“Mia…”
O som cortou o silêncio da madrugada como uma faca afiada.
Baixo. Rouco. Tão próximo que fez o coração dela acelerar.
O corpo de Mia se moveu sob os lençóis, os músculos reagindo antes da mente entender.
O quarto estava mergulhado em penumbra, iluminado apenas pela lua cheia, que se derramava pelas cortinas brancas como véus translúcidos.
O ar tinha cheiro de maresia e magia — denso, vibrante, quase elétrico.
Por um instante, ela acreditou que estava sonhando.
Mas a voz voltou.
“Luna…”
A palavra ecoou dentro dela como um toque de metal sobre gelo.
Era um som que não parecia vir do mundo dos vivos.
O arrepio começou na nuca e desceu pela espinha como uma corrente gelada.
Mia abriu os olhos, o coração martelando.
O corpo quente ao lado dela se moveu levemente.
Bryan dormia profundamente, o rosto relaxado, o peito subindo e descendo em ritmo calmo.
O Alfa parecia em paz, protegido por um sono pesado e merecido.
Mas o ar… não estava mais o mesmo.
Algo frio e antigo se infiltrava no ambiente.
O silêncio parecia conter respirações que não eram humanas.
“Mia…”
A voz agora vinha de dentro.
Uma vibração no sangue.
Uma lembrança distante, enterrada no fundo da alma.
Ela reconheceu o timbre.
E o medo se misturou à certeza.
Era alguém do seu passado, alguém de outra vida.
O nome sussurrou dentro dela como um eco de outra vida.
Mia se ergueu devagar, o lençol escorrendo por seu corpo nu.
O coração batia forte, as mãos trêmulas, a pele coberta de arrepios.
A energia que percorria o quarto era viva — quase tátil.
Bryan continuava dormindo, alheio a tudo.
Bones, o lobo dentro dele, não sentia a intrusão.
O estranho devia estar bloqueando a conexão, manipulando o espaço para não ser detectado.
O que significava que ele não queria confronto… ainda.
Mia respirou fundo.
A loba dentro dela, Mika, despertou, rosnando em tom baixo.
“Não é seguro.”
“Eu sei.” — respondeu Mia, em pensamento.
Mas, mesmo com medo, ela se levantou.
O instinto a guiava mais do que a razão.
Pegou o robe pendurado na cadeira e o amarrou na cintura.
A seda fria tocou a pele aquecida.
O contraste a despertou completamente.
Abriu a gaveta da cômoda e puxou a adaga prateada.
A lâmina refletiu o brilho da lua, projetando no teto um lampejo cortante.
Ela olhou para Bryan uma última vez.
Ele parecia tranquilo demais.
Quase inocente.
Um homem em paz — enquanto o mundo ao redor dela desabava em presságios.
“Venha.”
A palavra cortou o ar, firme, irresistível.
Não era apenas uma voz.
Era uma presença.
Mia sentiu o chão vibrar sob os pés descalços.
O ar ficou mais pesado.
O quarto inteiro pareceu prender o fôlego.
Abriu a porta.
O corredor a recebeu com um frio que doeu nos ossos.
As cortinas balançavam devagar, e o som do vento era mais um lamento do que uma brisa.
As paredes, cobertas de retratos antigos dos Alfas Blackwolf, pareciam observá-la.
Os olhos nas pinturas seguiam seus passos.
Ela desceu as escadas.
O som dos próprios passos soava distante, como se o tempo estivesse se distorcendo.
A mansão dormia, mas não estava em repouso.
A madeira das vigas rangia com um som abafado, e a lua refletia nas janelas como um olho vigilante.
Um ruído.
Leve.
Arrastado.
Seda sobre pedra.
Mia parou.
O coração saltou na garganta.
As sombras dançaram nas paredes, e por um instante, ela jurou ter visto um vulto.
Um contorno.
Uma forma humana.
Mas quando piscou, não havia mais nada.
A casa voltou ao silêncio.
Mesmo assim, ela seguiu.
Passou pela biblioteca — vazia.
Pela sala do trono — imóvel.
E então, ao entrar no grande salão, o vento mudou.
Um arrepio percorreu-lhe os braços.
A temperatura despencou.
E, num estalo, a lareira se acendeu.
Chamas azuis subiram devagar, crepitando sem calor, lançando reflexos prateados por todo o cômodo.
As sombras se alongaram, vivas, pulsantes, como se respirassem.
O fogo parecia falar numa língua antiga.
Mia apertou o cabo da adaga e deu um passo à frente.
A respiração era curta, o coração, uma avalanche.
— Mostre-se. — disse, a voz vacilando entre coragem e terror.
O fogo estremeceu.
E então veio o som.
Um tilintar.
Suave.
Vidro tocando madeira.
Ela virou o rosto para a esquerda.
A porta do escritório estava entreaberta.
Um filete de luz azul escapava por ela, iluminando o chão.
O escritório.
Uma das salas preferidas de Bryan, onde ele guardava vinhos antigos e um bar herdado de gerações.
Cristais, garrafas importadas, memórias de celebrações passadas.
Mas agora, aquele cômodo estava frio.
Carregado de algo mais pesado que lembrança.
Mia se aproximou, cada passo medido, o som dos batimentos do coração ecoando no silêncio.
Empurrou a porta.
O rangido suave pareceu uma explosão.
O fogo na lareira do escritório ardia azul.
A luz dançava sobre o balcão de madeira polida do bar, refletindo nas garrafas e copos.
O ar tinha cheiro de álcool, fumaça e algo doce demais — como sangue misturado a vinho.
E então ela viu.
Sentado em uma das poltronas próximas ao bar, o intruso observava-a.
Imóvel.
Imponente.
Como uma estátua viva.
Uma taça de vinho repousava entre os dedos longos.
O líquido escuro refletia o fogo, criando uma ilusão de rubis líquidos.
Ele estava relaxado demais para quem não pertencia ali.
Confortável demais.
Como se o tempo todo esperasse por ela.
As sombras pareciam se dobrar em volta dele, moldando-se ao seu corpo como um manto invisível.
Mia sentiu o corpo inteiro estremecer.
O medo e o reconhecimento chegaram juntos.
Ela sabia.
Sabia quem era.
Sabia o que significava vê-lo ali.
Porque junto com o veneno que ele deixara em suas veias, Malik Strigoi também gravara algo mais.
Lembranças.
Fragmentos de amor, dor e eternidade.
O coração dela travou.
A adaga pesou em sua mão.
A lua projetava um círculo de luz ao redor dos dois — como um palco silencioso.
Ele ergueu o olhar.
Os olhos verdes refletiram o fogo azul, e um sorriso lento cruzou-lhe os lábios.
— Olá, Luna.
A voz dele quebrou o ar, e tudo pareceu parar.
A chama vacilou.
O vinho tremeu.
E, por um instante, até a Lua pareceu parar no céu.
As sombras, antes dispersas, começaram a se mover de novo — rastejando pelas paredes, se unindo, tomando forma ao redor dele.
E, quando Mia finalmente respirou, percebeu:
as sombras tinham ganhado corpo… e a encaravam de frente, sem respirar.