04

1508 Words
O guarda congelou, afrouxando o aperto de mão como se minhas palavras tivessem queimado sua pele. Lentamente, ele se virou, e o reconhecimento o atingiu. "V... Vossa Alteza..." Ele a soltou imediatamente, dando um passo para trás com os olhos arregalados e as mãos levantadas em sinal de desculpas. Ela tropeçou um pouco quando seu braço se soltou, mas se conteve, respirando com dificuldade, com os lábios entreabertos enquanto me encarava. Seus olhos, escuros e brilhantes, fixaram-se nos meus. Sem medo ou submissão. Olhei fixamente para os olhos da humana de cabelos vermelhos. Eram olhos de obsidiana que brilhavam mesmo com seus olhares mortais, e eles se desviaram para o lado, apenas por um instante. O guarda ainda não havia se afastado completamente. Sua faca estava presa ao seu lado, meio escondida sob o cinto. Em um piscar de olhos, ela girou em direção a ele, com os dedos arrancando a lâmina do coldre com a facilidade de alguém que estava calculando. O som do metal se chocando com o couro foi suave, mas não havia nada de delicado na forma como ela girou sobre o calcanhar e avançou em minha direção. Peguei seu pulso no meio do movimento, a lâmina cortando a centímetros de minha garganta. Seu corpo se chocou contra o meu com força. "Ah!" Ela sibilou por entre os dentes, tentando se desvencilhar do meu aperto, mas girei meu braço e forcei o dela para baixo, fazendo com que a faca caísse no chão de pedra. Antes que ela pudesse reagir, eu me aproximei, usando o impulso de sua própria raiva para girá-la. Pressionei-a por trás, com uma das mãos segurando seus pulsos acima da cabeça e a outra apoiada na pedra ao lado de seu rosto. Meu peito ficou encostado em suas costas, de modo que eu podia sentir cada respiração dela. Ela se contorceu embaixo de mim, com as pernas chutando uma vez, mas eu mudei meu peso e pressionei meus quadris para frente, ancorando-a no lugar. "Não se mexa", murmurei, deixando que o calor da minha respiração se espalhasse pela lateral do seu pescoço. "Ou eu esquecerei que você ainda está se curando." Ela se acalmou, mas senti o tremor que percorreu sua espinha. O corredor era escuro, iluminado apenas por arandelas de parede que lançavam sombras longas e trêmulas. A pedra estava fria sob nossos corpos, mas o calor entre nós aumentava. Sua respiração estava irregular agora, não mais apenas pelo esforço. Confusão. Frustração. E algo mais perigoso. Desejo. Eu podia sentir seu cheiro. "Você ia me esfaquear", eu disse em voz baixa, meus lábios roçando a concha de sua orelha, mas não chegando a tocá-la. Ela girou a cabeça apenas o suficiente para cuspir as palavras de volta para mim. "Isso é o que você merece por dominar os humanos como um tirano!" Afrouxei um pouco o aperto em seus pulsos, deixando meus dedos deslizarem pela parte interna de seu braço até chegarem ao cotovelo. "Já esmaguei homens com o dobro do seu tamanho por muito menos." "Você deveria", ela retrucou. "Não vou me ajoelhar. Se você não aguenta, então vá em frente e me mate." Seu corpo estava tenso, desafiador, mas ela não me afastou... não novamente. Ela esperou, e eu também. E, por um segundo, não havia nada além do som de suas respirações superficiais e o aroma de morangos silvestres. Inclinei-me até que minha boca ficasse logo atrás de sua orelha. "Você fugiu de mim uma vez", sussurrei. "Faça isso de novo, e não serei gentil da próxima vez." O calor surgiu atrás de meus olhos. Uma névoa vermelha se infiltrou em minha visão, lentamente no início, mas depois me consumiu por completo. Eu podia senti-lo pressionando para frente. "Deixe-me drenar esse humano insolente", Sorvane ronronou dentro de minha cabeça. Ele queria sair. Ele a queria. Eu podia sentir isso na forma como meus músculos se retesavam por conta própria, no deslocamento do meu peso para a frente, no aperto da minha mandíbula que não era inteiramente minha. Meus dedos se flexionaram contra os braços dela sem que eu quisesse. Ela se encolheu ligeiramente. "Ela está se aproximando de você", disse ele, quase rindo. "Sinta seu cheiro", e eu inalei sem pensar. Perto demais... Eu a queria em minha boca. Em minha pele. Eu queria... Não! Tentei soltá-la, mas ele empurrou com mais força e meu punho se apertou novamente. Eu podia sentir sua pulsação sob minha palma, mas ainda assim não a soltei. "Deixe-me passar", ele sibilou. "Eu cuidarei