Carol Narrando
Caralhø, não acredito que eu caí na pørra de uma furada dessa!
Acelerei sentindo o sangue borbulhar dentro das veias, o vento batendo na cara, o ronco da moto rasgando asfalto em direção ao Dendê. O ódio consumindo meu corpo inteiro, queimando igual pólvora.
— Você é muito burra, Carol. Você é muito burra — sussurrei pra mim mesma enquanto acelerava, as sirenes ficando pra trás, sumindo no horizonte.
Fechei os olhos por um segundo, tentando raciocinar. Tentando entender por que caralhos eu fui até o asfalto encontrar com ele. Sabendo o sangue que corre na veia dele. Sabendo que pro pai dele, pra ele, pros irmãos dele, favelado é pior que lixo.
— Eu não pensei que eu fosse me apaixonar por você.
A fala dele ecoou na minha mente. Repeti em voz alta, cuspindo cada palavra como veneno:
— Apaixonado um caralhø! Quem é que ele acha que vai enganar com esse papinho furado?
A imagem dele veio na mente. O olhar dele quando falou aquilo. Será que era verdade? Não, não podia ser. Era golpe. Tinha que ser golpe.
Minha avó de sapa penetrou meus ouvidos, fazendo meu ódio aumentar ainda mais. Respirei fundo, olhei pra trás. Já não via mais nada. Só asfalto e sol.
Passei pela barreira do Dendê voando baixo. O Neguinho, o Babau e mais três cria que tavam na contenção me viram passar chutada e derraparam na hora, virando as motos e vindo atrás de mim. Manobrei a moto, parei no meio da rua, coloquei os dois pés no chão. O coração batia na nuca de tão acelerado.
Eles pararam os cinco na minha frente, formando um paredão de motos.
— Qualé, patroa? — Neguinho falou, abrindo os braços, desligando a moto e vindo na minha direção. A cara dele era de preocupação genuína.
— Qualé o que, Neguinho? Tô bem, tá tudo bem — respondi, seca. — Pelo jeito vocês ouviram os barulhos da sirene. Não foi comigo, mas voltei antes que sobrasse não só pra mim, como pro morro também.
Passei o papo reto. Babau deu um murro no tanque da moto, desceu, e dispensou os três cria sem falar nada. Só fez um sinal com a mão. Eles entenderam na hora.
— Qualquer coisa é só chamar, chefe — um dos cria falou, manobrando a moto, fazendo sinal com a cabeça. Os outros foram atrás, sumindo na curva.
— Qual foi o BO da vez? — perguntei, porque pela cara que eles fizeram, tinha coisa acontecendo.
— Caralhø, Carol, tu não pode sair assim não, pørra! — Neguinho soltou a voz, os olhos arregalados. — A gente fica sem saber de nada, sem saber se tu voltou, sem saber se precisa ir buscar teu corpo no IML.
— Tô vendo que eu dei liberdade demais pra vocês — dei o papo, encarando ele de volta.
Ele não recuou.
— Tu sabe que a gente se preocupa. E tu sabe que se acontecer algum BO com tu, o Zeus estoura o nosso r**o. A gente não dorme, não come, não vive enquanto tu não passar na barreira de novo. — Neguinho soltou o verbo e eu entendi.
Com certeza o coroa ficou sabendo que eu meti o pé logo depois que saí da boca. E pra não me dedurar, com certeza eles escutaram calados. Passei a mão no rosto, olhando pros dois. Os únicos cria que sempre estiveram na minha cola, mas também na minha proteção.
— Na real, eu não sei nem o que seria de mim se não fosse vocês dois. Papo reto, vocês são firmeza. E vocês sempre me cobrem quando eu preciso. Mas a partir de hoje, pode ficar de boa. Se tiver que me entregar, pode me entregar. Não precisa ouvir seu irmão e muito menos ser bombardeado por causa dos meus BO. — Dei o papo e liguei a moto. Os dois se entreolharam, uma troca de olhar rápida, como se tivessem combinado algo.
— Tu sabe que nós fecha com tu, p***a — Babau falou, a voz grossa. — E nenhum de nós aqui vai te caguetar. Mas tu sabe das ameaças, então pô, se cuida, caralhø.
