Capítulo 73 – O chamado dos lobos

1384 Words
O céu sobre Costa da Lua refletia um dourado frio quando o jato tocou a pista. O barulho dos motores diminuía, mas Bryan sabia que o verdadeiro silêncio ainda estava longe. A Guerra nunca deixava ninguém realmente quieto por dentro. Ele desceu primeiro, os olhos atentos varrendo a pista tomada por luzes e pelo movimento frenético dos médicos curandeiros. Mas seu foco não estava neles. Estava atrás dele. Mia. Ele sentiu antes de vê-la descer, o cansaço dela batendo contra o peito dele através do vínculo. Um peso abafado, quente, insistente. Mesmo alerta, ela estava exausta. Quando ela surgiu na porta do jato, Bryan travou. Havia fuligem no canto dos olhos dela. Sangue seco entre os dedos. E aquele cheiro de batalha impregnado na pele. Bones se agitou dentro dele, um rugido grave percorrendo suas veias: “Deveríamos ter protegido ela. Ela nunca deveria sangrar. Nunca.” Bryan deu um passo para trás. Depois outro. E então estendeu a mão. — Amor… — sua voz saiu baixa, densa, carregada. — Vem. Me dá a mão. Mia segurou no corrimão por um segundo, respirando fundo, antes de descer um passo e encarar a mão dele. E aquilo foi o suficiente para Bryan sentir o vínculo tremer. Ela colocou a palma sobre a dele. E Bryan fechou os dedos ao redor da mão dela como se segurasse o coração próprio. Quando ela desceu o último degrau, ele aproximou o rosto, os olhos esquadrinhando cada machucado. — Será que você precisa de atendimento médico? — Ele tocou um arranhão no braço dela, e o maxilar se apertou. — Mia… você está machucada. Bones arranhou suas costelas por dentro: “Ela deveria estar sem nenhum arranhão. Ela é nossa. E ela está ferida.” Bryan respirou fundo, a culpa queimando como ácido. — Eu deveria ter ficado mais perto de você na batalha — ele confessou, a voz baixa, quebrada. — Eu devia ter estado ao seu lado o tempo todo. Mia ergueu o rosto na direção dele. O olhar dela era o mesmo de sempre — firme, decidido, afiado como uma lâmina. — Bryan… eu não sou frágil — ela disse, a voz saiu sem tremer, firme. — Eu nasci para estar ao seu lado na guerra. Os ferimentos… — ela respirou. — Eles vão sarar. A última frase saiu mais suave, quase um carinho. Bryan fechou os olhos por um segundo, apenas para segurar o lobo dentro dele. Ele queria dizer “Eu quase enlouqueci quando te vi cair”. Ele queria dizer “Se você tivesse morrido, eu teria ateado fogo no mundo”. Mas tudo o que saiu foi um sussurro rouco: — Eu odeio ver você assim… machucada. Mia deslizou os dedos pela mão dele, um toque leve, mas que acalmou o monstro preso na pele dele. — E eu estou bem, me machuquei sim — ela respondeu. — Mas sobrevivi. Estou aqui. Com você. Ao redor deles, médicos gritavam instruções, feridos choravam, veículos de cura chegavam… Mas naquele pequeno espaço entre Bryan e Mia, nada existia além dos dois. Mais aeronaves pousavam na pista. As portas se abriam uma após a outra, liberando guerreiros feridos — cambaleantes, ensanguentados, mas vivos. Alguns gritavam, outros só caíam de joelhos. O cheiro de queimado e magia quebrada pairava pesado. Uma menina lobo, talvez dez anos, desceu carregando o pai pela cintura. Dois curandeiros a cercaram imediatamente. Mia desviou o olhar por um segundo — não por fraqueza, mas porque a dor dos outros sempre pesava dentro dela. O vínculo vibrou no peito de Bryan. Ele a sentiu estremecer. — Fica perto de mim — ele murmurou, a mão instintivamente tocando o braço dela. Ela assentiu, mas a postura continuou firme, e isso só deixou Bones mais inquieto: “Ela não devia ver isso. Ela não devia sangrar junto com eles.” Bryan caminhou à frente, a postura dele abrindo espaço entre os guerreiros. O respeito era instantâneo um rei retornando do campo de batalha. Mia, ao seu lado, segurava o bracelete comunicador com força. A loba dela, Mika, uivava baixo dentro do peito. — Estarei bem ao seu lado… — Mia murmurou. Bryan ouviu a voz dela e inspirou fundo. Então ergueu o queixo. E ativou o Chamado Real. A energia explodiu da pele dele como um trovão