dela." Então, outra coisa rosnou. Um rosnado começou baixo, em algum lugar profundo, quase silencioso. Não era o Sorvane, porque ele se moveu através de mim em um ritmo diferente. Não houve um momento agudo, apenas uma consciência inegável subindo pela minha espinha. E então uma voz veio, áspera e baixa. "Não toque nela. Ela é minha." Uma respiração que não veio de mim roncou em meu peito, e a névoa fez uma pausa, apenas o tempo suficiente para que a voz surgisse por baixo de tudo. O vermelho cedeu como algo aberto por dentro. Soltei a garota instantaneamente. "Leve-a para o meu carro", eu disse para o guarda atrás de mim, minha voz mais grave do que de comando, e não me virei para olhar para ela novamente. Não porque eu não quisesse, mas porque não tinha certeza de qual parte de mim estaria olhando de volta. Quando me afastei, senti Sorvane encolher-se nos cantos mais distantes de minha mente. Mas em seu lugar, algo se agitou... algo que eu não sentia há trezentos anos. Ragnar, meu lobo. Sua presença era mais profunda do que qualquer outra coisa que Sorvane já havia conseguido. Ele ficou enterrado nas profundezas por trezentos anos e, quando veio à tona, tudo o que disse foi: "Companheiro!" ** Meu carro chegou primeiro ao castelo, deslizando pelos portões enquanto os guardas se afastavam e, quando saí, o ar frio pouco fez para acalmar o calor que ainda pulsava sob minha pele. Atravessei o salão principal sozinho e em silêncio e fiquei no centro, esperando, imóvel, até que as pesadas portas duplas se abriram atrás de mim. Ela foi a primeira coisa que vi. Angelina entrou com o queixo erguido, os pulsos amarrados à sua frente, a corda grossa cortando sua pele, mas não foi a contenção que falou mais alto... foi a mão do guarda presa com força em seu braço e o aperto machucado que me disse que ela não tinha feito a viagem em silêncio. Ela não se submeteu. Nem uma única vez. Ela não olhou para mim. Seus olhos percorreram a sala, lenta e deliberadamente, observando cada detalhe do salão com desprezo. Os lustres, as tapeçarias, a pedra polida sob seus pés. Angelina absorveu tudo com a expressão de alguém que já estava imaginando tudo em chamas. Romeo desceu as escadas no momento em que seu olhar alcançou o trono. "Ala norte", disse ele, sem deixar espaço para perguntas. Meu maxilar ficou tenso. Aquela ala era onde as outras eram mantidas: Mulheres que eu comi e mulheres que morreram por isso. "Não", eu disse em voz baixa. "Coloque-a na sala de visitas." O guarda hesitou por um segundo, talvez esperando que Romeo se sobrepusesse a mim, mas depois obedeceu, levando-a para o corredor leste. Romeo parou nos degraus, com os olhos se estreitando e as sobrancelhas franzidas. "Não senti cheiro de lobo nela", disse ele categoricamente. "Ela não é um", respondi. "Ela é humana." Seu olhar se aguçou. "Então, por que colocá-la na ala de hóspedes?" "Sorvane a reconheceu." Isso o fez vacilar. Apenas um pouco, mas foi o suficiente, uma respiração presa em sua garganta, uma piscada que veio muito lenta. "Oh", ele murmurou, dando um passo para trás instintivamente. Eu não lhe dei mais nada. Não disse a palavra que permanecia como cinza em minha língua. Dizer ao meu Beta que a criatura que Sorvane havia marcado era também a que Ragnar havia reivindicado seria muito próximo de admitir algo que eu não poderia permitir. Porque dizer isso em voz alta tornaria o fato real, e chamá-la de companheira seria o mesmo que escrever sua sentença de morte. Se eu a reivindicasse, ela morreria. E se eu não o fizesse... ela nunca seria minha. Só esse pensamento fez Ragnar rosnar sob minha pele. Pow! Um estrondo ecoou do andar de cima, móveis ou punhos, eu não sabia dizer, e então sua voz soou, furiosa: "Afaste-se de mim!" Nem Romeo nem eu nos mexemos. Mas senti a ondulação em meu peito quando Ragnar se mexeu, satisfeito. Toda vez que ela resistia, toda vez que ela desafiava com fogo em vez de medo, ele respondia com algo de aprovação. Ele gostava do fato de ela não se curvar. "Ela pode acalmar a fera", disse Romeo, com os olhos ainda fixos no teto. "Ou pelo menos mantê-lo alimentado por mais tempo." "Ou talvez ela sobreviva", minha voz baixa. Ele riu baixinho, amargo e incrédulo. "Uma humana não sobreviverá a vocês dois, Drakkar." Então ele se virou e saiu do corredor.
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