Capítulo 30 Lopes

1091 Words
Lopes Narrando Ela saiu. Simples assim. Vestiu o vestido vermelho, calçou o salto, tirou a toalha do cabelo e foi embora. Eu fiquei parado no meio do quarto, sentindo o cheiro dela ainda impregnado no ar, na cama, na minha pele. Não entendi. Ela viu alguma coisa naquele telefone. Quando eu voltei do banheiro, ela tava com o celular na mão, a cara mudou na hora. "Assunto de família", ela disse. Mas não era só isso. Eu conheço olhar de mentira. E o dela, naquele momento, tava cheio de coisa que ela não falou. Ela perguntou meu nome. Meu nome completo. Nunca falo meu nome, geral, até os amigos me chamam de Lopes ou cabo. Mas ela sabia meu nome, "Rafael", ela só não sabia como repetiu e ela repetiu como se tivesse provando veneno. Depois saiu. As palavras dela antes de fechar a porta, aquela frase, ela disse: "Até a próxima blitz, Rafael." Mas o jeito que ela falou… não era um até logo. Era um adeus. O telefone vibrou na cama. Chamada de vídeo. Adriana. Suspiro fundo. Atendi, me jogando na cama, o telefone apoiado no peito. Chamada de vídeo On — Desce um pouquinho mais — a voz dela veio, manhosa. — Para com isso, Adriana. — Por favor… olha aqui, o que você tá perdendo, se desligar o telefone na minha cara. A imagem dela na tela… putä que pariu, Adriana é gostosa pra caralhø. Loira, corpo escultural, se tocando devagar, os olhos fixos na câmera. Mas não chegava aos pés da morena bandïda safadä que tinha acabado de sair pela porta. Ajeitei o telefone um pouco. Ela viu meu abdômen. — Não quero ver seu abdômen, Lopes. Tô com saudade de outra coisa. Do seu paü na minha boca. Na minha bøceta. Passei a mão no rosto, cansado. Ela deslizou a mão pelo próprio corpo, apertou os p****s, desceu. Eu olhava, mas a mente… a mente tava longe. Na Carol. Carol saindo pela porta. Carol perguntando meu nome. Carol com a cara fechada, como se tivesse descoberto algo. Quem é ela? O que ela viu naquele telefone? Por que perguntou meu nome daquele jeito, como se fosse a coisa mais importante do mundo? Ela disse que a gente só se viu duas vezes. Duas blitz. Não tinha porque a gente se conhecer direito. Era coisa do momento. Se não fosse comigo, talvez fosse com qualquer outro no Rio. Essa ideia me corrói por dentro. — Lopes? Tá aí? — Adriana chamou. — Tenho que desligar. Preciso voltar pra blitz. — Não acredito. Você me enrolou o dia inteiro e agora não quer trocar ideia comigo? A imagem dela na tela mudou. Ela tava deitada, a mão entre as pernas, os dedos se movendo. A respiração ficou mais pesada. — É você que eu queria, Lopes. É sua mão, seus dedos. Eu queria você. Fechei os olhos por um segundo. Quando abri, a imagem da Adriana se misturou com a da Carol. A Carol debaixo de mim, os olhos semicerrados, a boca entreaberta. — Preciso desligar, Adriana. Chamada de vídeo Off Desliguei na cara dela. Levantei da cama, comecei a me vestir rápido. Calça, camisa, coturno. Peguei o telefone, olhei uma última vez. Nada. Nenhuma mensagem dela. Desci as escadas. A casa inteira cheirava a ela. O sofá, a mesa, o banheiro, o quarto. Ela tava em cada canto. Em cada respiração. Entrei na viatura. Liguei o motor. Antes dele de sair, peguei o telefone de novo. — Carol? — digitei o nome dela abreviado e enviei. Nada. — Tudo bem com você? — perguntei se tava tudo bem. Nada. Bufei, joguei o telefone no banco do carona. Peguei a garrafinha d'água no suporte, tomei um gole, lavei o rosto com o resto. Saí da garagem, arranquei em direção à blitz. A madrugada já tava no fim. O céu começando a clarear, a cidade acordando. O movimento na avenida era fraco, só alguns carros perdidos. Estacionei no mesmo ponto de sempre, desliguei o carro e fiquei ali, olhando pro nada. O cheiro dela ainda tava no meu uniforme. O tempo passou. Não sei quanto. Só sei que quando o sol já tava quase nascendo, o telefone vibrou. Ligação On Atendi sem olhar. — Não custava nada você ter me falado que você era. — a voz dela veio firme, direta. Meu coração disparou. — Do que você está falando, Carol? — Esquece. Não quero que me fale nada agora. Já que você não quis falar antes. Ligação Off Desligou. Não entendi nada. Ela sabe de alguma coisa. E pelo tom de voz, não era coisa boa. Quem era você, Carol? O que você descobriu? E por que, mesmo sem saber de nada, eu já sinto sua falta? Fiquei o telefone mudo na mão, a tela escura refletindo meu rosto cansado. O sol já tava quase nascendo, pintando o céu de laranja e rosa, mas eu não via nada disso. Só via ela. A morena de tranças que invadiu minha vida em duas blitz e sumiu deixando um rastro de perguntas. Passei a mão no rosto, suspirei fundo. Precisava focar. O plantão tava acabando, mas ainda tinha coisa pra fazer. Sai dos meus pensamentos com alguém bateu no vidro da viatura. Levei um susto do caralhø. Mão na arma por instinto, virei o rosto rápido. Adriana. Ela tava do lado de fora, com um sorriso de vitória no rosto e um vestido curto que deixava pouca coisa pra imaginação. Cabelo loiro solto, batom vermelho, salto alto. Linda. Provocante. Típica dela. Abri a porta da viatura, desci. — Que pørra é essa, Adriana? Como você veio parar aqui? Ela deu de ombros, fingindo inocência. — Você não apareceu. Eu cansei de esperar. Aí peguei um Uber e pedi pra me deixar no batalhão. Mas vi sua viatura estacionada e vim. — Tá maluca? Isso é área policial, não é lugar pra você ficar circulando. Ela se aproximou, passou a mão no meu peito. — Estou com saudade, Lopes. Você sumiu, não deu notícia, me enrolou o dia inteiro. Queria pelo menos te ver. Olhei nos olhos dela. Linda. Gostosa. Qualquer homem perderia a cabeça. Mas a minha cabeça tava em outro lugar. Com outra mulher. — Adriana, não dá agora. Estou de serviço. — Sempre dá, Lopes. Sempre deu antes. Ela apertou minha mão, puxando pra trás da viatura, pro beco escuro do lado. Antes que eu pudesse reagir, ela já tava de joelhos, abrindo minha calça. Fechei os olhos. Só veio na cabeça a imagem da Carol. Continua...
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