Capítulo 46 Lopes

1167 Words
Lopes Narrando Eu já tava na pørra do ódio quando me vi nessa situação. E de quebra, pra piorar, tem o desgraçado do Barroso, que só pode ter sido enviado pelo próprio capeta pra f***r com a sanidade da gente nesse c*****o. Enquanto ele falou que ia atrás do Zeus, beleza. Mas quando ele olhou pra onde os cara tavam atirando, ele viu a Carol. Foi na direção dela com tudo. Eu não podia tá na cara. Porque eu não ia conseguir fazer nada com ela na frente dele. Ou ele matava nós dois, ou eu ia ter que atirar nela pra não ser expulso da corporação, pra não me f***r diante do coroa. Ele seguiu por um lado. Eu vi o quanto a tropa disparou violento em cima dela. Me abaixei atrás de um container, atirando contra outros caras que tavam atirando na nossa direção. Quando eu vi, o Barroso já tava lá em cima. Só que a minha garota botou pra f***r. Foi um tiro certeiro. Barroso começou a gritar que nem um porco. Foi quando eu desviei e fui pelo outro lado, fazendo sinal pros homens seguir em frente. Porque com certeza o Zeus tava em algum lugar alto, seguro. Então eles tinham que ir com tudo pra cima, porque com certeza iam vir com tudo pra cima da gente. Mano, na luz do dia, eu tava mais preocupado com ela do que comigo. Eu precisava ver ela. Eu precisava ficar frente a frente com ela. Eu precisava falar pra ela que eu fui obrigado a estar aqui, que eu não tive muito o que fazer, era o meu trabalho. Quando ela pulou, eu já tava lá. Esperando por ela. A cara que ela fez foi difícil de decifrar. Foi uma sensação estranha — alívio com ódio, misturado com raiva e tudo mais. Ela sorriu. E como eu já esperava, ela não perdeu tempo. Soltou todos os cachorros em cima de mim e deixou bem claro que não hesitaria em puxar o gatilho, se caso fosse necessário. Porque do mesmo jeito que eu tava aqui pelo meu coroa, ela tava aqui pelo pai dela, pela comunidade dela. Não tem como tirar a razão dela, né. Quando o Barroso gritou furioso no rádio, ela travou o maxilar. A arma ainda apontada pra minha cara. Ela me mandou correr. E eu corri. Só que corri na direção dela. Senti o bico gelado da Taurus na minha testa. Por um segundo, eu soube que ela poderia puxar o gatilho. Levantei as duas mãos e segurei o braço dela. No impulso, puxei o corpo dela pra perto do meu. As balas comendo solta, torto e a direita, batendo no muro, no beco onde a gente tava. Firmo meu corpo no dela, sentindo o calor, o cheiro, a respiração ofegante. O braço dela começou a tremer. A Taurus tremeu junto. Ela olhou nos meus olhos. Eu olhei nos dela. E então eu beijei ela. Ela hesitou. Por um segundo, os lábios dela ficaram parados, duros. Mas aí ela mordeu meu lábio. Por mais que ela não quisesse, ela correspondeu. As armas ainda nas mãos, os tiros ainda ecoando, o mundo pegando fogo ao redor, e a gente aqui, se beijando igual se não houvesse amanhã. Ela afastou a boca. Colocou as duas mãos no meu peito, empurrando. — Eu não vou falar de novo — a voz dela saiu rouca, falhando. — Não sei nem porque eu tô fazendo isso. — A gente pode conversar depois daqui. — Não quero ouvir sua voz depois daqui. — Você tem que parar de mentir pra você mesma — falei, os olhos fixos nos dela. — Caralhø. — Ela gritou com um tiro de raspão no braço dela. — Püta que pariu. — Falei ela puxou o braço para eu não encostar. — Pørra mano. — Ela gemeu. Puxei ela pra baixo, colocando meu corpo na frente do dela, protegendo com tudo que eu tinha. — Eu não preciso de proteção — ela rosnou, tentando se levantar. — Eu não sei nem porque eu tô fazendo isso — falei, segurando ela. — A única coisa que eu sei é que você não pode pensar que eu tô por trás de tudo isso. Eu não sabia quem era o seu pai. Eu não sabia quem era você. Outro tiro. Raspou de novo. — SOME DAQUI! — ela gritou. O rádio chiou. A voz do Zeus ecoou. — Reforço! Eles tão chegando! Segura a posição! Ela me olhou. Os olhos arregalados. O desespero. — Se eles encostarem a mão no meu pai, eu mato você, seu filho da p**a! Ela me empurrou com força. Saiu correndo pra parte de trás do beco, sumindo na fumaça. Fiquei por um segundo, processando. Depois me posicionei. Saí do beco. Um policial apareceu na minha direção. — Lopes! Onde você tava? — ele meteu a pergunta e eu fiquei na agonia pensando que ele poderia ter visto a Carol. — Perseguindo um alvo. — Respondi rápido. — Achou? — Atirei, mas a pessoa correu. Deve estar por aí ainda. Vamos embora, bora avançar. O Zeus tá por perto. Ele assentiu. Seguimos. Mas minha cabeça tava lá atrás. Com ela. No beijo. No medo nos olhos dela. Na certeza de que, no meio daquela guerra, a gente ainda tava se escolhendo. O caveirão avançou. Os tiros ecoavam de todos os lados. PÓ! PÓ! PÓ! Os traficantes atiravam das lajes, dos becos, das janelas. A polícia revidava com tudo. O som era ensurdecedor. O cheiro de pólvora queimando o nariz. O suor escorrendo pelo rosto. Eu atirava, mas minha mente tava longe. Tava nela. Na imagem dela sumindo no beco. No sangue no braço dela. Na voz dela gritando "se eles encostarem a mão no meu pai, eu mato você". Foi quando eu ouvi. A voz dela. Ecoando no meio do tiroteio. — DERRUBA TODO MUNDO! NINGUÉM SAI! A GENTE JÁ VIVEU ISSO ANTES, p***a! Olhei pra cima. Ela tava numa laje, fuzil na mão, cabelos cacheados voando, a expressão de guerra no rosto. Linda. Perigosa. Minha. O coração disparou. Não de medo. De outra coisa. Foi quando o helicóptero chegou. O barulho das hélices cortou o ar. Os holofotes varrendo as lajes. E de repente, os tiros começaram a vir de cima. Direto na direção onde a voz dela tinha vindo. — NÃO! — gritei, sem pensar. Corri. Atirei pra tudo que era lado, tentando desviar a atenção. Os tiros vinham de uma casa alta. Um policial gritou do meu lado. — O TIRO TÁ VINDO DE ONDE O ZEUS TÁ! Olhei. A casa. O alto. Onde ela tava perto. Onde ele tava. — AGRUPA TODO MUNDO! — gritei, a voz rouca. — VAMOS PRA CIMA! A ORDEM É SAIR COM ELE ARRASTADO! MORTO OU PRESO! ENTÃO VAMOS EMBORA! Os homens avançaram. Eu também. Mas meus olhos não saíam da laje. Da silhueta dela. Do perigo que tava vindo. Fica viva, Carol. Pelo amor de Deus, fica viva. Continua...
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