contido — silencioso, porém devastador. Não era telepatia. Era ordem. Era decreto. A cidade inteira sentiu. Alfas de regiões distantes se curvaram sem saber por quê. O vento rodopiou. As luzes piscaram. O chão tremeu sob os pés. Bryan parou diante da plataforma principal da base. Olhos azuis brilhando como lâmina em luz de lua. E liberou seu chamado: "Este é o decreto do Rei Alfa, Bryan Blackwolf. A todas as matilhas aliadas. A todos os líderes de clã. A todos os que juraram fidelidade à espécie lupina sob a Lua. Compareçam à Costa da Lua até o fim do próximo ciclo. O Conclave será realizado no Grande Salão. Ausência será considerada traição." A voz de Bryan reverberava dentro das mentes como uma batida tribal, como se a própria terra obedecesse ao seu comando, as árvores se inclinassem, o vento sussurrasse seu nome. O ar cintilava com a magnitude de sua ordem, a urgência se gravando na mente de cada um. Ben, que apareceu ao seu lado, sorriu com a gravidade de quem testemunhava uma força que poderia dobrar o mundo. — Está feito, meu Rei. No instante em que Bryan proferiu a última palavra, o ar pareceu vibrar. Um silêncio mágico se espalhou pelos céus — e então, a própria Lua, alta no firmamento, brilhou com intensidade sobrenatural, como se aprovasse o decreto do Rei. Um círculo de energia prateada pulsou sobre a plataforma de obsidiana, expandindo-se em um anel ondulante que cortou as nuvens. Um instante depois, dezenas de comunicadores ligados à Rede Lunar começaram a brilhar nos pulsos de alfas e líderes pelo mundo. Em Nova York, um alfa de jaqueta de couro interrompeu a corrida noturna no Central Park e caiu de joelhos. Em Berlim, uma matriarca anciã apagou as velas do templo e murmurou: — Ele falou... finalmente. No norte do Canadá, um lobo prateado uivou para o céu, chamando seus guerreiros da neve. A ordem de Bryan não ecoou apenas pela cidade. Ela atravessou ossos, sangue, instinto. Cada lobo sentiu o chamado vibrar como um sinal antigo despertando. O Conclave dos Lobos estava convocado. E Costa da Lua entrou em movimento. A cidade se preparando Em poucos minutos, a Capital Blackwolf tornou-se um redemoinho organizado. Torres receberam bandeiras lunares. Corredores foram iluminados com magia prateada. Patrulhas reforçaram cada portão. O templo central ativou seus selos de proteção. No pátio principal: Os soldados se reagrupavam em silêncio absoluto, Os curandeiros preparavam poções e runas, As equipes organizavam tendas e alojamentos, Os mensageiros corriam levando atualizações dos territórios aliados. O cheiro de comida vinda da ala norte anunciava que o banquete pós-conclave também já estava sendo preparado. Tudo funcionava como um organismo vivo. Babi Maya liderava a organização como se coordenasse uma missão militar. Ao lado dela, Elizabeth Ashowrth , Vivian Guerra, Thea Mykonos e as matriarcas das grandes casas distribuíam ordens rápidas: Preparar o salão. Liberar os quartos de hotéis. Verificar selos de segurança. Confirmar a chegada das delegações. — Crescent Moon, Bloodwolf, Silverfang, Nightveil e Stormhowl já enviaram confirmação — anunciou Elizabeth, consultando o painel rúnico. — Crimsonshade está a caminho. Lunar Aegis chega por terra ainda hoje. Costa da Lua estava pronta para receber o mundo lupino. Ou quase. O ar mudou. De repente, o vento ficou frio. As luzes tremeram. O chão pareceu vibrar sob os pés não com força, mas com presença. Bryan parou instantaneamente. — Mia… — ele fala. — Irei recebê-los , você tem que estar pronta para isso, vá se preparar , te aguardo no salão principal. Ele sentiu também. Como se algo antigo e pesado atravessasse o território. Um guarda correu até eles, pálido. — Meu Rei… — ele arfou. — Eles… chegaram. Bryan se virou devagar. — Quem? — seu tom era um aviso. O guarda engoliu seco. — Os Primeiros Filhos da Lua. — Os Hemlock. — Os antigos… os ancestrais. Antes que qualquer reação fosse possível, o portão principal da cidade tremeu. E uma sombra enorme atravessou a luz.
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