Carol Narrando
Foram poucas palavras, mas foi a conversa mais difícil e mais estranha da minha vida.
Eu sempre fui uma pessoa de boa pra conversar com qualquer um. Desde pequena, com a minha mãe e com meu pai, eu sempre fui verdadeira. Lembro quando eu era criança e eles me ensinavam que eu tinha que pensar e conversar como criança, não como adulta. Porque sempre que eles iam conversar sobre o movimento, sobre o comando, eu aparecia com minha opinião e meu ponto de vista. Eles me ensinavam que criança tem que ser criança e adulto tem que ser adulto, mas nunca deixaram de me ouvir. Sempre ficavam querendo saber como uma pessoinha tão pequenininha tinha pensamentos e atitudes de um adulto sensato.
Não é novidade pra minha mãe e pro meu pai que eu sempre gostei de aventura. Mas nunca saí por aí dando a torto e a direito. Perdi minha virgindade aos 22 anos. Não foi por eles me criarem dentro de uma cúpula de vidro, mas porque sendo filha de quem eu sou, protegida e paparicada do jeito que sempre fui, era difícil até de me relacionar.
Quando perdi, foi com um homem que eu admirava. Ele é dono de um dos morros aliados do meu pai. Não era nada demais, foi só por prazer. Foi uma noite perfeita, ele me tratou como rainha, me lambeu dos pés à cabeça, mas a gente sabia que não era romance, não era amor. Era só uma transa.
Depois disso, me relacionei com alguns homens, mas nunca saí por aí dando igual chuchu em rama. E o Lopes foi a única pessoa com quem eu transei por duas vezes. Sabe aquela aventura que você acha perigosa, gosta e quer repetir? Foi exatamente isso. Ainda mais sabendo que eu tava entre a lei e o crime. Isso deixava tudo ainda mais gostoso, mais excitante.
Eu entendi a raiva do meu pai quando ele me mandou sair da sala daquele jeito. Ele sempre foi centrado, nunca misturou as coisas: família é família, movimento é movimento. E ali tava eu, a filha dele, envolvida com o filho do pior inimigo dele. Era família e movimento no mesmo caos.
Subi o morro em alta velocidade, entrei em casa batendo as portas. m*l tinha me jogado na cama quando o telefone vibrou. Era ele. Meio incrédula, quando ele disse que queria me ver, respirei fundo e pensei: vou ver até onde ele vai.
Perguntei onde ele tava. Ele disse que tava perto do local da blitz. Mandei esperar, que eu tava indo.
Joguei água no corpo, coloquei uma calça jeans e uma regata preta. Ajeitei o cabelo, peguei dois pentes carregados de reserva e coloquei na pochete. Travei ela na lateral do corpo, coloquei minha pequena Taurus dentro. Passei desodorante, perfume. Me olhei no espelho. Desci. Peguei a chave da moto e pisei fundo pra fora do morro.
Avistei o carro dele de longe. Um ponto escuro na rua deserta. Fiz um pisca-alerta e entrei numa rua isolada, dessas que não leva a lugar nenhum. Olhei pelo retrovisor. Ele vinha atrás de mim, devagar, acompanhando.
Estacionei. Desci da moto e fiquei esperando, a mão na cintura, perto da arma. Ele desceu do carro e veio na minha direção. Todo gostoso. Todo grande. Aquele corpo que eu conheci tão bem.
Fechei os olhos por um segundo. A imagem veio na hora: ele suado, o corpo enorme em cima do meu, entrando fundo, me preenchendo inteira. Senti um arrepio subir pela espinha.
Respirei fundo. Olhei pra ele.
Ele pôs a mão no meu ombro. Me afastei.
— Quem é você? — a voz saiu firme, apesar do coração acelerado. — Quem é Rafael Lopes?
Ele me olhou, confuso.
— Sou um cabo da Polícia Militar. Tô nessa há dez anos. Tô no Rio há seis meses. Encontrei a mulher mais bonita do mundo por duas vezes… ou tá sendo a terceira. Quero dizer, não entendi por que você saiu toda bolada da minha casa mais cedo. Não entendi por que você falou comigo no telefone daquele jeito. — Ele falou como se tivesse passando um relatório.
— Quem é você, Carol? — Ele perguntou dando um passo à frente.
Dei uma gargalhada. Bati palma.
— Até parece que você não sabe quem eu sou. — Falei debochada e a le franziu a testa.
— Até onde eu sei, você é uma moradora do Dendê. Não é isso? Já procurei… — ele começou e parou no meio da frase. Eu endureci.
— Já procurou o quê? Por acaso tava fuçando a minha vida? Por acaso tava querendo saber quem eu era? Ou isso é um jeito de se aproximar de mim porque você já sabia? — meti a pergunta entendendo o que ele tava fuçando a minha vida.
— Do que você tá falando? Procurar por você, eu procurei. Mas não sabia quem era a morena bonita, a gostosa do Dendê, que sentou gostoso em mim na primeira blitz e que não podia ser diferente. A noite de ontem foi surreal. Nunca vivi isso com ninguém. — Ele falou levantando as mãos.
Ri de novo, amarga.
— E quem é Adriana? A loira? — perguntei lembrando da loira.
Ele apertou os olhos.
— Pelo jeito você andou fuçando sobre a minha vida também, né? Já que sabe da Adriana. — Ele falou vindo pra mais perto.
— O papo não é esse — cortei. — Eu quero saber o que você quer. Por que na blitz do Dendê? Por que transou comigo naquele dia? Por que ontem, em vez de se afastar, você se jogou de cabeça, de boca, com paü, se jogou com tudo? O que você queria de mim na verdade? O que você quer do meu pai? — descarreguei várias interrogações.
Dessa vez foi ele quem riu. Uma gargalhada alta, desacreditada.
— O que eu quero com seu pai? Quem é o seu pai? A única coisa que eu quero é com você, p***a. Eu gosto é de bøceta, caralhø! — Ele falou dando uma subida na voz, ficou totalmente alterada do que eu já tinha ouvido antes.
— Até parece que você não sabe que meu pai é o Grande Zeus. — Soltei no ódio, ele parou.
Congelou.
A gargalhada morreu no ar. Ele levou a mão ao rosto, balançou a cabeça, passou a mão no cabelo. Afastou-se um passo. Depois outro.
— Para de graça — falei, a voz tremendo de raiva. — Para de drama. Meter na sua cama era um jogo, né? Pra enfraquecer o meu pai. Filho da p**a.
Ele me olhou. Os olhos escuros arregalados.
— Caralhø, Carol… eu não sabia.
— Não sabia o quê? Que eu sou filha do Zeus? Que o Dendê é do meu pai? Que você tava transando com a herdeira do inimigo?
— EU NÃO SABIA! — ele gritou, a voz ecoando na rua vazia. — Eu juro por tudo que é mais sagrado, eu não sabia!
Ficamos os dois se encarando. O silêncio pesado. O vento frio.
— Como é que você não ia saber? — perguntei, a voz falhando.
— Sei lá, pensei que você fosse só mais uma moradora. Gente comum. Não pensei que…
— Não pensou que eu fosse a filha do traficante mais procurado do Rio? É isso?
Ele balançou a cabeça, negandø.
— Não, eu não pensei que eu fosse me apaixonar por você.
O mundo parou.
Continua...