corra

2457 Words
A U G U S T O aperto a mão do prefeito de ribeirão, que por acaso é pai do meu namorado, e que por pura coincidência não sabe de nada disso. dou um sorriso claramente falso. pelo menos a primeira dama ainda não apareceu. acho que preciso de um cigarro. — você por acaso tá com um cigarro aí? — pergunto ao guilherme, que está deslumbrado com a mansão de gabriel. — por acaso você já contou pro filho do prefeito que você fuma? — ele sorri, dando duas batidinhas em seu bolso da calça. eles estão lá. — dá pra parar de chamar ele assim? — reviro os olhos. apesar de estar demonstrando "raiva", permaneço ao lado de gui durante quase todo o início da festa. gabriel está ocupado demais recebendo todos os convidados, então, zero atenção. eu não estou nervoso. não mesmo. tirando o fato de que todo mundo aqui é muito muito muito rico e branco, tá tudo bem, eu acho. — laura, augusto. augusto, laura — gabriel nos apresenta sua melhor amiga da escola, a única pessoa por aqui que não parece extremamente rica, mas que provavelmente é, sim — e esse é o guilherme, amigo do augusto. — quase irmão — gui cumprimenta laura depois de mim — ele tá na minha casa e eu tenho certeza de que o meu pai já gosta mais dele do que de mim — diz, e todos nós rimos. gabriel fica por alguns minutos e depois volta para sua tarefa de anfitrião. fazer aniversário é um porre, ainda mais quando se tem a família muito grande. às vezes eu até queria ter uma, só pra poder reclamar como todo mundo. mas a realidade é que minha mãe e eu já não nos falamos há quase um mês. e ela sumiu de tudo, até do f*******:. provavelmente para eu não ter nenhum sina de como ela está. acho que mães nem sabem da função "bloquear perfil". — tentou ligar pra ela hoje? — gui pergunta como se estivesse lendo meus pensamentos. — eu estava pensando nela agora mesmo — falo, olhando para as minhas unhas. — você sempre olha pras suas unhas quando está pensando nela — ele sorri. — é? — é — gui pega na minha mão, simulando pintá-las — sabe a sua primeira noite lá em casa? foi a primeira coisa que você fez depois do jantar. você catou um dos meus esmaltes e pintou as unhas. você sempre quis fazer isso, mas nunca fez... por causa dela. — e agora por causa dele — digo, e guilherme segue o meu olhar até gabriel. — isso é questão de tempo. é só por hoje. você sabe, tipo, acho que 99% desses merdas são da igreja. — e 101% votaram no bolsonaro — digo, e ele ri. — não me inclua nisso — ele balança a cabeça — 99,9% votaram. a festa segue. há garçons mais bonitos que muitos modelos por aí, pessoas com roupas caras demais para uma festa em casa (ok, é uma mansão praticamente transformada em um salão de festas, mas não um casamento), música r**m (tipo, é uma festa adolescente com uma playlist gospel) e muita comida boa, admito, mas ainda sinto falta do bom e velho salgadinho frito, ou, sei lá, cachorro-quente. festa de pobre é simplesmente tudo no quesito comida. — ok, retiro que eu disse — falo após da janta ser servida — esse filézinho tá... — do c*****o — gui completa — mas você não precisa retirar totalmente. — será que aqui vai ter brigadeiro e beijinho vindo junto com o bolo num pratinho de plástico? — falo, e nós rimos. no meio da nossa janta chic, samuel, um amigo de gabriel, chega. ele também é do colégio nobre. falando nisso, não faço ideia de onde esteja laura. — finalmente! — ele sorri para mim, e então estende a mão — é ótimo ver um rosto gay nessa festa — samuel diz, e gabriel engole em seco. ele falou alto demais? — e um rosto preto também — dessa vez ele fala um pouco mais baixo, e depois pisca. — eu vou deixar você com o guilherme — gabriel diz para o amigo apontando para o meu. samuel assente — você pode vir aqui comigo só um segundo? —  ele olha para mim. depois de algumas voltas pela casa a fim de despistarmos olhares curiosos, subimos a escada até o seu quarto. não há ninguém aqui no segundo andar. gabriel pega na minha mão e depois me abraça. — desculpa por não te dar atenção — ele acaricia minha bochecha — eu quero alguns minutos com você. ali — ele aponta para o quarto dele com a cabeça. nós entramos.  