Carol Narrando
A noite foi um inferno.
Rolei na cama umas duzentas vezes, o corpo lembrando de cada toque do Lopes, a cabeça martelando com a mensagem daquele filho da putä misterioso. Como ele sabia? Como ele sabia TUDO? Parecia que tava dentro da viatura com a gente. Parecia que via pelos meus olhos.
Quando o sol resolveu aparecer, eu já tava cansada de lutar contra o sono. Levantei, joguei as cobertas pro lado e fui pro banheiro. Precisava lavar a alma. Dos pés à cabeça.
Liguei o chuveiro e entrei, deixando a água quente descer e levar embora o cansaço, a paranóia, as dúvidas. Ensaboei cada pedaço, lavei as tranças com calma, sentindo o shampoo fazer espuma. Tinha coisa que só um banho resolvia. E eu precisava de vários.
Depois de uns vinte minutos, desliguei o chuveiro. Enrolei uma toalha no cabelo, outra no corpo, e fui pro quarto. Olhei no espelho. Olheiras, mas um brilho nos olhos que não tinha como disfarçar. Tesãø m*l resolvido? Talvez.
Vesti um top preto, leve, e um shortinho de tecido de meia bem curto. Calcinha? Pra quê? Tava em casa sozinha, e o conforto falava mais alto. Calcei uma sandália rasteira, peguei o celular e o carregador, e desci.
Quando empurrei a porta da sala, parei.
Mesa farta. Café, pão, frutas, suco, e as três: Raíssa, Júlia e Tânia, sentadas como quem esperava o show começar.
— O que é isso? — perguntei, rindo.
Raíssa apontou a cadeira vazia.
— Senta que a gente precisa de detalhes.
Júlia cruzou os braços.
— Detalhes de tudo. Da blitz, do admirador secreto, e principalmente desse Lopes. O policial novo que você nunca viu no Rio.
Tânia já tava com o celular na mão, pronta pra gravar.
— Pode começar.
Sentei, servi um café bem quente e tomei um gole longo. Elas esperaram, impacientes.
— Gente, calma — falei. — Tanta pergunta assim?
— Tanta — responderam em coro.
Ri, sacudindo a cabeça.
— Tudo bem. Pode perguntar.
Tânia não perdeu tempo.
— Usou camisinha?
A pergunta caiu na mesa como uma bomba. As outras duas arregalaram os olhos.
Respirei fundo.
— Não.
— CAROL! — Júlia quase gritou. — Tu é maluca?
— Eu sei, eu sei. Mas não tô no dia fértil. E não foi planejado, entende? Foi um t***o que deu, foi maior do que eu podia imaginar. Na hora, não pensei em mais nada.
Raíssa apertou os olhos, a advogada dentro dela falando mais alto.
— Carol, tu é maluca igual os donos de morro. t*****r sem camisinha com um desconhecido? E policial?
Soltei uma gargalhada alta.
— Eu tava com a cabeça cheia, mulher! Depois daquele nojento do Dante, da pressão do coroa, daquela mensagem bizarra… eu precisava enfiar o pé na jaca. Esquecer tudo.
Raíssa balançou a cabeça.
— Tu tá parecendo aqueles bandidø que não sabe o que fazer com os sentimentos e sai enfiando o p*u em tudo quanto é buraco.
— ALTO LÁ, MINHA AMIGA! — levantei o dedo, rindo. — Tudo quanto é buraco não. Esse buraquinho aqui só entra o que eu quero, na hora que eu quero.
As três caíram na gargalhada. A Tânia quase chorou de rir.
— Tá certo, princesa — Júlia conseguiu falar entre risadas. — Mas conta logo. COMO É QUE FOI?
Aí eu soltei a língua.
Contei tudo. Do jeito que ele me olhou na blitz, da volta de táxi, da entrada na viatura, do beijo, das mãos, do cheiro. Contei do jeito que ele segurava, do gemido, do gosto. Contei que ele era um n***o de quase dois metros, forte, mas suave. Contei que quando ele me pegou, eu perdi o chão.
— Gente, juro. Eu já transei com muito homem. Mas igual àquele… nunca. Ele sabia onde apertar, onde morder, onde lamber. Parecia que me conhecia há anos.
Tânia tava boquiaberta.
— E o paü? Tamanho?
Mordi o lábio, sentindo o calor subir.
— Grande. Grosso. Na medida certa. E quando ele entrou… p**a que pariu. Eu vi estrela.
Júlia assobiou baixo.
— Esse homem tem que ser enquadrado. Não como policial, mas como patrimônio nacional.
Rimos todas de novo.
