Barroso Narrando
A noite no batalhão foi tranquila. Tranquila demais pro meu gosto. Mas eu não reclamo. Porque tranquilidade pra uns é oportunidade pra outros. E eu tava ali, plantado na sala de monitoramento, com os olhos grudados nas telas e um sorriso de canto que não desaparecia.
O Lopes. Meu alvo preferido.
Vi tudo. Vi quando ele abordou a morena na blitz. Vi o jeito que os dois se olharam — aquilo não era abordagem de policial e cidadã, era outra coisa. Vi quando ele abriu a porta da viatura e ela entrou. Vi o carro sair dali devagar, sumir no escuro.
E a moto dela? Ficou lá. Larga. Sozinha.
Fiquei imaginando a cena. O carro parado num canto escuro, os vidros embaçados, os dois se pegando igual adolescente. Dei uma gargalhada sozinho na sala.
— Esse Lopes… tá me saindo melhor que encomenda.
Fiquei ali, observando. Esperando. Até que horas depois, ela voltou. A morena. Montou na moto e acelerou feito uma louca em direção ao morro. Pela cara, pelo jeito que saiu chutada, uma de duas: ou ela descobriu quem ele é, ou ele descobriu quem ela é.
Os dois tão dançando e nem sabem.
Foi quando o Lopes voltou pro local da blitz. Estacionou a viatura no mesmo lugar. Aí, minutos depois, um carro parou. Uma loira saiu de dentro, foi até a viatura, e sumiu pro lado escuro com ele.
Gargalhada alta. Sozinho.
— Esse Lopes tá pior que os carioca. Morena, loira… o homem não perde tempo.
Foi nessa que a porta da sala abriu.
— Tudo bem, Barroso? — o chefe entrou, olhando as telas. — Tá tudo muito tranquilo hoje, não tá?
— Tá sim, chefe. Calmaria.
Ele se aproximou, olhou os monitores.
— Calmaria antes da tempestade, costumam dizer.
Fiz que sim com a cabeça. Aí resolvi provocar.
— Chefe, deixa eu te perguntar uma coisa. Se alguém do batalhão se envolver com alguém do morro… o que o senhor faria?
Ele me olhou estranho.
— Depende. Se não atrapalhar o trabalho, não tem nada demais.
Sorri. Joguei mais veneno.
— E se envolver com uma traficante? Ou com a filha de um traficante?
Ele franziu a testa.
— Tu tá bem, Barroso? Por que essa conversa a essa hora? Deve tá com sono, não tá? Quer ir mais cedo?
— Qual é, chefe. Tu sabe que se precisar, eu fico aqui uma semana seguida. O problema não é sono. Só tô te fazendo uma pergunta. Responde aí.
Ele me encarou por um longo segundo.
— Você sabe que eu nem preciso responder isso, né? Se não for infiltrado, se não for gente que a gente mandou se aproximar… é lógico que é demissão. Ou caixão.
Sorri. Largo. Gostoso.
— É mesmo?
— Tá me achando com cara de quem tá brincando?
Balancei a cabeça, negando. Mas por dentro, eu tava em êxtase.
— Eita, Lopes. Eita, Lopes — murmurei baixo.
— Lopes aprontou alguma coisa? — o chefe perguntou, desconfiado. — Até onde eu sei, Lopes é homem sério, direito. Nunca me deu trabalho, nem com horário.
Olhei pra ele, mantendo a cara mais lavada do mundo.
— Não, chefe. Nada disso.
Mas por dentro, eu ria. Se ele soubesse que agora pouco o Lopes tava com o p*u enterrado na filha do traficante mais procurado do Rio… e no meio do expediente. Dava até pena.
Me perdi nos pensamentos. A imagem do Lopes, a viatura balançando, os vidros embaçados. Devia ter sido uma cena e tanto.
Bati o dedo na tecla, apagando algumas coisas na tela. O chefe percebeu.
— Tudo bem? O que cê tá apagando aí? Tá vigiando algo específico?
— Não, não. Só organizando uns arquivos.
Ele me olhou desconfiado, mas deixou pra lá.
— Chefe, o senhor sabe se o Lopes é casado?
Ele riu, alto.
— Tu é aleatório mesmo, hein? Por que tanto interesse na vida do Lopes?
Dei de ombros.
— Curiosidade.
Puxei a ficha do Lopes na tela, bem na frente dele. O chefe viu.
— Tá com interesse na ficha pessoal do Lopes? Barroso, tô achando estranho esse interrogatório. Essa tua sede de querer saber tudo sobre o cara. Uma implicância ou outra entre colegas é uma coisa, mas tá demais, não vai não?
Girei a cadeira, fiquei de frente pra ele.
— Só curiosidade, chefe. Tu sabe como eu sou.
Ele me estudou por um segundo. Depois suspirou.
— Tô indo ali buscar um café. As meninas acabaram de passar.
— Daqui a pouco eu vou lá também. Tomar um café e dar um pulo em casa pra tomar um banho.
Ele saiu. A porta fechou.
Sorri.
Puxei o histórico do telefone do Lopes. Achava fácil. Achava o número da loira que tinha ido encontrar ele. Salvei como "Loira do Lopes".
— Oi. — Mandei uma mensagem
Simples. Direto. Depois a gente via no que dava.
A noite ainda tava longe de acabar. E eu, pacientemente, ia tecendo minha teia.
Uma hora, a aranha ia jantar.
Depois que o chefe saiu, voltei pro computador. Mãos no teclado, dedos voando. O número da loira já tava salvo, mas eu queria mais. Queria saber quem ela era, de onde vinha, o que fazia aqui.
Abri as redes sociais. Pesquisei o número. Bingo.
O perfil dela apareceu na tela. Privado, mas com foto de perfil aberta. Loira, olhos claros, sorriso perfeito. Umas fotos de biquíni, outras de vestido, todas mostrando um corpo que qualquer homem pagaria pra ver de perto.
Rolei as fotos. Praia. Academia. Festa. Ela em São Paulo, ela no Rio, ela em algum lugar com cara de hotel chique.
Caralhø. Gostosa demais.
Parei numa foto mais recente. Ela de vestido preto, decote generoso, legenda qualquer coisa sobre saudade. A data era de ontem.
Ontem ela tava no Rio. Hoje ela tava aqui, encontrando o Lopes na madrugada.
Sorri.
Se ela for mulher dele — ou ex, ou amante, ou o que for — e ele tá traindo ela com a Carol… bom, isso abre muitas possibilidades. Mulher traída é mulher vulnerável. E mulher vulnerável, eu sei exatamente como abordar.
Posso consolar a mulher dele.
Posso ser o ombro amigo, o ouvido atento, o homem que entende a dor dela. E enquanto ela chora as mágoas do Lopes, eu vou descobrindo tudo que preciso.
Salvei as fotos. Guardei o perfil. Mais tarde, com calma, eu estudo melhor.
A teia tava crescendo. E a aranha, paciente, só esperando a hora certa de dar o bote.
Continua...