A U G U S T O
ainda sem celular, na escola, segunda de manhã, preciso contar tudo sobre a tarde com gabriel para guilherme. ele também está sem celular, e, além disso, faltou quase a semana passada inteira.
eu até cheguei a contar sobre como foi bom com yan e larissa, mas não é a mesma coisa. com gui posso falar tudo abertamente, e isso é bom.
depois da aula vamos até a praça fumar um pouco. a situação com a minha mãe está muita tensa, fato. não gosto de fazer isso, mas às vezes faço. é a vida. um pecado a mais não vai fazer muita diferença no final.
- o filho do prefeito sabe que você fuma? - guilherme me pergunta entre o segundo e o terceiro cigarro.
- acho que não cheguei a comentar sobre isso.
- ele me parece fazer o tipo certinho. melhor nem falar nada.
- você adora julgar pela aparência - dou uma tragada - não faça isso.
ele ri. no fundo, sabemos que ele está certo. acho que gabriel ficaria um pouco desconfortável. talvez ele não ligue tanto, mas feliz não vai ficar. ninguém ficaria, acho.
- o que rolou entre você e yan? eu sei que ele não gosta de mim, mas, tipo, o clima entre vocês tava meio tenso hoje.
- ah, é que eu tô tendo que fingir que não sei que ele quer terminar com a lari. é meio chato agora ficar ali, junto com eles.
- e por que ele quer terminar? aquelas porras não se desgrudam nunca - ele comenta.
- ele disse que não sabe. só não sente mais a mesma coisa. mas aí é que tá - eu evito falar m*l de yan para gui, mas dessa vez é inevitável - ela acabou de falar pra ele que é bi. eu mesmo ajudei a ela a tomar coragem pra falar.
- e aí dias depois ele fala que quer terminar com a garota - ele sorri, m*****o - saquei. olha, desculpa, mas ele é um b****a. nem sei como você consegue ser amigo dele.
minha conversa com gui me faz ficar pensativo a tarde inteira. tudo que ando pensando sobre yan faz sentido. ele está fingindo. mentindo pra mim. pra todos nós. a terapia ainda não fez milagre. ele precisa ser o próprio milagre, acho.
quando minha mãe chega, por volta das oito e meia, espero por ela na sala de estar. a primeira coisa que ela diz é parabéns por eu não ter pegado o meu celular de volta. depois, com delicadeza, ela abre a bolsa e o tira de lá, sorrindo.
- e também nem tinha como - ironiza.
abaixo a cabeça. a única coisa que consigo ver são os meus cachos rebeldes acima de minha testa. fico focado em olhar para cima a fim de evitar que as lágrimas desçam.
mas eu falho.
- eu tô cansado. cansado desse relacionamento abusivo - digo, agora olhando para ela.
- relacionamento o quê? - ela joga o celular de volta para bolsa - vocês jovens inventam cada coisa hoje em dia.
- abusivo - repito, levantando-me - você é abusiva.
- e você é um garoto rebelde que pensa que sabe o que faz, mas não sabe. eu já tive a sua idade, e eu sei que.
- eu já sei disso tudo - corto-a - mas você não sabe o que é viver na minha pele. não sabe o que é ser gay - falo, bem próximo ao seu rosto.
- seu pai teria vergonha de você - ela pega firme no meu pulso - ainda bem que ele não está aqui para ouvir isso.
- inacreditável - eu a faço largar o meu braço - sabe de uma coisa? eu tô com nojo de você.da mesma forma que sempre tive nojo dele.
- e eu amo você - ela sorri, começando a chorar delicadamente - essa é a diferença. eu quero o seu bem. você só quer o que acha certo agora. mas, lá na frente, quando você estiver morrendo, vai se lembrar de Deus. e da verdade.
- escuta - agora as lágrimas simplesmente estão me consumindo. ponho minhas mãos trêmulas sobre o rosto dela - por favor. me escuta. eu não quero odiar você. eu sou incapaz de odiar você. eu amo você, mãe, mas eu não sou obrigado a continuar vivendo desse jeito.
- eu sei o que é melhor pra você, você tem que.
- eu sei o que é melhor pra mim! - grito - eu sei o que é melhor pra mim.
sento-me de volta no sofá. minha cabeça está doendo. ela começa a orar, o que me causa vontade de vomitar. tudo está girando. é como se o mundo estivesse desabando sobre mim. algo muito maior do que eu possa suportar.
a mão dela está presa em meus cabelos. meu olhar está turvo. ouço sua voz, mas não assimilo nenhuma das palavras. acho que devemos sentir algo parecido quando morremos.
ela acaba a oração. minha garganta está fechada, assim como meus punhos. a raiva está me possuindo por completo.
- vai ficar tudo bem - ela sorri, agora limpando minhas lágrimas - agora pare de chorar. homem não chora.
- vai se f***r - digo, fazendo-a soltar suas mãos de mim.
- eu quero falar com o meu filho - ela diz, dando um t**a em meu rosto - em nome de Jesus.
pego o meu celular da bolsa dela e saio de casa.
corro. sem rumo.
só queria poder me livrar de tudo.
Y A N
Ao ouvir os gritos na casa de Augusto, saí e o encontrei no exato momento em que disparava de casa para a rua.
grito para que pare, mas ele não me ouve. nunca imaginei que pudesse correr tanto, mas consigo. depois de quase três quilômetros, acho, ele entra num ônibus, e eu consigo entrar no mesmo no último segundo.
Sento-me ao lado dele sem dizer nada. Ele continua a olhar para fora da janela durante longos minutos, e eu o respeito. Eu o respeito mesmo tendo vontade de pegar em sua mão, dizer que tudo vai ficar bem. Dizer que eu o amo.
