Y A N
"Sinto sua falta".
Estou escrevendo uma música sobre isso. Foi uma sugestão de Rafael. Não ficou muito boa, mas acho que deu uma aliviada. Ainda estou um pouco tenso sobre tudo o que aconteceu ontem. E com raiva. Infelizmente, só o fato de ter conversado um pouco mais com Augusto me deixou feliz, mesmo que não tenha sido sobre coisas que eu realmente preciso falar; até Gabriel entrou no meio. Não quis ser egoísta.
Minha cabeça está uma bagunça. Quero terminar com Larissa, mas agora parece inviável. Ela vai achar que é por causa de sua bissexualidade, claro, e eu tenho culpa disso. Augusto vai pensar a mesma coisa. Sou um i****a.
Ainda não consegui escrever algo sobre isso. Só espero conseguir acabar logo com tudo.
"Então o músico da casa voltou" meu irmão entra no quarto quando estou sentado na cama com meu violão e meu caderno.
"Sem aula hoje?" sorrio, fechando disfarçadamente o pequeno caderno.
"É" ele se senta ao meu lado "Voltou a compor?" e pega minhas anotações.
"Não, não" tento pegar o caderno dele, mas ele desvia "Não tem nada pronto ainda. É sério."
"Não tenho exclusividade por ser irmão?" ele se levanta, passando pelas páginas rapidamente.
"Cara, por favor..."
"Sinto falta do seu olhar. Sinto falta do seu corpo. Sinto falta do tempo em que não sabíamos quem éramos. Sinto falta de poder te tocar sem ninguém perceber" ele lê em voz alta uma das últimas páginas, sorrindo "Uau. É sobre quem? Você não tem uma ex, pelo que eu sei."
"Nem tudo na música é pessoal" levanto e pego o caderno dele.
Meu irmão é meio chato, mas é uma boa pessoa. Como Augusto diz sobre mim, acho que o defeito dele é ser hétero. m*l sabe ele que o meu maior defeito é justamente não conseguir aceitar quem sou.
Augusto não para de mandar mensagens dizendo como foi incrível ontem, principalmente depois de Lari resolver criar um grupo com nós três no w******p. Os dois estão ficando cada vez mais próximos, e isso me irrita. É impossível alguém não gostar de Augusto. Ele tem esse poder. Só de pensar nisso meu coração dói, imagina ouvi-lo dizer sem parar sobre o s**o maravilhoso com outro garoto? Eu não mereço isso.
Depois de toda essa conversa no grupo sobre s**o, Larissa veio conversar comigo de um jeito diferente. Parece que ela não aguenta mais namorar sem t*****r, o que é perfeitamente entendível. Nós dois temos esse lance de depois do casamento por causa da igreja, mas a diferença é que uso como desculpa para não ter que fazer isso, infelizmente.
Ela definitivamente não merece isso. Ontem tentei escrever uma música sobre tentar terminar com ela, mas nem isso eu consegui. Tudo é difícil quando se trata de nós.
Já na sexta, vou até a casa dela. Está sozinha e a mãe só chegam depois das seis, então estamos tranquilos. Lari tenta passar um pouco além dos nossos beijos no sofá, mas eu a mantenho na linha. Não adianta nada, porque ela simplesmente abre a própria bermuda e e coloca minha mão dentro dela.
Fazemos o de sempre. Ela ficou um pouco irritada, e eu, triste. Não está mais bom pra nenhum de nós dois, e isso também quebra o meu coração, porque isso costumava ser tudo que eu tinha. Mesmo não sendo totalmente verdadeiro.
Mais tarde, na janta, meu irmão diz que vai se casar. Ele já tem quase vinte e cinco e prestes a se formar, então é algo normal, acho.
"Isso aí, pelo menos vai parar com a sem-vergonhice de t*****r sem estar casado" meu pai diz, meio que rindo "E daqui a pouco é você com Larissa" ele diz pra mim.
