Capítulo 45 Carol

1281 Words
Carol Narrando Foi só o tempo de passar um rádio pros cria e me encontrar na barreira com um fuzil e uma cinta de munição. Chutei o pé, ouvindo os estrondos, percebendo que eles tavam vindo com tudo e não iam arredar o pé. Meu coração batia na nuca. Meu corpo já entrando na adrenalina. Minha mente revezando entre dar tudo de mim e tentar assimilar o que podia acontecer se eu ficasse cara a cara com ele dentro do morro. Chegamos. Eu, meu pai, Babau, Neguinho e mais uns quatro da linha de frente. O pai do Neguinho e do Babau também junto. Os cria assoviaram de cima da laje. Eu subi, já colocando o colete, atravessando o fuzil na bandoleira. Começou o fogo cruzado. E eles não tavam nem aí. Era como se estivessem entrando em terra de Zé Ninguém. Foram subindo com tudo, com ódio, atirando sem nem querer saber se tinha ou não inocente na rua. Foi aí que meu sangue ferveu ainda mais. Na minha mente, só chamava por ele. Lopes, seu filho da p**a do c*****o, vou te matar seu arrombado. Era como se esse pensamento chamasse por ele. Quando o caveirão deu uma leve inclinada pra entrar em outra rua, ele tava lá. Como se fosse puxar a tropa. Eu não hesitei. Enquanto os cria e o coroa atiravam no caveirão, eu mirei aonde ele tava dentro daquela lata de sardinha. Comecei a atirar. Ele olhou na minha direção. Certeza que ele me viu. Foi quando ele pulou. Fiquei só observando. Uma hora ele ia ter que sair de trás da p***a do caveirão. Foi quando a tropa começou a subir com força. Percebi que não era ele, mas sim o arrombado do Barroso atravessando a rua vindo na minha direção. Me ajeitei, ficando numa posição que eu tava vendo ele, mas ele não tava me vendo. Foi quando a testa dele apontou. Eu mirei. Ele pulou, se jogando. Eu só levantei e disparei. Ele gritou. Parece que todos os fuzis, todas as armas apontaram na minha direção. Começou um fuzilamento sinistro. Tive que pular de lá, saindo pulando de laje em laje. Cai no chão. Comecei a correr, procurando um lugar pra me posicionar, pra não deixar eles passar. Já ouvia o rádio deles, já ouvia os gritos. Peguei o rádio e chamei o coroa. Rádio On — Pai, cê tá onde? — perguntei assim que apertei o botão. A voz dele veio firme, no meio dos tiros. — Rua 2, filha. Tô no alto. — Meu passa a visão, eu fico tentando respirar aliviada mas é impossível. — Fica aí então. Cê sabe que eles entraram aqui porque querem a tua cabeça. — Pra pegarem a minha cabeça, vão ter que me pegar primeiro. — Meu coroa fala do jeito que eu sei que ele é. — Se cuida, coroa. — Você também, filha. Rádio Off Desliguei o rádio. Olhei pro lado. Babau e Neguinho tavam comigo, os fuzis em punho, os olhos vidrados na direção dos caveirões. — E aí, patroa? — Neguinho gritou, no meio do tiroteio. — Qual é a visão? — A visão é segurar a barreira. Eles não vão passar. — Pode deixar, chefe — Babau respondeu, a voz firme. — Nós não vamo arredar o pé. A voz de outros cria estourou no rádio. — Nós tamo aqui também, patroa! Vamo sentar a lenha nesses arrombado! — Isso aí é sentar o aço, pørra! — gritei de volta. — Não deixa um passar! Me posicionei num canto onde dava pra ver o caveirão e os bota avançando. Comecei a atirar. Os tiros ecoavam, as balas riscando o ar. Os cara nas lajes davam cobertura, atirando de cima. Eu atravessei a rua correndo, me jogando atrás