Carol Narrando
A realidade voltou a bater como um soco no estômago assim que a moto subiu a primeira ladeira do Dendê. O vento agora não trazia mais liberdade, trazia o cheiro de lixo queimado e o eco distante de um funk que alguém tocava alto em algum barraco. E com ele, veio o peso completo do que eu tinha feito.
Eu, Carolina Batista, herdeira do Dendê, tinha acabado de t*****r com um policial.
Dentro da viatura dele.
Enquanto ele estava de serviço.
A mão tremeu levemente no guidom. Não de medo, mas de uma adrenalina residual que ainda fazia meus nervos cantarem. Meu corpo inteiro estava diferente. Sensível, alerta, marcado. Eu conseguia sentir o peso das mãos dele na minha cintura, a textura áspera da farda contra minha pele, o gosto do suor salgado dele na minha boca. A lembrança era tão vívida que deu um arrepio que não tinha nada a ver com o vento da madrugada.
— Pørra, Carol… que cê fez? — falei baixo, para mim mesma, mas um sorriso teimoso e imprudente insistia em aparecer nos meus lábios.
Porque, putä que pariu, tinha sido bom. Daqueles bons que apagam o mundo. Ele era… diferente. Forte, mas não brutal. Firme, mas não dominador no sentido doentio. E quando ele me olhou, depois de tudo, não foi com nojo, ou com arrependimento. Foi com uma confusão intensa que espelhava a minha. Como se os dois soubéssemos que tinhamos acabado de pisar numa mina terrestre, mas não conseguíssemos parar de admirar o brilho dela.
Cheguei na entrada principal do morro, onde o Babau e o Neguinho já deviam estar de plantão. E estavam. Os dois encostados no muro, conversando baixo, mas com os olhos varrendo a rua como de costume. Quando me viram, acenaram. Aproximei a moto e parei.
— E aí, princesa. Curtiu a noite? — o Babau perguntou, com o olhar atento. Ele era bom, percebia tudo.
— Curti sim. Muito — respondi, e a voz saiu um pouco mais rouca que o normal.
O Neguinho me estudou por um segundo, os olhos estreitando. — Tá com uma cara… diferente. Tudo certo?
— Tudo certo. Só cansada. Tô indo pra casa.
— Fechou. A gente fica por aqui.
Fiz o toque com os dois e segui, sentindo o olhar deles nas minhas costas. Eles sabiam que alguma coisa tinha acontecido. Mas nem em mil anos iam adivinhar o quê.
Estacionei a moto na minha garagem e subi as escadas correndo, como se pudesse deixar a culpa — ou a euforia — lá embaixo. Entrei no apartamento, fechei a porta e encostei as costas nela, respirando fundo.
Precisava falar com alguém. Precisava botar pra fora senão ia explodir.
Liguei o telefone e abri o grupo das meninas. Era quase quatro da manhã, mas eu sabia que pelo menos uma delas estaria acordada.
— MENINAS. CHAMADA DE VÍDEO. AGORA. — Digitei gritado mesmo.
Em menos de um minuto, a tela dividiu. A Júlia apareceu com o cabelo preso, com cara de sono, mas alerta. A Tânia estava de máscara facial, e a Raissa… a Raissa estava com os óculos de grau e uma pilha de processos atrás. Advogada não dorme.
— Que foi? Incêndio? Invasão? — Júlia perguntou, séria.
— Pior — falei, e a minha expressão deve ter sido algo, porque as três se inclinaram pra frente na tela.
— Conta — pediu Tânia, tirando um pedaço da máscara perto da boca.
Respirei fundo.
— Eu fiquei com um cara.
Silêncio. Depois, coro em uníssono.
— E ISSO É A EMERGÊNCIA? — gritou Júlia. — p**a que pariu, Carol, eu achei que o Dante tinha…
— Não é um cara qualquer — cortei. — É o policial. O da blitz.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Através da tela, eu vi os três rostos congelarem em expressões de puro choque. A Raissa foi a primeira a falar, lentamente, como se escolhesse cada palavra com uma pinça.
— Deixa eu ver se entendi. Você, filha do Zeus, comandante do Dendê, transøu… com um PM. Na blitz.
— Dentro da viatura — completei, só para ver os olhos delas arregalarem mais ainda.
