Capítulo 79 - A vergonha do Alfa

1861 Words
Júpiter nem chegou a tocar na porta do banheiro. Um braço forte surgiu do nada, agarrou o seu pulso e a puxou com brutalidade contida, arrastando-a para dentro da sala de espera ao lado um espaço moderno, silencioso, quase clínico, com poltronas caras, cheiro de perfume importado e aquela luz branca demais que deixava qualquer imperfeição da alma à mostra. Ela tropeçou para dentro, o susto estampado no rosto. — Bryan, o que—?! Ele não deixou ela terminar. A empurrou contra a parede, o impacto seco ecoando pelo ambiente, as mãos firmes segurando os braços dela como se fossem algemas. O corpo dele se colocou à frente dela, bloqueando qualquer saída, qualquer fuga, qualquer respiro. Os olhos dele queimavam. Não era ciúme normal. Não era raiva comum. Era o tipo de olhar que nasce da vergonha, da rejeição e do desespero. — Vai se deitar com eles hoje? — ele rosnou, cuspindo veneno. — É isso? Vai abrir as pernas pros três? Eu sempre achei que você era diferente! Ela arregalou os olhos, indignação subindo como fogo na garganta. — Bryan, que merda é essa?! — ela tentou empurrá-lo, mas ele não se moveu um centímetro. — Me solta! Ele aproximou ainda mais, peito colado no dela, respiração quente demais, agressiva demais, quase animalesca. — Me responde. — A voz dele desceu para um tom grave, carregado. — Você veio aqui pra eles? Pro triozinho perfeito te levar pra cama? É isso que você quer? — Para! — ela sibilou. — Você não tem o direito de falar comigo desse jeito! Mas ele não recuou. Pelo contrário. O toque desceu pela cintura dela, segurando-a sem permissão, puxando seu corpo para mais perto, como se ainda tivesse algum tipo de posse sobre ela. — Você ainda é minha — ele sussurrou, a voz abafada de ciúme doentio. — Eu fui o primeiro. Você se entregou a mim. É isso significa algo. Júpiter quase riu. Quase. Mas não havia humor algum ali. — Não Bryan , você tirou proveito da minha fraqueza … — ela rebateu sem piscar. — Eu nunca fui sua nem por um segundo. A mandíbula dele travou. Os músculos do pescoço saltaram. Ele parecia prestes a explodir. E então, sem aviso, Bryan inclinou o rosto para beijá-la. Júpiter virou o rosto na hora. O beijo acertou apenas a bochecha dela. Um golpe que não fez barulho, mas destruiu algo dentro dele. Bryan congelou. Devagar, ergueu o olhar — e encontrou os olhos verdes dela, frios como lâmina recém-afiada. — Não. — ela disse simplesmente. — Você não encosta mais em mim desse jeito, nunca mais. A palavra caiu como uma sentença. Ele riu. Mas não era ironia. Era um riso torto, inseguro, quebrado de dentro pra fora — o riso de um homem que percebe que perdeu o controle e tenta se segurar nas próprias ruínas. — Para de graça, Júpiter — ele sussurrou. — Eu sei o que você quer. — Não sabe — ela rebateu, finalmente conseguindo se soltar dos braços dele com força. — E nunca soube. Ela deu dois passos para trás, respirando fundo, como se precisasse tirar o cheiro dele da pele, como se estivesse limpando o passado do próprio corpo. Bryan avançou um passo atrás, como se atraído por um instinto primitivo que ele não conseguia controlar. — Então fala — ele exigiu, a voz mais baixa. — O que você quer, hein? Os trigêmeos? Atenção? Ou você só quer me provocar? Ela inspirou fundo. Firme. Lúcida. Cruelmente honesta. — Eu quero que você entenda — ela disse, cada palavra pesada — que você não me ama, Bryan. Nunca amou. Nem quando tentou me usar pra substituir ela. Você só amava a ideia de ter alguém esperando por você. A pupila dele dilatou. O golpe entrou fundo. Mas ela não parou. Nunca parou. — E agora tá surtando porque perdeu isso. Não porque me perdeu. — A voz dela ficou mais baixa, mais mortal. — Mas porque perdeu a sensação de segurança. De ter uma substituta. Uma reserva. Uma sombra. Ela deu um passo à frente, encarando-o de baixo para cima. — É isso que eu fui pra você. Bryan respirou fundo, a mão tremeu no ar, como se ele estivesse segurando a si mesmo para não desmoronar. — Para de falar como se soubesse de tudo… — ele sussurrou, a voz rouca de algo que ele nunca admitia: medo. — Você não sabe o que eu sinto. — Não? — Júpiter ergueu a sobrancelha, rindo sem humor. — Eu sei o suficiente. Foi então que ele se desmontou. Não com gritos, mas com confissão — a confissão de alguém que carrega um segredo tão pesado que preferiu fugir por anos. — Você lembra da Inglaterra? — ele sussurrou, mais pra si mesmo do que pra ela. — Você lembra da noite em que você apareceu tremendo na minha porta com aquele teste? Eu lembro. Eu lembro do teu tremor, de como você tentou esconder. Eu lembro do medo no teu rosto. O apertar do braço dela marcou a parede; tudo naquele espaço parecia menor, mais sufocante. — Eu fugi. — As palavras saíram duras, indignas e puras. — Eu fugi e te deixei sozinha. Eu virei as costas. Porque eu era covarde demais pra você. Covarde demais pra ser homem. Covarde demais até pra assumir um filho fora do vínculo com Mia. O silêncio que se seguiu foi um golpe que ele mesmo não esperava. A vergonha entornou da boca dele como veneno. Ele riu — um riso seco que não tinha alegria. — Eu tentei… — continuou, mas a tentativa