de um carro capotado. Foi quando senti o cheiro. Aquele cheiro. O cheiro dele. Dei uma gargalhada. Amarga. Louca. Virei o corpo devagar, soltando o fuzil, pegando a Taurus que tava na cintura. Ainda agachada, com o joelho apoiado no chão, terminei de girar. A Taurus apontada direto na cara dele. — Então você não sabia quem eu era? — a voz saiu baixa, carregada de ódio. — Você não sabia quem era o meu pai? Mas é só o chefão dessa operação? É isso mesmo? Ele me olhou. Os olhos escuros, cansados, mas com alguma coisa ali que eu não conseguia decifrar. — Você sabe que é o meu trabalho — ele disse, a voz calma. — Não fui eu que arquitetei. Mas eu preciso executar. Sorri. Balancei a cabeça, sem tirar a mira. — Eu jurei pra mim mesma que a próxima vez que eu fosse te ver, ia ser pela mira da minha Taurus. Ele respirou fundo. — Você sabe que eu não subi aqui por você. A ordem é pro seu pai. — AÍ! — gritei, a voz ecoando. — E você acha que é o quê? Você tá aqui dentro por causa do seu pai, cumprindo ordem. Mas é por causa dele. E eu tô aqui lutando, tô aqui com essa arma apontada pra sua cara, por causa do meu pai. É sempre pela família. Ele ficou em silêncio. — Você sabe que entrou. Mas sabe que não vai sair, né? — perguntei com o dedo no gatilho. — Você vai ter coragem de atirar em mim? — ele perguntou me encarando Ele ajeitou o fuzil. — Nem pensa nisso. — Falei dando uma leve esticada no braço apontando direto na testa dele. — É o meu trabalho — ele repetiu. Foi quando um dos botas apontou a arma na nossa direção. O Lopes atirou primeiro. O cara caiu. Ele me olhou de novo. Aquela expressão. Como se tivesse dito "fodeu". Como se não tivesse tido a intenção de atirar em mim. Mas salvou minha vida. — Você sabe que só um de nós dois vai poder sair daqui inteiro, né? — falei. — Tenho consciência disso — ele respondeu. — Mas não vou ser o primeiro a puxar o gatilho. Dei uma gargalhada. Dessa vez, sem graça nenhuma. — Pena que eu não tenho sentimento igual você. Pelo meu morro, pela minha comunidade, pelo meu pai, eu faço questão de puxar o gatilho primeiro. A voz do Barroso estourou no rádio que tava no peito dele. — O Zeus já tá na mira! O foco aqui é ele! Morto ou vivo, agora é a hora! Ele olhou pro rádio. Olhou pra mim. Meu maxilar travou. Os músculos do meu rosto endureceram. Meu corpo começou a tremer. Olhei nos olhos dele. Ele sabia. Eu sabia. Agora era vida ou morte. — Você sabe que eu não vou deixar você sair daqui com ele — falei, a voz baixa, mas firme. — Então se eu fosse você, metia o pé. Ele não respondeu. Só me olhou. Foi quando os tiros vieram. PÓ! PÓ! Dois disparos na nossa direção. Um deles pegou de raspão no meu rosto, batendo no muro atrás de mim. Senti o arranhão quente na pele. — FILHO DA PUTÄ DO CARALHØ! — gritei, me jogando pra trás. — Derruba ela! Lopes, derruba ela! — a voz de algum oficial ecoou no meio do tiroteio. Atirei. Direto no cara que tava atrás do Lopes. O tiro passou roçando o pescoço dele — vi o sangue brotar — e acertou em cheio a cabeça do outro. O corpo caiu pesado no chão. — SAI DAQUI AGORA! — gritei pra ele, a voz rouca. — ANTES QUE EU ME ARREPENDA! Ele me olhou por um segundo. Só um segundo. Depois correu. Dois passos. Na minha direção. Eu selei o bico da minha Glock na testa dele. Continua...
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