CAPÍTULO 71 — O GRITO DA GUERRA

1611 Words
Ela voltou para a mesa, seus olhos percorrendo as faces das presentes com uma calma perigosa, até parar em Júpiter. Um sorriso afiado surgiu em seus lábios, uma arma tão eficaz quanto um rosnado. — Ora, o que o universo trouxe… Saturno em pessoa. Já está pronta para receber os trigêmeos? — Mia disparou, a voz doce, mas com uma pontada de crueldade que fez Júpiter encolher-se ainda mais na cadeira, o rosto pálido como a porcelana e os olhos arregalados de choque e mágoa. Júpiter apenas se encolheu em seu canto, os olhos fixos na toalha de mesa, como se nela encontrasse a salvação. Sua voz saiu quase num sussurro inaudível, carregada de uma humildade forçada que enraiveceu Mia ainda mais. — É bom te ver, Mia. Está linda demais, como sempre. Mia travou o maxilar com tanta força que sentiu a pontada da dor. Ela odiava, odiava profundamente que Júpiter não a atacava de volta, que não se defendia. Como ela tinha ousado se apaixonar pelo seu companheiro e ainda ficar ali sentada com aquele ar de inocente, de vítima, como se a culpa fosse de Mia e não dela? A fúria borbulhava sob sua pele, um calor que ameaçava explodir. Mia tentou se controlar, tentou forçar sua loba, Mika, a recuar, mas Mika já rosnava furiosamente dentro dela, pronta para rasgar a cara de qualquer uma que ameaçasse sua família, pronta para lembrar a Júpiter qual era seu lugar. A tensão na mesa se tornou palpável, um silêncio pesado caindo sobre as conversas. A história de Júpiter era um segredo aberto, um tabu silencioso na alcateia Blackwolf. Aos dezoito anos, no baile de acasalamento, Júpiter Starlight havia sido marcada como a companheira destinada dos trigêmeos Blackwolf — Axel, Niel e Gael. Um destino raro e poderoso, que a ligaria a três Alfas em potencial, um poder imenso e uma responsabilidade esmagadora. Mas o medo, a pressão de ser a companheira de não um, mas três lobos tão dominantes, a esmagou. Ela os havia rejeitado, quebrando um laço sagrado e causando uma ferida profunda nos irmãos, que até hoje carregavam as cicatrizes daquela rejeição. Sua presença ali, tão perto de Mia, a companheira de Bryan e Luna da alcateia Blackwolf, era um lembrete constante de seu passado e de sua escolha, e da ameaça silenciosa que ela ainda representava. A manhã se arrastou, interminável para Mia, enquanto ela sobrevivia ao veneno das madrinhas odiosas de Selena, um sorriso falso grudado aos lábios, a mente já longe dali, ansiando pelo alívio do treino. À tarde, a arena de treino ao ar livre estava banhada pela luz do entardecer, os raios dourados do sol se filtrando pelas folhas das árvores, pintando o solo de terra batida com padrões dançantes de luz e sombra. As árvores balançavam suavemente sob o vento leve, seus galhos farfalhando como um murmúrio distante. Flores silvestres de cores vibrantes desabrochavam nas bordas do campo, e a vegetação exuberante criava um contraste vivo com a fúria que Mia despejava em cada um de seus movimentos. O ar, agora mais fresco, trazia a promessa de um treino catártico. Caleb já estava lá, aguardando. Sua camiseta colada ao corpo, já marcada pelo suor, realçava a musculatura bem definida. Os olhos dele – frios e penetrantes de um cinza quase prateado – a observavam com uma intensidade que Mia não conseguia decifrar, uma mistura de avaliação e algo mais sutil. — Você tá… mais irritada hoje — comentou ele, com um tom observador, enquanto lhe estendia uma garrafa de água gelada e uma barrinha de cereal. Mia pegou a barrinha com raiva contida, abrindo o invólucro com um movimento brusco. — Tive uma manhã desagradável com… planetas demais orbitando. — Planetas? — Caleb arqueou uma sobrancelha, um leve sorriso brincando em seus lábios. — É. Urano, Vênus, Mercúrio. Um sistema solar inteiro de gente escrota. — Ela forçou um riso amargo. Os dois riram levemente, uma cumplicidade momentânea que parecia estranhamente natural. Após mais alguns movimentos de luta, golpes precisos e esquivas rápidas que faziam seus corpos suarem e os músculos protestarem, eles se sentaram sob uma árvore frondosa, a respiração ofegante, o silêncio entre eles quase terapêutico. — Caleb — ela disse de repente, encarando-o com uma atenção que ia além da superfície. — Eu me sinto à vontade com você. É estranho. Te conheço há pouco tempo. Ele deu de ombros, sua expressão uma máscara de casualidade, mas Mia sentiu uma breve hesitação. — Lobos se conectam rápido. Somos… parecidos. — Hum, não sei, você me parece tão familiar, sabe. — Ela apertou os olhos, o olhar fixo nos dele, tentando decifrar algo além da superfície. — Usa lente? Ele piscou, a