A Tânia soltou um “AAAAAH!” abafado e tapou a boca com as duas mãos. A Júlia simplesmente balançou a cabeça, sem palavras.
— Carol… — a voz da Raissa era grave, de preocupação real. — Isso é… isso é muito sério. É perigo em camadas. Se ele descobre quem você é…
— Ele não sabe! — interrompi, a defesa saindo mais alta do que eu queria. — Ele não sabe de p***a nenhuma. Sabe que eu sou do morro, mas ele acha que eu sou uma moradora qualquer. Ele viu minha CNH, o endereço tá lá, Dendê. Ele pode achar que eu sou de qualquer barraco, de qualquer quebrada. Não tem como ele saber.
— Você espera — corrigiu Júlia, recuperando a voz. — Mas e se ele fuçar? Um policial curioso com uma mina do morro… é receita pra desastre.
— Eu sei dos riscos! — gritei, a frustração misturando com a culpa que eu não queria sentir. — Mas p***a, mulheres! Foi… foi bom. Foi diferente. Ele não me olhou como o Dante olha. Não me tratou como os cria me trata. Foi como se… como se eu fosse só uma mulher. E não a Filha do Traficante.
As três ficaram quietas, digerindo. A Tânia foi a primeira a quebrar o gelo, com um sorrisinho maroto.
— E aí… como era? O paü? O porte físico? Conta tudo, vadïa.
Ri, apesar de tudo. Ela sempre sabia como aliviar a tensão.
— Alto. Muito alto. Forte. Com um controle… putä que pariu. E quando ele… — comecei a contar, e as palavras saíam como um rio transbordando. Detalhes, sensações, a ousadia, o perigo. As meninas ouviam, ora escandalizadas, ora rindo, ora com a mão na boca.
No fim, a Júlia resumiu:
— Então você basicamente fez tudo que a gente tem medo de fazer.
— Exatamente. E føda-se. Homem é homem. E paü é paü. Se é gostoso, dá moral e não enche o saco depois, tá valendo. Policial, traficante, bombeiro, lixeiro… tá valendo.
A Raissa suspirou.
— Seu lema vai me dar úlcera. Só toma cuidado, Carol. Muito cuidado. Esse é o tipo de segredo que explode na cara e queima todo mundo.
— Eu sei — disse, mais séria. — É só essa noite. Foi uma loucura. Acabou.
Mas mesmo enquanto falava, sabia que era mentira. Aquele olhar dele quando eu saí da viatura… aquilo não tinha cara de “acabou”. Tinha cara de “isso é só o começo”.
Desligamos a chamada depois de mais uns conselhos (e mais algumas perguntas picantes da Tânia). Fiquei sentada no sofá, no escuro, ouvindo o morro acordar. As primeiras luzes nos barracos, o primeiro carro subindo a ladeira.
Foi quando o celular vibrou de novo. Não era o grupo. Era uma notificação de mensagem.
De número desconhecido.
O sangue esfriou nas minhas veias. Abri.
Número Desconhecido: Não acredito que você teve a coragem de ficar com o policial da blitz. E dentro da viatura. Você é ainda mais imprudente do que eu imaginava, Carolina.
Dessa vez, não ignorei. Os dedos voaram sobre a tela, a raiva e o medo se misturando numa batida rápida no meu peito.
— Quem é você? Para de joguinho. Por que tá me seguindo?
A resposta veio quase instantânea. Como se a pessoa estivesse com o telefone na mão, esperando.
— Porque você é o elo mais interessante dessa corrente toda. E eu gosto de observar coisas interessantes. Até a próxima, Carol. Dorme com um olho aberto.
A mensagem sumiu. Apagada pelo remetente. A tela voltou a ser apenas a conversa vazia, como se nada tivesse acontecido.
Mas tinha acontecido. Alguém tinha me visto. Alguém sabia.
E essa pessoa estava me observando de um jeito que nem o Dante, com toda sua obsessão doentia, tinha conseguido.
Fiquei parada, o celular pesando na minha mão, o corpo ainda quente das memórias do policial, mas a alma agora gelada pelo olhar invisível de um estranho.
A noite tinha acabado. Mas o perigo, pelo jeito, tinha acabado de começar de verdade.
Continua...