e ele não espera nem um segundo para me beijar. com cinco minutos estamos sem camisa. com sete nós já estamos descontrolados, e com dez ele me faz parar. com onze, uma mulher abre a porta. G A B R I E L — Oi, Kátia — falo, porque é realmente a única coisa que me vem na cabeça. — Sua mãe terminou de se arrumar quase agora. Está procurando por você lá embaixo — ela diz, séria. Augusto faz uma cara de confuso. — Ah, tudo bem — respondo, nervoso. Minha irmã está em seu colo, sorrindo. De repente, ela já ameça se virar em direção à escada — Ei, Kátia, não preciso dizer para você não comentar nada sobre... — Não vou. Eu já sabia, relaxa — ela dá um meio sorriso — Aliás, boa sorte com seus pais quando eu sair daqui — ela meio que põe uma das mãos sobre a barriga — A próxima pode não acobertar você tão bem. Ou você acha que eu não sei que ele já veio aqui antes? — e agora um sorriso completo, olhando para Augusto. — Oi! — minha irmã diz, batendo uma palma. E foi isso?! Mais uma para a lista de momentos bizarros da minha vida. Nós descemos e eu deixo Augusto com Samuel e Guilherme. Laura me encontra perto da cozinha, me abraça e diz que acabou de pegar um garoto, mais exatamente um dos meus primos. É a noite do inusitado. — Mas deixa eu te falar uma coisa — estava tudo bom demais para ser verdade — Eu fiquei conversando um tempinho com seu primo e as irmãs dele enquanto jantávamos, e elas fizeram uns comentários meio babacas. — Não estou nem um pouco surpreso, juro pra você. — Foi sobre o Augusto. E o Guilherme. Elas insinuaram que eles são gays porque viram eles se "acariciando" — ela faz as aspas com as mãos com uma cara de revoltada — Enfim, não sei o que ela viu, mas, né? Fala pra eles tomarem cuidado. Ótimo. Caminho em direção ao salão para falar com os meninos, mas encontro com minha mãe pela primeira vez na minha própria festa de aniversário, e ela diz que precisamos cantar o parabéns logo. Olho para Samuel e Augusto de longe, e eles sorriem. Aparentemente, estão se dando bem. Só que noite já está louca o suficiente para eu pensar em ter ciúme. — O Samuel é confiável mesmo? — Laura aparece do meu lado novamente, como um fantasma. — Meu Deus — coloco a mão no coração — Claro que é. Vamos, preciso anunciar o parabéns — eu a puxo pelo braço, e ela vem comigo obrigada. Há uma mesa arrumada bem próxima da entrada da nossa casa. Não tem um tema específico porque a minha mãe acha isso coisa de pobre e cafona — como se ela nunca tivesse sido pobre e, bem, eu acho os gostos dela pra moda meio nada demais. Tudo na mesa é composto de vidro, e tem uns doces ruins e um bolo falso gigante. Meu pai interrompe a ótima música do DJ da igreja dele e pega o microfone, pedindo para que todos se acheguem. Mas antes do parabéns ele resolve pagar mico e fazer um discurso. Ótimo. Era tudo que eu precisava: passar vergonha na frente dos meus amigos e do meu namorado. — Antes de começarmos o fatídico parabéns, gostaria de ler o texto que fiz para essa noite. Uma mensagem que escrevi para você, filho — ele diz, apontando para mim, e de repente todos estão aplaudindo e eu estou querendo morrer/desaparecer — Não é muito longo, não se preocupem — ele ri, pegando um pequeno papel do bolso da frente de sua camisa social — Bem, vamos lá. Quando você estava prestes a nascer — ele começa — sua mãe e eu ficamos por horas tentando decidir que nome você teria. Deixamos para cima da hora, admito. Nós já tínhamos algumas opções, mas sua mãe não gostava da maioria. Acho que eu sempre tive um gosto exótico pra nome, na verdade, porque as minhas sugestões haviam sido Gade e Abraão — ele ri, assim como quase todos — Sua mãe sempre foi melhor nisso, claro. Mas quando pensamos em Gabriel, nós concordamos na hora. Mesmo sendo muito ordinário, o significado nos pareceu perfeito para o que sonhamos para você, para sua vida, para sua trajetória. Gabriel significa homem de Deus, ou homem forte de Deus, ou mensageiro de Deus. Enfim — ele faz uma pausa, e então olha para mim — Nunca fui muito bom escrevendo discursos, quando se é político tem alguém para fazer isso por você — e todo mundo ri meio forçado. Pai?! — Isso que eu desejo para você, meu filho — ele volta a ler — Que você seja tudo que um dia eu sonhei. Você já é quase homem na idade, mas aqui — ele põe o dedo indicador na testa — Tenho certeza de