Capítulo 70 - A Manhã das Inimigas

1656 Words
A manhã nasceu tranquila em Costa da Lua, com a luz suave atravessando as árvores e entrando pelas janelas da Casa dos Blackwolf. O cheiro fresco da floresta misturava-se ao jasmim do banho de Mia, mas a serenidade não enganava ninguém — o dia já carregava tensão logo ao despertar. Mia encarava o espelho, soltando um suspiro leve. O vestido branco fluía pelo corpo com uma elegância simples, adornado por flores vermelhas bordadas. Ela ajeitou uma mecha que escapava do coque baixo, mas o que realmente chamava atenção era a inquietação silenciosa em seus olhos. Bryan entrou no quarto com Lauren aninhada no colo, o cabelo loiro ainda amassado pelo sono e um sorriso que sempre desarmava Mia. O cheiro de café fresco se misturou ao perfume dela, criando um calor familiar que parecia abraçar os três. — Desse jeito você vai fazer Costa da Lua inteira parar pra olhar — ele murmurou, a voz rouca, carregada daquele carinho preguiçoso que só existia nas manhãs com ele. O olhar dele percorreu a silhueta dela devagar, com um brilho de amor possessivo que aqueceu o ar entre eles. Mia virou-se, um sorriso breve e um tanto forçado surgindo em seus lábios. — Não exagere. É só um brunch de madrinhas. — O tom dela, no entanto, era mais ácido do que leve. — Quer dizer, um campo de guerra disfarçado de café da manhã. Bryan riu baixinho, os olhos brilhando com diversão. — Quer que eu vá por você? Acho que aguento a batalha dos bolinhos. — Você já vai me fazer um favor ficando com as crianças. — Ela se aproximou, o perfume suave de jasmim envolvendo-o. Beijou a testa macia da filha, depois a boca de Bryan, um beijo rápido, mas carregado de afeto. — À tarde eu quero descontar todo esse veneno no complexo de treinamento. Preciso extravasar. — Estarei lá — ele respondeu, com a voz firme, a promessa implícita de apoio. — Vai sobreviver? Mia endireitou os ombros, o brilho predador voltando aos seus olhos. — Sobreviver é meu sobrenome. Com o som suave de seus saltos ecoando nos corredores, Mia deixou a tranquilidade de sua casa para o que sabia ser uma manhã de pura diplomacia forçada e veneno velado. O jardim da Mansão Ashowrth era uma visão de pura opulência e beleza. Milhares de flores frescas e exóticas orquídeas brancas como neve, rosas vermelhas aveludadas, peônias encantadas que mudavam de tom com o capricho da luz solar formavam arranjos florais altos e imponentes, decorando a lateral de uma vasta mesa de madeira entalhada à mão. Louças de porcelana inglesa finíssima, com detalhes dourados e florais, cintilavam sob a luz. Taças de cristal colorido refletiam prismas por toda parte, e jarras transbordavam com suco de romã, chás aromáticos e águas saborizadas. Bandejas prateadas exibiam mini croissants recém-assados, tortas florais de dar água na boca, delicados macarons coloridos, bolinhos de lavanda e uma profusão de frutas exóticas cuidadosamente arranjadas, compondo um cenário digno de um conto de fadas. O perfume inebriante das rosas se misturava ao som suave de um quarteto de cordas tocando melodias clássicas ao fundo, criando uma atmosfera que, para um observador desavisado, seria a epítome da paz e da sofisticação. Mia chegou, no entanto, com a postura de uma rainha em campo de batalha — o vestido branco esvoaçando com cada passo gracioso, como se cada movimento fosse um golpe estratégico. Seus olhos, afiados e observadores, varreram o cenário. O encanto do lugar foi estilhaçado assim que seus olhos pousaram na mesa e nas figuras que já se reuniam ali, formando um conselho de guerra disfarçado de reunião social. Ali estavam as figuras que fariam sua manhã um tormento: • Lívia Ashowrth, sua irmã mais velha e traidora — a primeira a encará-la com um sorrisinho cínico, os lábios vermelhos um convite ao perigo. • Safira Montserrat, a beldade de língua afiada, irmã de sua melhor amiga, Sara. Safira era de fato uma das mulheres mais lindas de Costa da Lua, com cabelos escuros e olhos penetrantes, mas olhava para todos de nariz em pé, como se o ar que respiravam fosse impuro. • Sabine Bishop, com seu ar blasé e olhar de desprezo velado, como se Mia fosse um inseto incômodo que havia ousado pousar em sua toalha de seda. • Nyx Nightfall, prima de Astrid e Selena , e antiga rival de Mia nos tempos de escola, onde já haviam trocado tapas e insultos. Astuta, perigosa e intensamente bela, Nyx tinha os cabelos pretos como a noite e olhos de um azul tão escuro que quase pareciam negros. Melhor amiga de Sabine, fazia questão de deixar claro que ainda odiava Mia. • Júpiter Starlight, tímida e encolhida, sentada quieta ao lado de Selene — os olhos abaixados em vergonha e culpa assim que Mia surgiu no horizonte. • Astrid Starweaver, de uma tradicional família lupina da alcateia, exalava uma doçura quase etérea. Tinha os