monstros se tornam reis — respondeu Malik, com a cabeça levemente inclinada. — E desde que deuses falham em manter a ordem que eles mesmos criaram. Ele se aproximou lentamente, ignorando o perigo de ser atacado. — A Deusa da Lua, não trouxe ela de volta sem motivos , se ela está aqui é por um propósito. — Ele parou a poucos metros de Bryan, encarando-o de perto. — Mia não está morrendo, ela é forte demais para isso. Ela está se transformando porque foi tocada. Porque foi escolhida. Como eu fui, uma vez. — Você quer transformar minha companheira em quê? — rosnou Bryan, agora a apenas um fio de autocontrole de se lançar contra ele, pronto para rasgar a carne do vampiro. — Em algo maior do que você pode compreender — respondeu Malik, e pela primeira vez, havia uma estranha reverência em seu tom. — A Deusa não quer apenas um lobo... ela quer uma força maior. Alguém que possa unir sangue e espírito, sombra e luz. Mia é um receptáculo de poder. Um que Daemon também irá desejar. — Ela é uma loba! Uma Luna! — gritou Evy, os olhos úmidos de fúria e lágrimas contidas. — Não uma arma divina! — E ainda assim ela resiste ao meu veneno, como a Semi-Deusa que ela é — retrucou Malik com calma, o que era mais perturbador do que qualquer grito. A menção de Semi-Deusa fez todos os lobos engolirem em seco. — Eu não a envenenei para matá-la — disse Malik, olhando diretamente para Bryan. — Marquei-a para que a vontade da Deusa fosse cumprida. Se quiser que ela viva, precisará aceitar que ela já não pertence mais apenas a você, mas sim, a um destino maior. Bryan bufou, — JÁ CHEGA! — ele ruge desferindo um soco na parede com força descomunal. A madeira rachou e estalou com o impacto, mas a dor física era um mero alfinete comparada à tormenta em sua alma. Seus olhos vermelhos pareciam brasas em pura fúria. A frustração de ser chantageado pela vida de sua Luna era excruciante. — Primeiro... você se atrasou, vampiro. — A voz de Bryan explodiu no quarto como um trovão ancestral. — Daemon já se aliou a nós. Eu já sei das intenções dele, e eu estou de olho em cada passo dele! Malik arqueou levemente a sobrancelha, um sinal mínimo de que a informação o afetava. — Aliás — prosseguiu Bryan, avançando um passo com a postura de um predador enfurecido — não é só ele que quer ela pelo poder. Todos vocês, malditos bastardos, batem à minha porta, como se ela fosse um objeto. Como se minha companheira... a minha Luna... fosse propriedade de um maldito feitiço antigo. Bryan parou diante de Malik, olhos em brasa, músculos retesados como de uma fera prestes a despedaçar a própria sala. O ar vibrava com o poder do Alfa no limite. — Ouça bem, Malik Strigoi... — A voz de Bryan cresceu em um crescendo gutural, inflada pelo poder dos antigos Reis-Lobos. — EU NÃO VOU NEGOCIAR A MINHA MULHER COM FILHA DA p**a NENHUM! Aquelas palavras cortaram o ar como uma espada cerimonial, um ato de guerra e de amor. Um silêncio brutal caiu, o som do coração de Bryan batendo forte sendo a única quebra. Os que estavam ali recuaram com a fúria e o poder daquele comando.
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