Capítulo 58 — O chamado das Sombras

1091 Words
“Mia…” O som cortou o silêncio da madrugada como uma faca afiada. Baixo. Rouco. Tão próximo que fez o coração dela acelerar. O corpo de Mia se moveu sob os lençóis, os músculos reagindo antes da mente entender. O quarto estava mergulhado em penumbra, iluminado apenas pela lua cheia, que se derramava pelas cortinas brancas como véus translúcidos. O ar tinha cheiro de maresia e magia — denso, vibrante, quase elétrico. Por um instante, ela acreditou que estava sonhando. Mas a voz voltou. “Luna…” A palavra ecoou dentro dela como um toque de metal sobre gelo. Era um som que não parecia vir do mundo dos vivos. O arrepio começou na nuca e desceu pela espinha como uma corrente gelada. Mia abriu os olhos, o coração martelando. O corpo quente ao lado dela se moveu levemente. Bryan dormia profundamente, o rosto relaxado, o peito subindo e descendo em ritmo calmo. O Alfa parecia em paz, protegido por um sono pesado e merecido. Mas o ar… não estava mais o mesmo. Algo frio e antigo se infiltrava no ambiente. O silêncio parecia conter respirações que não eram humanas. “Mia…” A voz agora vinha de dentro. Uma vibração no sangue. Uma lembrança distante, enterrada no fundo da alma. Ela reconheceu o timbre. E o medo se misturou à certeza. Era alguém do seu passado, alguém de outra vida. O nome sussurrou dentro dela como um eco de outra vida. Mia se ergueu devagar, o lençol escorrendo por seu corpo nu. O coração batia forte, as mãos trêmulas, a pele coberta de arrepios. A energia que percorria o quarto era viva — quase tátil. Bryan continuava dormindo, alheio a tudo. Bones, o lobo dentro dele, não sentia a intrusão. O estranho devia estar bloqueando a conexão, manipulando o espaço para não ser detectado. O que significava que ele não queria confronto… ainda. Mia respirou fundo. A loba dentro dela, Mika, despertou, rosnando em tom baixo. “Não é seguro.” “Eu sei.” — respondeu Mia, em pensamento. Mas, mesmo com medo, ela se levantou. O instinto a guiava mais do que a razão. Pegou o robe pendurado na cadeira e o amarrou na cintura. A seda fria tocou a pele aquecida. O contraste a despertou completamente. Abriu a gaveta da cômoda e puxou a adaga prateada. A lâmina refletiu o brilho da lua, projetando no teto um lampejo cortante. Ela olhou para Bryan uma última vez. Ele parecia tranquilo demais. Quase inocente. Um homem em paz — enquanto o mundo ao redor dela desabava em presságios. “Venha.” A palavra cortou o ar, firme, irresistível. Não era apenas uma voz. Era uma presença. Mia sentiu o chão vibrar sob os pés descalços. O ar ficou mais pesado. O quarto inteiro pareceu prender o fôlego. Abriu a porta. O corredor a recebeu com um frio que doeu nos ossos. As cortinas balançavam devagar, e o som do vento era mais um lamento do que uma brisa. As paredes, cobertas de retratos antigos dos Alfas Blackwolf, pareciam observá-la. Os olhos nas pinturas seguiam seus passos. Ela desceu as escadas. O som dos próprios passos soava distante, como se o tempo estivesse se distorcendo. A mansão dormia, mas não estava em repouso. A madeira das vigas rangia com um som abafado, e a lua refletia nas janelas como um olho vigilante. Um ruído. Leve. Arrastado. Seda sobre pedra. Mia parou. O coração saltou na garganta. As sombras dançaram nas paredes, e por um instante, ela jurou ter visto um vulto. Um contorno. Uma forma humana. Mas quando piscou, não havia mais nada. A casa voltou ao silêncio. Mesmo assim, ela seguiu. Passou pela biblioteca — vazia. Pela sala do trono — imóvel. E então, ao entrar no grande salão, o vento mudou. Um arrepio percorreu-lhe os braços. A temperatura despencou. E, num estalo, a lareira se acendeu. Chamas azuis subiram devagar, crepitando sem calor, lançando reflexos prateados por todo o cômodo. As sombras se alongaram, vivas, pulsantes, como se respirassem. O fogo parecia falar numa língua antiga. Mia apertou o cabo da adaga e deu um passo à frente. A respiração era curta, o coração, uma avalanche. — Mostre-se. — disse, a voz vacilando entre coragem e terror. O fogo estremeceu. E então veio o som. Um tilintar. Suave. Vidro tocando madeira. Ela virou o rosto para a esquerda. A porta do escritório estava entreaberta. Um filete de luz azul escapava por ela, iluminando o chão. O escritório. Uma das salas preferidas de Bryan, onde ele guardava vinhos antigos e um bar herdado de gerações. Cristais, garrafas importadas, memórias de celebrações passadas. Mas agora, aquele cômodo estava frio. Carregado de algo mais pesado que lembrança. Mia se aproximou, cada passo medido, o som dos batimentos do coração ecoando no silêncio. Empurrou a porta. O rangido suave pareceu uma explosão. O fogo na lareira do escritório ardia azul. A luz dançava sobre o balcão de madeira polida do bar, refletindo nas garrafas e copos. O ar tinha cheiro de álcool, fumaça e algo doce demais — como sangue misturado a vinho. E então ela viu. Sentado em uma das poltronas próximas ao bar, o intruso observava-a. Imóvel. Imponente. Como uma estátua viva. Uma taça de vinho repousava entre os dedos longos. O líquido escuro refletia o fogo, criando uma ilusão de rubis líquidos. Ele estava relaxado demais para quem não pertencia ali. Confortável demais. Como se o tempo todo esperasse por ela. As sombras pareciam se dobrar em volta dele, moldando-se ao seu corpo como um manto invisível. Mia sentiu o corpo inteiro estremecer. O medo e o reconhecimento chegaram juntos. Ela sabia. Sabia quem era. Sabia o que significava vê-lo ali. Porque junto com o veneno que ele deixara em suas veias, Malik Strigoi também gravara algo mais. Lembranças. Fragmentos de amor, dor e eternidade. O coração dela travou. A adaga pesou em sua mão. A lua projetava um círculo de luz ao redor dos dois — como um palco silencioso. Ele ergueu o olhar. Os olhos verdes refletiram o fogo azul, e um sorriso lento cruzou-lhe os lábios. — Olá, Luna. A voz dele quebrou o ar, e tudo pareceu parar. A chama vacilou. O vinho tremeu. E, por um instante, até a Lua pareceu parar no céu. As sombras, antes dispersas, começaram a se mover de novo — rastejando pelas paredes, se unindo, tomando forma ao redor dele. E, quando Mia finalmente respirou, percebeu: as sombras tinham ganhado corpo… e a encaravam de frente, sem respirar.
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