que já sabe muito bem o que quer para sua vida. Jesus. Parabéns, filho. Eu amo você. Todos batem palmas, inclusive eu, e a primeira coisa que faço é olhar para Augusto, que só começa a bater palmas quando encontra o meu olhar. Meu Deus, ele deve estar odiando tudo isso. Eu olho para Laura, bem próxima a mim, e me dá vontade de sair correndo. Dá vontade de literalmente sair correndo daqui. Meu Deus do céu. Depois começa a sessão de fotos. Pais e minha irmã, primos, tios, minha avó etc. Todo mundo. É tanta gente que acho que perco uns trinta minutos. Quando acaba, peço para que o fotógrafo espere; aviso a minha mãe que quero uma com meus amigos, e ela só diz tá bom e some. Laura é a primeira. Depois os meninos vêm, e eu fico em dúvida se tiro somente com Augusto sozinho ou não, mas acabo pedindo para que os três venham para trás da mesa. Nós sorrimos, a foto sai, mas algo não parece certo. — Quero uma só com você — digo, segurando no braço dele. Ele me olha meio inseguro, depois olha para todos os lados e levanta a sobrancelha. A foto sai. Nós conversamos entre uns dos cinco clicks, e ele me diz já vai embora com Gui. Pergunto sobre Sam, que supostamente ficaria sozinho, mas Samuel também já está partindo. Eu me despeço de todos eles do lado de fora, com certa privacidade para abraçá-los. Quando volto para o salão, Kátia e minha irmã estão bem próximas da mesa. A menina está curiosa, querendo pegar tudo o que vê pela frente, mas Kátia a controla. Eu as interrompo, e, depois de pegar a minha irmã e enchê-la de uns bons beijos, vou à procura do fotógrafo contratado para uma última foto atrás da mesa. — Comigo? — Kátia aponta para si mesma quando faço o convite. A U G U S T O — fala pra mim — gui cutuca o meu ombro. — o quê? — sua cara tá péssima. cara, a empregada não disse que não vai falar nada? — não, eu sei. é só que... aquelas coisas que o pai dele falou. — aquele discurso h******l? você deveria apagar isso da sua mente — samuel diz. — foi como ouvir a minha mãe falando. aquela coisa de... sonhar com o que o filho vai ser. isso sempre foi uma questão pra mim. eu tinha medo de decepcioná-la. — isso é normal — gui agora aperta o meu ombro — e você sabe que eles estão errados. — já faz quase um mês e ela simplesmente continua fingindo que eu não existo. — você devia ir lá — samuel sugere — é sua casa, não é? ela não vai te impedir de entrar. vocês só precisam conversar. — então, ela não tá em casa. eu simplesmente não sei aonde ela se meteu. só disse pro pai do meu vizinho que ela iria para casa de uma prima e ficar lá alguns meses. ela até deixou um dinheiro pra mim. com ele.  — nós achamos que ela foi demitida — gui comenta para samuel — aí pegou o dinheiro da rescisão e se mandou. a mãe dele tinha anos de casa. — tipo uns dez anos — digo — não que ela ganhasse muito, mas, ainda assim... bom, é uma possibilidade. o pai do meu vizinho acha que pode ser isso mesmo, mas... não sei. eu ainda acho que ele sabe de tudo mas ela pediu pra não falar nada.  — então por que você ainda tá na casa do gui? tipo, tem uma casa vazia esperando por você. — na verdade, não — digo, e samuel tomba a cabeça — ela pediu para o vizinho que eu ficasse na casa dele. disse que não seria por muito tempo. é que esse vizinho é muito próximo da gente, sabe? o filho dele é como se fosse um irmão pra mim. — a sua mãe é pior do que eu imaginava — samuel engole em seco. o uber do samuel chega, e guilherme e eu caminhamos até o carro dele, estacionado a algumas quadras da mansão. gui coloca o rádio pra tocar e nós partimos. finalmente consigo fumar. desço os vidros da janela até o final e deixo o vento bagunçar o meu cabelo e tocar a cada pedaço da minha pele. enquanto seguro o cigarro com a mão esquerda,  meu braço direito fica para fora do carro; gui me chama atenção, mas eu o mantenho lá fora, balançando-o no ritmo de a world alone, da lorde, e ao mesmo tempo que ele briga comigo eu olho para a minha mão, flutuando vagarosamente no ar. essa foi a última vez que deixei de pintar as minhas unhas por alguém. essa foi a última vez em que deixei de vestir uma roupa "gay" por alguém. daqui pra frente não quero ser ninguém além de mim mesmo. 
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