Raíssa Narrando
Eu, assim como as minhas amigas, sou uma aventureira. Meu nome é Raíssa. Eu não preciso tirar minhas aventuras do morro, porque eu moro no asfalto. Mas as outras são moradoras e donas de comunidades aqui no Rio de Janeiro. Todas as três são herdeiras do tráfico, mas isso não diminui elas em nada. Lutamos pela mesma causa, mesmo que seja de um ponto de vista diferente. Não tô falando do meu ponto de vista, nem do ponto de vista delas que são herdeiras do tráfico. Falo do ponto de vista da lei em geral no Rio de Janeiro. Meu nome é Raíssa. 28 anos, advogada criminalista, filha de juiz e promotora. E, aparentemente, a única pessoa nessa família que ainda lembra que o povo das comunidades também é gente.
A noite com as meninas tinha sido boa. Pagode, risada, Carol solta que nem passarinho depois daquela noite com o tal do Lopes. Acho que ela tava precisando esvaziar a cabeça e gozar. Porque ela tava com os nervos à flor da pele. Eu ri, bebi, dancei, mas a preocupação não saía de dentro. A mensagem que a Carol mostrou... aquele número desconhecido sabendo de tudo... aquilo mexia comigo de um jeito que não conseguia explicar.
Cheguei em casa umas duas da manhã. A casa dos meus pais, no Leblon. Sim, eu moro com eles. Economia, respeito, sei lá. Mas também porque advogado criminalista no Rio é muito visada. Eu ganho o suficiente pra alugar um triplex na Zona Sul, mas eu não tô nem aí pra status. Tenho três propriedades, mas o meu pai fala que enquanto eu não me relacionar sério com alguém ou me casar, ele não vai me deixar por aí sozinha.
Subi, tomei um banho demorado, lavei o cabelo. Fiquei pensando na Carol. Na mensagem. No tal do policial. Em uma possível invasão que ela tinha mencionado sem querer. O coração apertava. Cai na cama que nem senti.
Acordei sem despertador, isso é sinal que dormi o suficiente pra descansar. Tomei um banho. Desci pra cozinha umas dez da manhã, de moletom e cabelo molhado, pronta pra atacar o café. Antes de chegar na mesa, ouvi a conversa.
Meu pai, desembargador aposentado, e minha mãe, promotora pública, sentados na mesa com café e jornais. Mas o assunto não era política comum.
— O Otávio conseguiu o mandado — meu pai disse, a voz grave. — Vai ser quinta-feira. Invasão no Dendê.
Parei no meio da sala.
— O quê?
Os dois olharam pra mim. Minha mãe sorriu, tentando amenizar.
— Raíssa, querida, bom dia. Senta, toma um café.
— Não quero café, quero saber o que é isso de invasão no Dendê.
Meu pai suspirou, aquele ar de "não é da sua conta".
— O juiz Otávio Mendonça conseguiu autorização. Vão subir o morro. Finalmente vão pegar o Zeus.
O sangue gelou.
Zeus. O pai da Carol.
— Por que tanto ódio assim? — perguntei, sentando na ponta da cadeira. — O que esse juiz tem contra o Zeus?
Minha mãe e meu pai trocaram olhares.
— Coisa velha — minha mãe disse, evasiva. — Rixa de juventude. Otávio perdeu alguém importante pro tráfico há muitos anos. Nunca superou.
— Então é pessoal? — a voz saiu mais alta do que eu queria. — Não é sobre justiça? É sobre vingança?
Meu pai bateu na mesa.
— Raíssa, você sabe como funciona. A lei é a lei. O Zeus é traficante. Merece ser preso.
— Eu sei que ele é traficante — levantei a voz também. — Mas você sabe que eu tenho amiga lá. Você sabe que eu tenho a Carol. Pessoas que não têm nada a ver com tráfico, mas que vão estar no meio do fogo cruzado.
Minha mãe tentou pegar minha mão.
— Filha, a gente sabe que você se importa. Mas não pode se meter nessa rixa. É antiga. Muito maior do que você.
— Não é maior do que a minha consciência — levantei, a cadeira rangendo no chão. — Eu não vou deixar gente inocente morrer por causa de briga de velho.
— RAÍSSA! — meu pai levantou também. — Você não vai se meter nisso. É perigoso. Você não sabe o que o Otávio é capaz.
— Eu sei o que eu sou capaz — respondi, já saindo da cozinha. — E não vou ficar de braços cruzados.
—
Tranquei a porta do escritório. Meu escritório em casa, cheio de livros, processos, pastas. Liguei o computador, os dedos voando no teclado.
Otávio Mendonça.
Juiz. Poderoso. Inimigo do Zeus. E agora, pai de...
Pesquisei. Família. A esposa, falecida. Os filhos: Patrícia, delegada; Ana, promotora; André, advogado criminalista. Todos na lei. Todos nos tribunais.
E o caçula.
Rafael Lopes Mendonça.
Parei.
Rafael Lopes.
O mesmo sobrenome que a Carol tinha mencionado. O policial da blitz.
Cliquei no perfil. 35 anos. Formado em Direito, mas nunca exerceu. Foi direto pra PM há dez anos. Transferido de São Paulo há seis meses. Lotado no batalhão da Zona Norte. Patrulhamento nas rotas próximas aos morros.
As últimas ocorrências: blitz na saída do Dendê. Exatamente na noite em que a Carol foi parada.
— Putä que pariu — sussurrei, a boca seca. — É o mesmo Lopes da Carol. Pørra.
Putä que pariu.
O homem com quem minha melhor amiga transou, o homem que fez ela suspirar, o homem que arrancou da Carol aquela cara de "perdi o chão"...
É filho do juiz que quer destruir o pai dela.
E ele não sabe quem ela é.
Ou será que sabe?
Rolei a tela, lendo cada detalhe. Transferência recente. Histórico limpo. Nenhuma mancha. O bom moço da família.
Mas por que ele foi transferido pro Rio justo agora? Por que escolheu justo a rota do Dendê pra fazer blitz?
Coincidência?
Não acredito em coincidência.
Encostei na cadeira, olhando pra tela. A foto dele aparecia no canto. Olhos escuros, queixo forte, farda impecável. O tipo de homem que qualquer mulher olharia duas vezes. Inclusive a Carol.
Agora, tudo fazia sentido. E nada fazia sentido ao mesmo tempo.
Se ele descobrir quem ela é... se ela descobrir quem ele é...
Balancei a cabeça. Precisava pensar. Precisava agir.
Mas por onde começar?
Peguei o celular. O nome da Carol na tela. Meu dedo pairou sobre o botão de ligar.
Conto pra ela? Falo que o homem que ela tá afim é filho do maior inimigo do pai dela?
Ou espero, investigo mais, vejo se ele realmente não sabe de nada?
Respirei fundo, guardei o celular.
Ainda não.
Primeiro, preciso saber mais. Muito mais.
E se o tal Lopes for inocente... se for só mais um peão nesse jogo...
Mas se não for...
Fechei os olhos.
Carol, minha amiga. Você não faz ideia do tamanho do buraco que você tá cavando.
Continua...