reino de deus (parte dois)

1772 Words
S A M U E L Eu meio que terminei com Bruno. Não, não foi bem assim. Depois de conversar muito com Clara, chegamos a conclusão de que o primo dela não bate bem da cabeça. Ou é só romântico demais para o século XXI. - Sei que parece muito cedo, mas é o que eu sinto. Eu faço exatamente o que sinto - ele disse. - Eu não quero parar de ficar com você. A gente só precisa se conhecer melhor antes. Só isso. - E você pretende ficar com outros garotos enquanto isso? - A questão não é essa - respondi - As coisas não funcionam assim, sabe? - Se você tivesse tanta certeza do que está dizendo teria dito não no cinema - ele disse, e eu meio que não tive resposta, mas ignorei. Enfim, estamos brigados. Clara está fazendo o papel de consoladora, o que é bom, já que o professor de química não é tão gato quanto o de matemática, ou seja, zero vantagens de estar nessa aula. No meio da aula, recebo uma solicitação de mensagem no i********:; Lucas. Hesito em abrir logo de cara, mas não resisto. @lcslv: Estou hoje na escola, mas espero não esbarrar com você. Vou conversar com seu amigo em particular pedir desculpas E isso é só entre eu e ele. Por favor. Não gostei do tom de ameaça, confesso. Mando uma mensagem para Gabriel perguntando se a história procede, e ele confirma. Digo que quero saber onde vai ser esse encontro, apenas por segurança. Nunca se sabe. Ele diz que o garoto marcou fora da escola. Típico. Ele não quer ser visto com nenhum gay na escola. - Eu vou. Preciso ficar observando de longe, pelo menos. Não dá pra confiar nesse garoto - digo a Clara, que balança a cabeça em negativo. - E eu vou com você. Só para garantir que você não faça nenhuma besteira. - Relaxa - sorrio - Se depender de mim, tudo sempre termina em paz. Sabe disso. - Diz isso pro Bruno. O menino deve estar chorando horrores agora - ela ri, e eu reviro os olhos. Na hora do intervalo, cria-se um alvoroço no corredor principal da escola. O quadro de avisos principal - o único digital - está em uma tela fixa sobre novidades do próximo e a principal é: aulas de música e teatro. À parte, claro, nada de graça. E ainda por cima aberto ao público, o que é bem estranho. Certamente ninguém de fora vai conseguir pagar. E muitos aqui dentro. Essa escola é ridícula. Eu fico empolgado, admito. Já pensando em estrelar a primeira peça da história desse lugar, mas Clara acha ridículo. Assim como Dani e o namorado dela lixo, que ela insiste em dizer que não é. O que rolou foi: basicamente, o fofoqueiro do twitter mentiu. O que ele disse não tem o menor embasamento, e, tecnicamente, não há muitas provas. Tá, não há provas. Nenhuma. É difícil aceitar esse fato. Para Clara também. Nós nunca gostamos dele, então tudo o que sempre procuramos era um motivo. Mas acho a ideia das atividades divertidas, e, se bem organizadas, podem dar certo. Clara diz que é uma tentativa patética de se parecer com uma escola americana, porém acho que não há nada de r**m em copiar o que é bom e melhorar, tal qual como Gaga fez com Express Yourself da Madonna. Depois da aula, vamos para a praça de alimentação do shopping, local marcado por Lucas para o tal pedido de desculpas. Tenho certeza de que ele sabe que estou aqui, mas não me importo. Clara e eu estamos em ponto em que Lucas fica sentado de costas para nós, e Gabriel de frente. Não dá para ouvir o que dizem, mas percebo as emoções nas reações de Gabriel. - O que aquele m***a tá fazendo? - digo ao ver Lucas colocar uma das mãos sobre a de Gabriel. - Relaxa. A gente tá em público, não vai acontecer nada - Clara tenta me acalmar. - Não dá pra assistir isso - falo, já me levantando. Um dos amigos de Lucas aparece. Acredito que seja Rafael, um que sempre está em suas fotos no i********: vestindo o uniforme da escola. Acho que nem ele esperava por isso. Gabriel está claramente desconfortável com o toque de Lucas. De repente, tudo vira uma confusão. - Cara - o tal garoto diz, olhando para Gabriel - O que faz aqui? Com ele? - Que m***a é essa? - Lucas não o responde. Ele olha para mim - Eu te disse para não vir. - Vai embora, por favor - peço, ainda calmo - Já pediu desculpas, não é? Agora cai fora. - Sam, não precisa disso - Gabriel diz, nervoso. - Que m***a tá acontecendo aqui? - Rafael pergunta - Cara, o que você tem com esses viados? - Desculpa, não me lembro de te dar i********e para me chamar assim - fala para ele, sorrindo. - Vamos embora - Lucas puxa o amigo, que continua a nos olhar com cara de nojo. - Vamos embora - Gabriel repete, mas para mim - Por favor, Sam. - Você é uma vergonha, Lucas - digo, ríspido. Eles se vão. Acredito que Rafael só não veio para cima por estarmos aqui, em uma praça de alimentação. Nós nos sentamos com Clara, que estava