cabelos loiros como o sol da manhã e olhos azul-claro que transbordavam empatia — era a única entre as "neutras" a parecer verdadeiramente desconfortável com o clima tenso da recepção. Também estavam presentes, oferecendo um raro alívio à tensão: • Sara Montserrat, amiga leal e firme, que ofereceu um sorriso com carinho genuíno. Alícia Salazar e Yasmin Donavan, amigas muito próximas de Mia, que a cumprimentaram com afeto e gestos acolhedores. • Julieta Guerra, de sorriso meigo e sincero, irmã dos Deltas Noah e Felipe, que lhe ofereceu uma taça de suco de romã com um olhar cúmplice. • Atena Mykonos, com seu rosto sereno e um cumprimento genuíno — a única ali que Mia sentiu uma vontade instantânea e sincera de abraçar, percebendo a bondade irradiando dela. Ao se aproximar da mesa, Mia manteve a cabeça erguida, seu rosto uma máscara de elegância fria, cumprimentando apenas quem sentia que merecia seu mínimo esforço. Mas Lívia, como sempre, não perdeu tempo. — Como vai, maninha? O divórcio já tá em andamento? Ou ainda está fingindo que perdoou o traidor? — disparou, sua voz melíflua como mel, mas afiada como uma lança envenenada, cortando o ar delicado do jardim. Mia congelou por um segundo, a pergunta atingindo-a como um golpe. Sentiu o coração pulsar forte no peito, uma batida de raiva e desafio, mas manteve o rosto sereno. Deu dois passos à frente, seu corpo emanando uma aura perigosa, e respondeu, com os lábios desenhando um sorriso de doçura c***l, mas com o mesmo veneno de Lívia: — Ah, querida... você acha mesmo que me incomoda? Coitada. Você nunca vai conseguir o que quer. Nem meu ódio, nem o meu trono, você não significa nada para mim. É apenas uma sombra irritante. Mia se aproximou de Lívia até ficar com o rosto bem perto do da irmã mais velha e disse com o ar ameaçador e congelante. — Irmã você não está prestando atenção até agora né ? Eu não sou uma mocinha , eu não sou a boazinha que cai em armadilhas e depois de encolhe humilhada ... não maninha .... Eu sou a garota má querida. E com um sorriso bem sinistro ela sai de perto de Lívia deixando a irmã atordoada. Lívia cambaleou mentalmente, a máscara de escárnio tremendo. Júpiter se encolheu ainda mais na cadeira, os ombros tensos, desviando os olhos com vergonha e culpa evidentes. Sabine soltou um risinho abafado, os olhos brilhando com satisfação, adorando o confronto das irmãs. Safira apenas arqueou a sobrancelha com uma indiferença calculada e superior, como se estivesse assistindo a uma peça de teatro amadora. Antes que a situação explodisse de vez, Selena, sua melhor amiga , a noiva e futura esposa de seu irmão Léo se levantou apressada e puxou Mia pelo braço, a delicadeza de seus dedos contrastando com a firmeza de seu agarre. — Vem, vamos pegar mais chá — disse Selena, a voz sussurrante e contida, tentando desesperadamente evitar que o incêndio prestes a deflagrar consumisse todo o cenário de sonho. As duas caminharam rapidamente para um canto mais afastado do jardim, entre maciços de jasmins brancos e lavandas, onde o perfume das flores era quase opressor, mas a distância oferecia uma ilusão de privacidade. — Selena, que porcaria é essa? A convenção das bruxas? — Mia sussurrou entre os dentes, a voz baixa, mas carregada de fúria contida. Seus olhos faíscavam. — Chamou todas as minhas inimigas pra uma reunião de chá?! Sério? Pensei que seria só a Urano, mais você chamou todas, que droga! Selena suspirou, as mãos delicadas tentando acalmar a amiga, mas também demonstrando seu próprio nervosismo. — Amiga, por favor... não tive escolha. Elas são da família, de alguma forma. A Lívia é sua irmã, por mais que seja um ser miserável, você sabe o que isso significa. Júpiter é minha tia, mas fomos criadas como irmãs... e você sabe, ela sempre foi quieta, nunca te enfrentou, ela não vai te incomodar. Safira é irmã da nossa Sara... e Sabine... bem, ela namora o Theo, seu irmão, e ele é padrinho do Léo. Somos todos família, de um jeito torto ou outro. — Essa manhã será terrível — Mia bufou, lançando um olhar de relance cheio de veneno para a mesa, onde as risadas femininas já recomeçavam, embora um pouco mais forçadas. — Só ignora, Mia. Por favor. Você é minha melhor amiga. Minha madrinha. Minha futura cunhada. Você é a Luna. Elas não têm metade do que você tem, e é por isso que se sentem no direito de te provocar. Mia respirou fundo, uma inspiração lenta e deliberada, como se preparasse um feitiço antigo. Endireitou os ombros, o queixo levemente erguido. — Que comece a batalha com mini bolinhos, então. E, enquanto caminhava de volta, Mia sentiu bem no fundo da alma que aquele dia estava longe de ter revelado seu pior. Mika rosnou dentro dela, baixa e tensa. As inimigas estavam ali… mas o verdadeiro perigo ainda não tinha chegado.
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