Y A N
Hoje, ironicamente, faço aniversário de namoro.
Lari preparou uma programação especial pra gente, mas eu a convenci a descartar o shopping da nossa lista de lugares para passar o dia. Sei que Augusto vai estar lá com Gabriel e não quero ter que vê-los juntos. Acho que é demais pra mim.
O primeiro lugar do dia é o Parque em que sempre matamos aula. Foi lá que eu a pedi em namoro, então é bem especial pra gente. Levo o violão e cantamos algumas músicas juntos. É divertido, apesar de tudo. Larissa é uma grande amiga.
Mas isso não significa que eu queira continuar. Não sei. Acho que estou tratando tudo isso como uma despedida. Como se eu devesse a ela um último dia bom. Acho que devo. Ninguém merece ser enganado assim, ainda mais alguém como ela.
No meio da tarde, vamos para a casa dela, que está vazia. Nós conversamos um pouco sobre Augusto, claro, ela também está preocupada com ele. Acabo contando a ela sobre minha conversa com a mãe dele, quando fui pegar roupas e alguns objetos pessoais dele.
"Não sei como você pode apoiar essa pouca vergonha" ela disse enquanto me observava retirar algumas camisetas do guarda-roupa "Você é um menino tão certinho, Yan. Um menino de Deus. Não é como ele. Eu queria ter um filho como você."
"Acho que você deveria se orgulhar de Augusto, tia" falei "Foi o filho que Deus te deu" sorrio, de costas para ela.
"Eu sei" ela pigarreou "Deus nunca dá um fardo que não conseguimos carregar. Mas esse parece pesado demais" eu me virei para ela. Estava sorrindo com lágrimas nos olhos "Toda noite eu me pergunto o que fiz para merecer isso. Primeiro um homem que me abandonou, e agora isso? Não sei. Realmente não sei" ela assente para si mesma, nitidamente triste.
"Ele é um pouco complicado, mas é uma boa pessoa. De verdade" eu a abracei.
"Falar é fácil" ela me deu um tapinha no braço quando saí do abraço "Mas ser mãe de um filho gay é difícil. Espero que não passe por isso com seu filho. Você não tem noção da dor, meu filho."
Eu tentei ser o mais empático o possível, mas, depois daquilo, desisti. Só me calei, peguei o resto das coisas e parti para escola. Lari me deu razão. Ela sabe que tudo isso é muito errado. O modo como ela fala sobre tudo isso me faz querer contar para ela. É como se eu sentisse que ela pudesse me entender. Tudo que eu quero é que ela não me odeie.
"Preparei uma surpresa pra você" ela disse depois de passar um tempo sozinha no quarto, fazendo-me esperar por ela "Vem, você vai gostar".
Ela me levou até seu quarto. Havia uma coberta branca novíssima na cama, e, por cima dela, diversas flores. Rosas. E música. Música saindo da TV. Uma bem cafona.
"Nossa" digo, sem graça. Isso tudo é para eu não conseguir escapar de f********o?
Ela me beija e me leva até a cama. Nós deitamos, e, aos poucos, ela tira minha roupa. De olhos fechados, a única coisa que passa pela minha cabeça é Augusto. Nós dois juntos, naquela noite, rindo e bebendo. A música que fiz para ele. Tudo. Simplesmente... tudo.
"A gente não pode fazer isso" eu a afasto subitamente "Desculpa. Você sabe."
"Cara, pelo amor de Deus" ela fecha os olhos "Eu não aguento mais. Não sei como pode ser tão fácil pra você."
Ficamos em silêncio. Lari fica me observando, e sua expressão vai mudando aos poucos. Como se estivesse finalmente vendo algo que nunca havia visto. Algo muito r**m.
"Você tem alguma coisa pra me contar?" ela se levanta, catando suas roupas no chão, vestindo-as.
"Lari, você sabe que precisamos esperar..." digo, estupidamente. Eu me odeio.
"Esperar, claro. Porque s**o o**l não é pecado. Nem se for nos fundos da igreja, não é?" ela ri.
"Não é certo, mas não é mesma coisa que"
"Que o quê?" Lari aumenta o tom de voz "f***r? Isso? Nem isso você consegue dizer, né?"
"Eu não quero brigar no nosso aniversário de namoro" digo, e ela para diante de mim, na beira da cama.
"Vai se f***r" ela finalmente grita.
"Eu sou gay, Lari" o meu tom de voz acompanha o dela. Quando as palavras finalmente saem, eu não acredito.
Ela para. Acho que cada um de nós já viu ou verá a fração de segundos em que a expressão facial de uma pessoa muda drasticamente ao ouvir essa notícia. Eu sou gay. Três palavras. Somente três. Eles não sabem o poder que existe em dizer isso. Eles não sabem mesmo.
"Eu..." Lari começa, e depois gagueja mil vezes "Cara."
"Desculpe. Me desculpe mesmo" começo a chorar "Eu juro que não queria ter feito isso. Tenho vergonha de mim. Mesmo. Eu me odeio. Eu me odeio muito. E eu não aguentava mais fazer isso com você" começo a me levantar, e ela dá um passo para trás, ainda em silêncio "Não quero te perder. Como amiga. Eu amo muito você. De verdade. E eu sou grato por cada momento, por cada..."
"Chega" ela me interrompe, respirando fundo "Eu imagino que tenha sido difícil. Ninguém além de você e Augusto sabe de mim. Sei como é isso."
"Imaginei que conseguiria..."
"Acho que todo gay tem uma garota-vítima de descobrimento" ela sorri, o que me alivia "E eu fui só mais uma delas."
"Não fala assim" eu me aproximo, e ela não se afasta "Eu realmente me sinto m*l por isso."
"Que m***a. Eu realmente gosto de você. Na verdade, olha, eu nem sei como não percebi antes. Acho que já passou pela minha cabeça algumas vezes, mas... agora, olhando para você na cama... Não sei. Você pareceu tão... vulnerável. Delicado" ela olha para mim, engolindo em seco "Como você conseguiu? Todo esse tempo? E ainda com Augusto. Cara."
"Me desculpa" eu a interrompo "Me desculpa por tudo isso. Por"
"Por fingir uma coisa tão h******l como ser hétero?" ela abre os braços, sorrindo.
"Exato" tento rir, mas não consigo. Tudo ainda é muito inacreditável.
"Acho que alguns erros nunca podem ser perdoados" ela diz, e nós rimos "Esse é um deles."
Eu a abraço. Ela não devolve tão firmemente, mas aproveito o momento. É como se um peso tivesse saído das minhas costas.
"Não quero perder sua amizade, por favor" eu começo a me vestir quando percebo o porquê dela não ter me retribuído.
"Olha, não dá. Vai ser muito estranho a gente sair por aí, como amigos, depois de terminarmos. Todo mundo vai saber."
"É uma m***a basear a sua vida no que os outros vão pensar" falo.
"É" ela assente "Mas essa é a nossa vida. Pelo menos por enquanto."
Devidamente vestido, eu a abraço novamente. Ainda sinto uma aura triste em seu rosto, mas eu a deixo sozinha. É o que ela precisa agora, e eu também.
Por um lado, estou triste. Perder algo que se ama, mesmo que não seja para sempre, é difícil. Mas a outra metade de mim quer gritar de felicidade. Quer sorrir até não aguentar mais. Ela deseja gritar para o mundo que a verdade não se altera. É imutável.
Somos o que somos, e nada e nem ninguém pode mudar isso.