"Ouvi algumas coisas. Não foi nada legal da parte dela" começo, nervoso.
"Eu não quero voltar pra casa. Não sei o que fazer. Só não quero voltar pra casa."
"Você pode ficar lá em casa" digo, e ele olha para mim.
"Acho que vou pra casa do Guilherme. Eu pediria pra você pegar algumas roupas minhas se não estivesse aqui, na minha cola" ele sorri, mesmo com as lágrimas ainda caindo.
"Não acho uma boa ideia" digo "Não é implicância com o Guilherme. É só que... você vai ter que voltar pra casa uma hora. Não vai resolver o problema."
"Mas vai me dar um pouco de paz por um tempo, o que já é o suficiente pra mim."
Ficamos um pouco em silêncio. Não concordo, mas irritá-lo agora não vai ajudar em nada. Augusto precisa de companhia, e é o que faço: fico ao seu lado apenas sentindo sua dor.
"Cara" mas ele quebra o silêncio um tempo depois "Se você soubesse o que é viver numa prisão dentro da própria casa" Augusto seca suas últimas lágrimas "Com seu próprio... imagina seu pai odiando quem você é" ele balança a cabeça, sorrindo "É sério. É insuportável"
'Eu entendo' digo, mas infelizmente apenas em pensamento.
O ônibus nos faz chegar ao centro da cidade. Já passa das nove, o que significa que meu pai vai ficar preocupado em breve. Mando uma mensagem para ele dizendo que voltaremos em breve, mas talvez só eu volte.
"Gui mora não muito longe daqui. A gente precisaria de outro ônibus, mas o único dinheiro que eu tinha no bolso da bermuda acabei de usar. Eu vou pedir para ele me buscar aqui."
"Você vai mesmo fazer isso?" pergunto colocando minha mão em seu obro.
"Só vinte por cento de bateria" suspira "Sim, vou. Não tenho opção, já disse."
"A gente podia se divertir um pouco antes" falo, e ele estranha "O que acha?"
Ele não resiste. Aventurar-se pelo centro é o sobrenome dele. Compramos bebida no mercado, lugar mais fácil de se comprar álcool sendo menor de idade. A verdade é que a maioria nunca pede Identidade, mas não gosto de correr o risco. Pelo menos, com a minha barba meio grande, passar pelo caixa do mercado é tranquilo.
Aproveitamos que a praça está movimentada e paramos por lá. O gosta da bebida é r**m, mas o que vale é estar aqui, com ele. Augusto se esforça para abrir a tampa da segunda garrafa, e eu rio. No fim, depois de insistir muito, pego-a dele e abro.
"Desculpa por ter tratado você meio m*l hoje na escola, ok?" ele começa. A bebida já está fazendo efeito? "Sei lá. Parece que estou traindo a Lari."
"Eu entendo. Vou acabar logo isso, prometo"
"Mas não quero que acabe" ele lamenta "Vocês parecem bons um pro outro."
"Às vezes eu acho que você não me conhece, mesmo tendo vivendo a vida inteira comigo."
"Você fica fazendo à esfinge, a culpa não é minha" ele ri "A culpa não é minha."
"Nada a ver" dou uma golada longa na garrafa.
"Se você está me escondendo alguma coisa, a hora é agora" ele diz "Você não sabe se vou ficar vivo se eu voltar pra casa."
"Então você vai voltar?" pergunto, empolgado.
"Hoje não" ele sorri.
Depois da praça, encontramos um karaokê aberto. Deve ter só uns 20m² e cinco pessoas dentro, sendo quatro delas com idade pra ser meu pai. Augusto não liga e entra na fila para cantar. Não sei o que fazer, só permaneço ao lado dele. Dificilmente canto na frente de alguém. Não de verdade. O que Augusto já ouvira uma vez ou outra foi pura enrolação.
Ele canta a primeira sozinho, "It's All Coming Back to Me Now", da Céline Dion. Não é nada sensacional, mas Augusto é afinado o suficiente. Depois, "...Baby One More Time". Ele se solta até demais, e eu me divirto. Os velhos não parecem lá muito felizes, mas é disso que eu gosto nele: Augusto tem esse poder de não se importar com o que os estranhos pensam. Não foi sempre assim. Acredito que seja um processo longo, assim como o que estou passando.
Eu canto Wonderwall praticamente obrigado e morrendo de vergonha. Depois eu e ele fazemos um dueto: A Lenda. A minha vontade é de mudar a letra da música, afirmando que essa lenda faz chorar, e chorar muito.
Pouco depois da meia-noite, Guilherme o busca de carro. Nós combinamos dele pegar um pouco de roupa na escola na manhã seguinte. "Hoje ele pode dormir com uma roupa minha", disse Gui, o que quase me deu ânsia de vômito.
Quando chego em casa estou num mix de emoções. O resultado é uma música sobre o que vivemos essa noite. Algo na intensidade que eu havia buscando há um tempo. Isso me inspirou para diversas coisas, inclusive para finalmente contar a verdade. Pelo menos é o que eu espero. O primeiro passo é terminar meu namoro de mentira.
"So tell me why
While all the city's sleeping
We're drinking up all night?
So tell me why-y-y
Why am I feeling so delighted
Even after you said goodbye?
This is what you do to me
This is what you've always done to me"
"c*****o" meu irmão diz ao entrar no quarto "Não entendi nada, mas está linda. De verdade. Você vai cantar isso no meu casamento."
"Não é uma música boa para casamento" digo, mesmo morrendo de vergonha.
"Então comece a trabalhar em uma" ele bagunça o meu cabelo, e depois se deita.