Passei a visão, só fiz sinal com a cabeça. Juntei as duas mãos, fiz coraçãozinho, joguei um beijo no ar pra eles. Os dois balançaram a cabeça simultaneamente, um sorriso cansado no rosto.
Manobrei a moto e subi direto pro meu barraco.
O vento no rosto não levou a raiva. Não levou a confusão. Não levou nada.
Só deixou mais claro: eu tava fødida. E não sabia se ia ter volta.
Entrei em casa batendo a porta atrás de mim. O silêncio do barraco era pesado, mas durou pouco. O telefone vibrou no bolso. Mensagem no grupo. Antes mesmo de eu responder, ouvi barulho na porta.
Abri e dei de cara com as três.
Júlia, Tânia e Raíssa.
Raíssa com aquela cara de preocupada, de advogada de defesa, analisando todos os meus movimentos. Tânia e Júlia com aquelas caras de quem sabe exatamente o que eu tô passando. Porque elas também são herdeiras. Elas também são filhas de traficante. Elas sabem o peso que é carregar esse sobrenome.
— Já que vocês estão aqui, podem soltar o sermão — falei, jogando a bolsa no sofá. — Tô pronta.
Raíssa balançou a cabeça.
— Não é sermão, é preocupação.
Dei uma gargalhada. Amarga. Seca.
Tânia se aproximou, me olhando daquele jeito dela, direto.
— Amiga, tu tá gostando dele?
Gargalhada de novo. Dessa vez mais alta.
— Tânia, pelo amor de Deus. Como é que eu vou tá gostando de um cara que eu só vi duas vezes na vida? Duas vezes, amiga. Isso não é tempo pra sentimento, é tempo pra t***o.
Júlia arqueou a sobrancelha, um sorriso irônico no canto da boca.
— Então descarregar um pente na cara dele seria fácil, né?
O sorriso morreu na minha cara.
Tirei a bolsinha, joguei de lado. Sentei no sofá, as duas mãos no rosto por um segundo. Quando levantei a cabeça, encarei as três.
— Vocês sabem que puxar o gatilho e descarregar pra mim não é nada. Ainda mais alguém que fez de tudo pra ultrapassar uma barreira que eu achava impenetrável.
Tânia se sentou do meu lado.
— Você tava com ele, não tava?
— Ele me ligou. Disse que queria um encontro. E eu fui. Dei a chance dele falar que sabia quem eu era. Dei a chance dele dizer que tava nessa por causa do pai dele. Mas não. Continuou o mesmo papinho mole. Disse que não sabia, que me procurou e não achou nada, que tava confuso.
Fiz uma pausa. A respiração pesada.
— E sabe o que é pior? Por um milésimo de segundo, eu esqueci. Esqueci que eu sou a herdeira do Dendê. Esqueci que ele é filho do desgraçado do juiz Mendonça. Esqueci tudo. Só existia eu e ele e o que a gente sentiu naquelas duas noites.
Raíssa franziu a testa.
— E aí? O que aconteceu?
— Aí a ficha caiu. A sirene chegou.
— Sirene? — Tânia se inclinou pra frente. — Que sirene?
— Viaturas. Muitas. Chegando no lugar onde a gente tava. Ele disse que não foi ele. E por um segundo, o olhar dele… o olhar dele me disse que realmente não foi ele. Porque ele ficou assustado. Confuso. Igual eu.
Passei a mão no rosto de novo.
— Mas sei lá. A única coisa que eu consigo sentir é que eu fui usada. Que aquilo tudo foi combinado. Que ele chamou os amigos pra me pegar desprevenida. Que eu fui uma idiøta de ter ido.
As três ficaram em silêncio. O peso das minhas palavras encheu a sala.
Júlia foi a primeira a falar.
— E você acredita mesmo nisso? Que ele armou tudo?
Olhei pra ela. Pros olhos que me conheciam tão bem.
— Não sei mais no que acreditar, Júlia. Só sei que estou cansada. E que da próxima vez que ver ele, vai ser pela mira da minha Taurus.
Continua...