"Não tive a mesma sorte que o senhor. Encontrar um grande amor logo cedo" meu irmão diz, pois meus pais se conheceram aos quinze anos.
"Espero mesmo que não tenha. Não quero que você a perca tão cedo como eu perdi sua mãe."
Silêncio.
"Desculpem, não quis ser dramático" ele diz minutos depois, ainda mastigando um pouco de comida "Parabéns, meu filho."
"Você já falou com os pais dela?" pergunto.
"Ah, não. Mas ela já disse sim. Eu a pedi lá no campus mesmo, na frente de todo mundo. Eu devia ter feito na quarta pra você ver."
"Vai me dizer que ninguém gravou? Todo mundo grava tudo hoje em dia" meu pai fala, e, sim, meu irmão saca o celular e mostra uma gravação do momento do pedido.
O vídeo é lindo. Foi no pátio e tinha muita, muita gente ao redor. Ele se ajoelhou, todos gritaram e ela disse sim. Todos gritaram e se abraçaram. Fico feliz por ele com uma pontinha de inveja. Deve ser bom poder fazer esse tipo de coisa em público. Sei que um dia isso tudo vai passar, mas só de pensar que meu irmão não precisou parte da vida fingindo ser outra pessoa, eu... Parece inacreditável. Lembro que quando eu era mais novo, achava que todos passavam por isso. E que uma hora nós finalmente amadurecíamos e nos tornávamos normais. Héteros. Loucura da minha cabeça.
No fim da noite, vou até a casa de Augusto. De certa forma, apesar de todo esse sentimento de inveja, meu coração também se encheu com um pouco de amor. Esperança.
Sua mãe diz que ele está no quarto, então vou.
"Você não responde minhas mensagens, então tive que vir. Ainda bem que é perto."
"Sem celular de novo" ele sorri da cama, abrindo espaço para mim "Ela meio que descobriu que peguei o celular. Disse que me viu online."
"Deve ter ficado com a sua conversa aberta o dia todo" digo, rindo.
"Do jeito que ela é, não duvido nada."
"Eu... acho que vou terminar com a Lari" falo, finalmente "Por favor, não conta pra ela. Sei que são amigos agora e tal, mas..."
"Sou seu amigo antes de qualquer coisa" ele diz "Mas por quê? Vocês parecem tão felizes juntos" fico em silêncio, e não demora para ele dizer "Não vai me dizer que é por que ela é bi?" Augusto me lança um olhar sério.
S A M U E L
- Ele sabe que você é bifóbico? - Clara me pergunta rindo.
- O quê? Garota, pelo amor de Deus.
- Mas você é - ela me empurra de leve.
- O seu argumento é inválido, já que os últimos dois garotos que eu peguei são bi.
- Certo, sendo que um deles você meio que já sabia que era, então deu um fora dele na cara dura. Bem aqui, neste cinema, inclusive. E o outro você só transou porque não fazia ideia. Nunca passou pela sua cabeça. Por você sempre supõe que todo mundo é.
- Tá, eu tenho esse defeito de sempre achar que todo mundo é gay - eu a interrompo, devolvendo o empurrinho - Ninguém é perfeito.
- Você disse alguma m***a? - ela perguntou enquanto escolhia os nossos lugares na máquina de autoatendimento do cinema.
- Não, claro que não. Tipo, ele até fez uma piada sobre o assunto. Quando eu disse "entendi", ele meio que disse "hm, esse é o momento que você dá o fora ou fala alguma besteira, como ter o dobro de ciúmes e etc". Eu fiz a maluca.
- O meu primo é simplesmente perfeito e eu vou protegê-lo - Clara inseriu o cartão na máquina e digitou a senha.
- Depois eu te pago, meu bem - agradeço.
- Me poupa, v***o - ela diz, e nós rimos - Você nunca me paga.
- Garota, o que eu posso fazer? Minha mãe não me confia um cartãozinho sequer e nós dois não gostamos de enfrentar essa fila do caixa.