atrás de mim o tempo todo. Depois, com calma, Gabriel me conta que Lucas tem muitos problemas em casa. E que sente muito por ser como é, mas que está tentando mudar. Eu me sinto um pouquinho m*l, mas passa. Pelo menos não fiz nada de muito terrível. Talvez um dia eu ainda volte a falar com ele, pedir desculpas, quem sabe. Se ele ainda quiser olhar na minha cara um dia. Gabriel também diz que achou estranho o fato de Rafael ter aparecido. Ele mesmo questionou a escolha do local, já que Lucas ainda se esconde de muita gente, principalmente na escola. Tudo em relação a esse garoto é estranho. - Acho que arrumei um amigo super-protetor e esquentadinho demais - Gabriel concluiu, o que me faz sorrir. É bom saber que ele me considera assim também. Como amigo. No fim das contas, acho que meu crush por ele era mais essa minha obsessão em ter mais amigos lgbt's. Não sei. Esse segredo vai pro túmulo comigo, com certeza. Nenhum deles precisa saber. G A B R I E L Conto para Sam que transei pela primeira vez. Acho que nunca contei a alguém algo tão pessoal além de Laura, e isso é bom. Mas teve um fator muito importante para esse ato de coragem, claro. Soltei essa bomba para que ele parasse de insistir e eu não precisar contar mais coisas sobre Lucas. Acho que ele praticamente disse que gosta de mim. Não sei definir. Como sou discreto, não fiz um escândalo. Ter um amigo que não tem vergonha de nada é super importante, ainda mais quando se é tímido. Mesmo com o clima tenso, fiquei feliz por Sam ter aparecido. Acho que nunca me dei conta de que precisava de alguém como ele. Com toda a empolgação, escolho não cortar o clima e contar o que aconteceu com Augusto. Acho que é algo pessoal demais. Algo pessoal demais dele. Estou preocupado. Tudo que eu queria era poder convidá-lo para minha casa. Queria que ele pudesse ficar, e pelo tempo que precisasse. Mas, infelizmente, a vida não é assim. Minha mãe está estressada por conta da gravidez de Kátia. Ela até chegou a mencionar em sair do emprego, mas duvido muito. Não sei o que a prende tanto. Meu pai se preocupa menos, afinal, dinheiro resolve tudo para ele. Combino com Augusto de vê-lo no sábado. Ele diz que está tudo tranquilo na casa de Guilherme. A mãe dele sabe que ele está lá, mas ainda não pediu para que ele volte. Mesmo ela não sendo muito legal, espero que ele consiga voltar para casa. Os pais de Guilherme são maravilhosos, mas provavelmente não podem adotar outro adolescente assim, do nada. Temporariamente, a sensação para ele é de segurança. De libertação. Ele até pintou as unhas pela primeira vez e me mandou uma foto todo feliz. Roxo. Achei fofo. Tento não pensar no futuro e focar no agora. Eu o ouço no telefone há mais de uma hora contando sobre como foi a noite dele e de Yan no centro. Não estou exatamente com ciúme, afinal, o garoto é hétero, mas mesmo assim. Eu já vi diversos... vídeos de entretenimento com teor s****l (vergonha) que começavam desse jeito e acabavam em, bem, acabavam como Augusto e eu na casa dele. Mas isso tudo é besteira, como diz Laura. Ela diz que eu simplesmente não consigo acreditar que eu finalmente me dei bem no amor, e agora estou me autossabotando. Não posso desmentir. Depois de quase duas horas de ligação, decido contar sobre Lucas. Não completamente, mas descrevo as partes mais importantes da cena. Ele fica um pouco chateado, porque eu nem havia mencionado a ele sobre a mensagem e o "encontro de desculpas". Consigo convencê-lo de que vai ficar tudo bem, e que eu só não sabia se ele ficaria com raiva de mim por falar com o cara que bateu nele. Sei lá. Não gosto de ficar com coisas m*l resolvidas. Ficar magoado com alguém não combina comigo. - O que você acha de assistirmos a um filme? Eu aqui, você aí, mas um ouvindo as reações do outro. A gente pode comentar sobre tudo. Tem computador aí no Guilherme? - Então você é do tipo que fala no meio dos filmes - Augusto ri - Tem sim. - Não me diga que você faz o tipo caladão! - Eu faço o tipo caladão - a risada dele é perfeita - Mas eu ouço você comentar tudo. Sem problemas. Amo ouvir você falar. - Bobo - acabo rindo - Eu pedi umas recomendações ao Samuel. Tem um título aqui super engraçado, acho que devíamos ver esse. - Qual? - ele pergunta. - Reino de Deus - digo, e ele cai na gargalhada - É sério. Esse é o nome. - Tudo bem, então - parece que consigo ouvir o seu sorriso - Reino de Deus com o filho do prefeito braço direito do pastor. Vou preparar a pipoca. Na metade do filme, às três da manhã, Augusto acaba dormindo. Mas o filme é realmente muito bom. Tem ótimas cenas de entretenimento com teor s****l, inclusive. Só não entendi o título até agora, o que torna tudo bem engraçado.
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