resposta vindo talvez rápido demais, enquanto pegava a garrafa novamente. — Tenho miopia alta. Lente é melhor que óculos quando se luta, sabe? Distrai. Mia assentiu lentamente, a intuição gritando que havia algo mais, uma peça faltando no quebra-cabeça que era Caleb. Algo em seus olhos, mesmo com as lentes, parecia uma lembrança distante. Mas ela não pressionou. A exaustão do treino e a sede de extravasar eram mais fortes. Minutos depois, Bryan apareceu no campo, seu cheiro de Alfa envolvendo o ambiente. O treino entre os três foi intenso, fluido, quase sensual em sua sincronia. Os corpos sincronizados em uma dança de força e agilidade, a tensão física misturada ao calor emocional que só eles, como lobos e companheiros, podiam compartilhar. Cada golpe, cada esquiva, era uma descarga de adrenalina e um lembrete do poder que juntos possuíam. Já em casa, a exaustão física cedia lugar a um cansaço satisfeito. A pele de ambos ainda retinha o calor do esforço, os músculos latejavam suavemente, mas uma calma profunda se instalara. Mia puxou Bryan pela mão, levando-o para o banho. A água quente desceu sobre eles, lavando mais que o suor, transformando o banheiro num refúgio íntimo e envolto em vapor. O ar denso subia em espirais, criando um casulo privado onde apenas eles existiam. Mia deslizou os dedos pela sua nuca, puxando-o para perto até que a pele molhada do seu peito se colasse à dela. Sem pressa, sua mão desceu pelo torso de Bryan, os dedos traçando um caminho de pura intenção pelo abdômen, um toque sentido que provocava arrepios elétricos na pele. — Bryan… — sua voz saiu rouca, carregada de uma verdade que doía. — Isso aqui… — sua mão apertou levemente a cintura dele, num gesto ao mesmo tempo posse e hesitação — …não é um perdão. Não ainda. Eu ainda estou machucada. Ainda tem coisa aqui — ela tocou o próprio peito, sobre o coração — que eu não consegui soltar. Mia então pensa: “Eu deveria parar de dizer que não o perdoaria … ainda doía… Mas eu continuo aqui. Se eu realmente pudesse ir embora… já teria ido, não é? Então por que meu coração insiste em ficar?” Ele parou imediatamente. O olhar que encontrou o dela não era de luxúria, mas de vulnerabilidade crua. — Eu sei, Mia — Bryan murmurou, encostando a testa na dela, sentindo o calor misturar-se. — Não estou esperando perdão. Não quero te pressionar. Eu só… — o peito dele expandiu num suspiro profundo — …estou feliz só de ainda poder estar perto de você. Só de você ainda me permitir tocar você. Isso já é mais do que eu mereço. Os olhos dela arderam, uma chama interna de dor e afeto. Mia segurou o rosto dele entre as mãos, as pontas dos dedos pressionando levemente suas têmporas, e puxou-o para um beijo lento. Era um beijo profundo, carregado não de desejo cego, mas de uma verdade dolorosa e reconfortante ao mesmo tempo. Então, Bryan a envolveu pela cintura com a facilidade de sempre, e as pernas de Mia se entrelaçaram em torno dele como se fosse seu lugar natural. Eles se perderam na névoa e no toque, encontrando um no outro um porto que não sabiam mais se mereciam, mas que, naquele instante, era inteiramente seu. Mais tarde, já na cama, entrelaçados no silêncio confortável, Mia adormeceu primeiro. Não houve aviso. Não houve tempo. Só um impacto invisível. Um grito rasgou a mente de Bryan como uma lâmina. “REI ALFA, PRECISO DE AJUDA! MINHA ALCATEIA ESTÁ SENDO ATACADA!” O choque fez Bryan se sentar tão rápido que o colchão tremeu. O coração dele martelava. O cheiro dele mudou — urgência, adrenalina, medo. Mia abriu os olhos na hora, instinto puro. — Bryan? O que aconteceu? Ele virou o rosto para ela, a respiração pesada. — Tobias Black. Ele me chamou mentalmente… a Borderwolf Pack está sob ataque. Estão matando os guerreiros dele. Mia se sentou de imediato. — Eu vou com você. — Não, Mia — Bryan respondeu na hora, firme. — Não é seguro. Você fica em Costa da Lua. Eu não sei quem tá por trás disso. — Eu vou — ela repetiu, a voz firme como aço. — Não existe possibilidade de você ir sozinho. Eu não vou ficar aqui esperando você voltar ensanguentado. Não tem discussão. Bryan fechou os olhos por um segundo. Ele sabia que não venceria aquela batalha. — Tudo bem — cedeu, a voz baixa, carregada de medo por ela. — Mas você vai ficar perto de mim o tempo todo. Não se afasta por nada. Ouviu? Nada. Mia segurou a mão dele. — Bryan… isso pode ser uma armadilha, mais eu não vou mais me esconder. — Eu sei. — Os olhos dele queimavam. — E por isso eu quero você comigo. Onde eu posso te proteger. Onde eu posso te ver. A guerra, enfim, os chamava. E eles iriam juntos.
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