- Sua mãe é sensata - e Clara finalmente puxa os nossos ingressos para assistir Cidade dos Etéreos.
Enquanto esperamos Dani, o encontro de Clara e o meu encontro chegarem, conto a ela que resolvi mandar uma mensagem no Insta para Lucas esta manhã. Ele não apareceu na escola a semana toda, óbvio, e eu não quis deixar pensá-lo que sairia ileso.
Ela achou um absurdo, mas eu entendo. Na verdade, não disse nada demais, só para ficar longe dos meus amigos. Não sei se ele leu. Acho que ele ainda não aceitou a solicitação, já que nós não seguimos um ao outro. Não importa. Espero que veja. Espero que me responda.
Também conversamos sobre Tomás. Falo que voltamos a conversar pelo Twitter, e ela fica feliz por isso porque sempre desejamos uma amizade com ele. Conto que voltamos a denunciar a conta de fofocas da escola e que ele está me ajudando a espalhar a ideia para que todos possam ajudar. a conta acaba caindo mais rápido dessa forma.
Já perto do horário da sessão, quase quatro e meia, eles chegam, um a um. Primeiro, a garota que está conversando com Clara no Tinder atualmente. Por ironia, o nome dela é Carla. Depois, Dani e o namorado (longa, chata e hétero história), e, por último, Bruno.
- Ele ficou uns dez minutos procurando a música pra poder ligar o carro - Dani o denuncia - Sério. Tá passando de todos os limites. Não foi, amor? - ela se dirige ao namorado, mas Clara e eu simplesmente ignoramos a existência do ser.
- Ela é muito exagerada, cara! - Bruno se defende, rindo - Aposto que não foi nem cinco minutos. Nada comparado ao tempo que você demorou para se arrumar.
- Os dois são péssimos e eu odeio os dois - Clara abraça ambos.
- Desculpa pela demora - ele me dá um selinho demorado - Acho que preciso da sua ajuda para criar uma nova playlist pro carro. A minha já tá tão grande que eu não consigo mais achar as coisas direito.
- Vou pensar no seu caso - sorrio.
Depois de Bruno insistir para comprar pipoca, entramos na sala cinco. Noto que ele pega cada pipoca com a pontinha dos dedos para não se sujar, o que acho engraçado. Depois de uns vinte minutos de filme ele pega na minha mão. entendo a razão do cuidado, acho. O filme é legal, mas nada muito marcante. Acho que faço mais o estilo filmes-pra-chorar, me julgue. Eu super assistiria A cinco passos de você de novo. Não, mentira, isso me lembraria o lance desastroso com Tomás, e eu só quero manter as coisas boas entre nós a partir de agora. Os outros quatro parecem estar bem mais interessados que nós, mas mesmo assim pego um beijo entre o casal C&C.
Nós nos beijamos. Bastante. Ele parece estão tão não-interessado quanto eu, o que é bom. Gosto desse tipo de conexão, tipo, odiar as mesmas coisas. Acho que é até mais legal do que amar as mesmas coisas.
O filme acaba. De repente, quando as luzes se acendem, Bruno vira para mim. Ele está quase para fora da cadeira, como se quisesse se ajoelhar. Sinto uma pontinha de pânico.
- Eu... Acho que parece cedo demais, mas eu não me importo. Queria te falar uma coisa importante - ele diz, sorrindo, mesmo parecendo nervoso - Acho que a gente tem uma conexão muito especial. Acho mesmo. E eu tô gostando de verdade de você... Você quer namorar comigo?
A pontinha de pânico vira um ataque cardíaco. Involuntariamente, olho para as meninas. Estão todas boquiabertas, inclusive Carla, que nem nos conhece. Ela não faz ideia de que eu só conheço esse garoto há, sei lá, duas semanas? Acho que parece até menos agora.
- Sim - digo, e os outros quatro aplaudem.
Meu Deus, eu disse sim?