A conversa fluiu. Comemos, bebemos café, rimos, fofocamos. Elas contaram das últimas, dos caras que tavam dando em cima, das fofocas do asfalto. Por algumas horas, a paranóia sumiu. Era só mulher, amizade e risada.
O dia passou voando. Quando o sol começou a baixar, Tânia olhou pro relógio.
— E aí, vamos pro pagodinho na praça? Tô precisando dançar.
Júlia concordou na hora. Raíssa suspirou, mas sabia que não ia escapar.
— Vamos. Mas se tiver polícia, a gente sai de fininho, combinado?
Olhei pra ela, rindo.
— Relaxa, advogada. Hoje é dia de samba, não de confusão.
Levantamos, nos arrumamos rápido. Eu troquei o top por uma blusa mais soltinha, mas mantive o short curto. Sandália, brinco grande, um gloss. Pronta.
Descemos pro pagode. A praça tava cheia, gente bonita, música alta, cerveja gelada. Achei um canto com as meninas, pedi uma dose e comecei a dançar.
A noite tava boa. O corpo solto, a cabeça vazia, a música no sangue. Dancei, cantei, bebi. Por algumas horas, fui só mais uma mulher na multidão.
Até que precisei ir ao banheiro.
O banheiro feminino tava com uma fila gigante. Suspirei, olhei pro lado. O masculino tava vazio. Entrei rápido, decidindo que ninguém ia reparar. Lavei as mãos, olhei no espelho. A Carol do reflexo tava linda, solta, viva. Sorri.
Foi quando a porta abriu de novo.
Entrei em alerta na hora. Mas era só um cria. Conhecia ele de vista. Moreno, magro, uns vinte e poucos anos. Sempre rondando as festas do morro, sempre me olhando de longe com aquele olhar de quem quer mas não tem moral pra chegar.
Ele parou quando me viu, os olhos arregalando.
— Patroa… — a voz dele saiu meio trêmula. — Desculpa, não sabia que tinha mulher aqui.
— Relaxa — falei, enxugando as mãos. — Tô saindo.
Passei por ele, sentindo o peso do olhar nas minhas costas. Mas antes que eu chegasse na porta, a mão dele segurou meu braço.
— Espera.
Olhei pra mão dele, depois pro rosto. A expressão dele tinha mudado. O respeito deu lugar a alguma coisa mais ousada. Mais burra.
— Solta meu braço.
Ele não soltou. Pelo contrário. Apertou mais.
— Patroa, eu… eu tô afim de você há muito tempo. Desde antes de você assumir o morro. Você nunca me nota, nunca olha pra mim, mas eu tô sempre aqui. Sempre.
— E o que você quer com isso? — minha voz saiu gelada.
Ele deu um passo à frente, me encurralando contra a parede fria do banheiro.
— Quero que você me veja. Quero que você me dê uma chance.
— Não vou dar chance nenhuma. Solta meu braço antes que eu…
Ele não deixou eu terminar. Inclinou o corpo e tentou me beijar.
Desviei o rosto, sentindo o hálito de cerveja perto demais.
— Tá louco, p***a? — rosnei, tentando empurrar ele.
Mas ele era mais forte do que parecia. Segurou meus dois braços com uma mão só e os levantou acima da minha cabeça, me pregando na parede. Fiquei presa, os braços imobilizados, o corpo dele colado no meu.
— Solta AGORA — a voz saiu baixa, perigosa.
— Só um beijo, patroa. Um beijo e eu juro que nunca mais encho teu saco.
Olhei nos olhos dele. O desejo misturado com burrice. Ele não tava entendendo o tamanho do erro que tava cometendo.
— Você sabe quem eu sou? — perguntei, calma demais.
Ele hesitou.
— Sei. É a filha do Zeus.
— Então você sabe que se não me soltar agora, amanhã cedo você tá boiando no mar.
A mão dele tremeu. O corpo afrouxou a pressão. Foi o suficiente.
Com um movimento rápido, libertei um dos braços e acertei o cotovelo no queixo dele. Ele cambaleou pra trás, soltando um grunhido. Não esperei ele se recuperar. Abri a porta do banheiro e saí, respirando fundo.
Meu coração batia forte, mas não de medo. De raiva. Raiva de ter que lidar com homem burro em todo canto.
Quando voltei pras meninas, Raíssa me olhou estranho.
— Tudo certo? Tava demorando.
— Tudo — menti, sentando. — Fila gigante.
Ela não perguntou mais. Mas eu vi, no canto do olho, o cria saindo do banheiro, a cara vermelha, o olho arregalado. Ele me viu, desviou o olhar rápido, e sumiu na multidão.
Respirei fundo, peguei minha dose e tomei de uma vez.
Continua...