Capítulo 62 Carol

1135 Words
Carol Narrando A porta fechou atrás do meu pai e o silêncio caiu que nem concreto. Eu fiquei ali, deitada naquela cama de hospital, olhando pro teto branco. O corpo doía. Cada osso, cada músculo, cada pedaço de mim gritava. A carne esmagada, os cortes, os hematomas. Tudo doía. Mas não era nada perto da dor no peito. As palavras dele ainda ecoavam. Não saíam. Não importava quantas vezes eu piscasse, quantas vezes eu tentasse pensar em outra coisa. Elas estavam lá. Gravadas. Cravadas. "Preferia você quebrada. Com as pernas quebradas, os braços quebrados, do que grávida do sangue daquele juiz desgraçado." Meu pai. O homem que me ensinou a atirar. Que me ensinou a nunca abaixar a cabeça. Que me protegeu do mundo desde que eu nasci. Falou aquilo. Falou na minha cara. E doeu mais que o prédio caindo. Porque o prédio só esmagou meu corpo. As palavras dele esmagaram minha alma. Flashback On A médica entrou no quarto com o papel na mão. Cara séria. Profissional. Mas tinha algo no olhar dela que já entregava. Um brilho de quem vai dar uma notícia que não tem como suavizar. Minha mãe segurou minha mão. Apertei de volta. Senti o calor da mão dela, mas não foi suficiente. Nada seria suficiente naquele momento. — Carol, o resultado saiu — a médica falou, sentando na ponta da cama. O tom dela era calmo, mas pesado. — Deu positivo. Você tá grávida. O mundo parou. Juro. O som dos aparelhos sumiu. A luz do teto pareceu tremer. Meu corpo, que já tava moído, ficou mais pesado ainda. — Não — eu sussurrei. A voz não saía. Parecia que alguém tinha fechado minha garganta. — Não tem como. Não pode. — A datação ainda é muito inicial — ela explicou, colocando a mão no meu braço. — Mas o exame é claro. Vamos fazer uma transvaginal pra saber exatamente o tempo gestacional, mas está bem no começo. Umas três semanas, talvez. No máximo quatro. Três semanas. A primeira blitz. Eu lembrei. Lembrei do vento no rosto enquanto descia a ladeira. Lembrei dos giros azuis e vermelhos. Lembrei de quando ele saiu da viatura. Aquele homem alto, farda justa, olhar intenso. O carro. A viatura. A casa dele. O banho. A cama. O Lopes. A médica continuou falando, mas eu não ouvia mais. As palavras dela entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Eu só via ele. Só sentia ele. Minha mãe não falou nada. Só ficou ali, me olhando. A cara dela... eu nunca tinha visto aquele olhar. Era como se ela tivesse perdido algo. Como se o chão tivesse sumido e ela não soubesse mais onde pisar. A médica saiu. Prometeu voltar com mais informações. Disse que ia agendar a transvaginal. Ficamos eu e ela. Silêncio. Um silêncio pesado. Denso. Que apertava o peito. Ela levantou. Apertou minha mão. Olhou nos meus olhos por um segundo que durou uma eternidade. E saiu do quarto. Sem falar uma palavra. Nada. Nem um "vai ficar tudo bem". Nem um "a gente resolve". Nem um "eu tô aqui". Nada. A porta fechou com um clique que ecoou no vazio. Flashback Off Agora, eu tô aqui. Sozinha. Olhando pra mesma porta que ela fechou. Meu pai queria me ver quebrada. Minha mãe saiu sem dizer nada. E eu? Eu tô aqui. Deitada nessa cama fria. Com um pedaço do Lopes dentro de mim. Um pedaço do homem que eu não sei se devia odiar ou amar. As lágrimas vieram. Quentes. Silenciosas. Escorreram pelo canto do olho, molharam o travesseiro, se perderam no cabelo. Eu não chorei quando o prédio caiu. Não chorei quando me puxaram dos escombros. Não chorei quando sentiram minha perna e eu gritei de dor. Mas agora, sozinha, com as palavras do meu pai na cabeça e o silêncio da minha mãe no peito, eu chorei. Chorei igual criança. Chorei igual quem perdeu o chão. Porque pela primeira vez na vida, eu não soube o que fazer. Eu sempre soube. Sempre. Cresci sabendo. Cresci tendo resposta pra tudo. Cresci sendo a filha do Zeus. A herdeira. A patroa. Mas agora? Agora eu era só a Carol. A mulher que carregava um filho do inimigo. A filha que ouviu do próprio pai que preferia ela quebrada. Passei a mão na barriga. Lisa ainda. Nada. Mas tinha algo ali. Uma vida. Uma vida que metade era dele. Metade era do Lopes. — O que eu faço com você? — sussurrei pra minha própria barriga. — O que eu faço comigo? O silêncio respondeu. E eu continuo aqui. Sozinha. Perdida. Quebrada. Mas não do jeito que meu pai imaginou. Quebrada por dentro. A porta abriu de novo. Minha mãe entrou devagar, os olhos vermelhos, o corpo tenso. Ela me viu chorando e pareceu quebrar por dentro. — Carol... — a voz dela falhou. — Mãe, eu escutei os gritos — falei, enxugando o rosto com as costas da mão. — Eu sei que o senhor ficou puto. Mas eu não preciso que você fique calma por mim. Ela se aproximou. Sentou na beirada da cama. — Filha... — Mãe, eu tô calma. Eu acho que sentir triste é ser humano. Se sentir pequena é ser humano. Eu acho que chorar também é do ser humano. E eu sou uma mulher. Não sou de ferro. Ela me puxou pro abraço. Senti o corpo dela tremer. — Eu vou amar o meu neto — ela disse, a voz abafada no meu ombro. — Por mim e por ele. E você vai ter esse filho. Me afastei um pouco. Olhei nos olhos dela. — Ei, calma aí, com certeza eu vou ter esse filho. Não pensei em hora nenhuma em tirar. Eu não pensei em engravidar, porque não pensava em me relacionar sério com ninguém. Não me relacionei sério com ninguém. Mas também não pedi pra engravidar. Só que o sonho de toda mulher é ter um filho. Minha voz falhou. Engoli o choro. — Ele pode ser rejeitado pelo pai... rejeitado pelo avô... mas ele só não pode ser rejeitado por mim... isso vai me doer ainda mais. Se ele for rejeitado pelo meu pai, eu não posso fazer nada. Mas se ele rejeitar o meu filho, ele vai estar rejeitando a mim mesma. Porque eu não vou abrir mão dele. Se precisar, eu saio do Dendê. Minha mãe me segurou pelos ombros. Firme. — Você nem pensa nisso, Carolina. Eu não vou deixar você grávida, sozinha, no meio do mundo. Nunca. O choro veio de novo. Mas agora era diferente. Era alívio misturado com medo. Era saber que pelo menos uma pessoa tava do meu lado. — Obrigada, mãe. Ela me abraçou de novo. — A gente vai passar por isso juntas. Eu e você. E ele. Meu neto. Continua...
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