veio torta. — Eu tentei voltar. Quando o destino bateu na minha porta, eu… eu pensei que poderia consertar o erro com você. Que poderia te puxar pra um lugar onde eu não tivesse que ser o que nasci pra ser. Você era fácil. Você não vinha com coroas. Não vinha com expectativa. Você era liberdade , a liberdade que eu nunca tive com ela. A confissão era um animal feroz que comer seus restos. Júpiter encarou cada palavra como se medisse a profundidade do ferimento. Ela se aproximou até o rosto dele. O bastante para que ele sentisse cada sílaba. — Você me quer agora porque sabe que a Mia tem um batalhão de pretendentes prontos pra matar ou morrer por ela. — Ela falou baixo, doce e c***l ao mesmo tempo. — E isso sempre foi a tua maior vergonha, Bryan. Sempre. Ele ficou pálido. Literalmente pálido. Como se o sangue sumisse. O ego dele tremeu. O lobo dele recuou. Ela continuou: — Você é o único homem na vida dela que conseguiu destruí-la. Apenas você. Só você. Era a verdade. E doía mais que qualquer tapa. — Cala a boca… — ele murmurou, a voz sem força. — Júpiter, não fala assim… — Por quê? — ela ergueu o queixo. — Porque dói? Porque é verdade? Ele avançou num rompante, como um animal acuado que morde pra não sentir a própria dor. — Eu disse pra calar a boca! Ou eu calo sua boca … Ele agarrou o braço dela de novo, puxando-a contra o corpo dele, tentando beijá-la — agora não era mais desejo. Era desespero. Era necessidade de provar que tinha poder. Era a última tentativa de agarrar algo ou a ilusão de algo que criou para substituir aquela que ele Nunca conseguiu ter controle. Mas Júpiter empurrou o peito dele com toda sua força. — NÃO! — ela gritou. E o tapa veio na mesma hora. Seco. Alto. Devastador. A cabeça dele virou com o impacto, e a marca vermelha surgiu na pele dourada como um carimbo de humilhação. Ela tremia — não de medo, mas de indignação, coragem e libertação. — Nunca mais encosta em mim desse jeito — ela disse, firme, a voz cheia de aço. — Eu não sou sua. Nunca fui. Nunca serei. Bryan ficou parado. Respirando rápido. Olhos azuis em chamas. Orgulho destruído. Ego aberto como ferida exposta. O ar entre os dois pesava como chumbo. E Júpiter, finalmente, deu o passo que o separava do passado. Bryan ficou parado, respiração descompassada, a marca vermelha do tapa queimando na pele, mas nada — absolutamente nada — ardia mais do que o que ela havia dito. O ego dele estava em ruínas. O orgulho dele sangrava. A alma dele tremia. E então… algo dentro dele finalmente desabou. Um suspiro escapou — não de raiva, não de ciúme, mas de rendição. Rara. Dolorosa. Cravada de verdade. Ele passou a mão no rosto, como se quisesse arrancar a própria máscara. — Mesmo que doa… — ele começou, a voz falhando como se engolisse cacos de vidro. — Essa é a verdade. O silêncio era tão pesado que parecia que a sala inteira prendia a respiração. — Eu não quero mais ninguém que não seja ela… — ele admitiu, cada palavra vencendo uma resistência que ele segurou durante anos. — Você tem razão, Júpiter. Eu só queria… tentar ter controle sobre você. Sobre alguma coisa. Porque eu vivo na sombra desespero de perder ela pra qualquer um desses outros... Os olhos dele finalmente encontraram os dela — e não havia glória, nem poder, nem façanha ali. Só queda. Só verdade. Só arrependimento nu. — Me desculpa… — ele sussurrou. — Por tudo. Júpiter respirou fundo. Houve um instante em que ela quase sentiu pena — mas passou. A dor dela era maior. O passado deles era maior. A verdade era maior. — Não é pra mim que você tem que pedir desculpas, Bryan. — A voz dela saiu firme, segura, madura. — Nunca foi. Ele piscou, confuso. Perdido. Como se estivesse tentando entender uma língua que nunca aprendeu. Ela deu o golpe final — suave, mas mortal. — Você deveria enxergar que, mesmo com tanta gente ao redor dela… — Júpiter ergueu o rosto, encarando-o com a sinceridade que sempre faltou entre eles. — …ela sempre te escolheu. O ar mudou. De repente, ficou gelado. Estático. Sombrio. Bryan franziu a testa, sentindo algo atrás dele — um arrepio ancestral percorrendo sua espinha. Júpiter desviou os olhos para o corredor… E Bryan soube. Soube ANTES de virar. Soube ANTES de ouvir. Soube ANTES de encarar. Porque o vínculo, mesmo enfraquecido, gritou dentro dele. Mia estava ali. De pé. Silenciosa. Imóvel como uma estátua feita de dor. Saindo das sombras do corredor como um eclipse tomando forma, o vestido perolado brilhando sob a luz fria, o olhar cinza completamente partido. Ela tinha ouvido tudo. TUDO. Cada palavra. Cada verdade. Cada negação. Cada confissão. Cada ferida aberta. Cada vergonha exposta. Bryan congelou. O coração dele parou. Os olhos dele arregalaram. O desespero o engoliu inteiro. — Mia… — ele sussurrou, a voz tão frágil que m*l existia. Mia não respondeu. Não precisava. O silêncio dela dizia mais do que qualquer grito. E era assim que o mundo acabava para Bryan Blackwolf: Com a mulher que ele amava parada diante dele, ouvindo a confissão que jamais deveria ter sido dita… …e com o desespero nascendo no fundo dos olhos dele, tardio demais para salvar qualquer coisa.
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