só um filme/eu disse sim? (parte um)

2007 Words
A U G U S T O minha mãe não fala comigo desde domingo. a sorte é que ela trabalha muito, então convivemos em silêncio pouquíssimo tempo. nunca achei que ficaria tão feliz em vê-la tão pouco. já senti isso antes, mas não como agora. acho que perdi as esperanças nela. no fundo, sempre achei que ela fosse mudar algum dia. um garoto gay é sempre muito esperançoso em relação a sua mãe, principalmente quando o pai é um verdadeiro m***a. o meu é tão patético que nem existe para mim. nunca existiu. a minha saída literal da igreja me fez bem. acho que agora sinto que não devo mais nada a ninguém. sem culpas, sem pensamentos ruins sobre o que faço, o que sou. acho que só quem viveu nessa m***a sabe como realmente é permanecer dentro desse tipo de prisão por quase a vida toda. e é por isso que "roubo" meu celular de volta do esconderijo da minha mãe e chamo gabriel para vir até minha casa hoje. eu já disse a m***a toda a ela, então o que ela poderia fazer? mas eu sei que é seguro. além disso, yan e larissa estão dispostos a me dar cobertura. enquanto a hora não passa, sofro na aula de matemática financeira. - vocês acham que é muito desesperador enviar o link de 'want you in my room' da carly rae jepsen pra ele? - isso significa que você já desinstalou o tinder? - lari pergunta. - na verdade, não - digo - mas eu nem uso mais. sério. acho que vou desinstalar agora mesmo. - não tem ninguém te pressionando - yan ri. - não, não - sinto-me sem graça - eu quero excluir. de verdade. - awn, tá apaixonadinho - ela aperta minha bochecha. - talvez? - dou um meio sorriso. yan assente. - nunca ouvi essa música, mas pelo nome parece ser bem... intimidadora - ele afirma. - eu quero você no meu quarto, quero você na minha cama, no chão. eu quero fazer coisas ruins com você - larissa está lendo em seu celular, debochando - deslize pela minha janela. querido, você não me quer também? - definitivamente desesperador - yan conclui, e nós rimos. depois do intervalo é aula de educação física. a primeira metade do tempo é das meninas, então eu e ele ficamos livres para conversar. como guilherme não veio hoje, sinto que yan parece mais confortável. primeiro ele pergunta como estão as coisas com minha mãe, depois sobre gabriel. eu não esperava que fôssemos entrar nesse assunto, mas fico feliz. na verdade, tudo isso parece meio surreal. não que uma mudança aqui e ali seja impossível nas pessoas, mas... não sei. acho que foi meio inesperado. apesar disso, ainda tenho a sensação de que ele não está dizendo a verdade. não totalmente. até mesmo a reação dele em relação a larissa ser bi me pareceu boa demais. boa demais para ser 100% verdadeira. ele também me conta algumas coisas boas. diz que voltou a escrever músicas e ganhou um violão novo, o que é bom. digo a ele que faria qualquer coisa para ouvi-lo cantar novamente, mas ele, diz que não, nem pensar. - ontem foi seu dia no psicólogo, não? quarta - pergunto. por um momento eu havia esquecido toda essa coisa de terapia. talvez a mudança venha de lá. - foi. é melhor do que eu esperava, sabe? rafael é uma pessoa inspiradora. - rafael, então. o nome da mudança - digo. - ele não acha isso - yan sorri - a mudança está em mim, como ele diz. mas ainda estou bem longe do ideal. - você está indo bem. parece até mais feliz. dá até vontade de fazer terapia também. mas também sinto falta de brincar de psicólogo com você - falo - nós costumávamos contar tudo um pro outro. tudo. - sinto sua falta - ele diz, me pegando de surpresa. somos interrompidos por larissa, completamente suada e ofegante pela partida de handebol feminino. ela dá um beijo na testa de yan e diz que precisa de um banho. - sempre estive aqui - digo a ele quando ela se vai - e sempre vou estar. depois da aula, vou para casa e arrumo tudo rapidamente para a chegada de gabriel. olho para todos os cômodos e tudo parece simples demais em comparação àquela casa perfeita do prefeito. o meu quarto é, tipo, dez vezes menor que o dele. eu disse isso a ele, e ele repetiu umas dez mil vezes que isso não importa. fiz macarrão para o almoço. acho que é a única coisa que sei fazer direito porque é ridiculamente fácil. ok, meu molho branco chega até ser melhor que o da minha mãe, mas ainda sim. espero que ele goste de tudo. também fiz uma playlist chamada "noite de amor", mesmo estando de dia. eu não sei o que ele acha sobre isso, então só vou colocar na hora e deixar acontecer. tem cigarettes after s*x, uma banda que se dedica exclusivamente a fazer música para você ouvir transando, e o gabriel gosta bastante deles. deve significar alguma coisa, acho. baixei um filme gay para assistirmos, porque a netflix tem pouca variedade e, se você é gay, provavelmente já viu todos que prestam. acho que ele não gosta de ver filme repetido. lembro de ouvir isso dele em algum momento, só não me recordo quando. comprei camisinhas. e lubrificante. não é a minha primeira vez transando, mas comprando essas coisas, sim. eu acho que á primeira vez dele, ou pelo menos foi o que ele deixou subentendido. talvez nem role nada. sei como é terrível perder a virgindade, então ok, acho. não que eu não queira t*****r com ele. quero bastante. - desculpa pelo atraso - ele diz quando abro a porta - você tem certeza de que a sua mãe não vai chegar mesmo a qualquer momento, né? não quero te causar mais problemas. - claro que tenho - eu o puxo e o beijo. G A B R I E L Quando perguntei a Laura se eu deveria t*****r com Augusto, sua resposta foi bem prática: "Ele já te viu pelado. Enrolar mais pra quê?" Não tive como rebater. Só assenti e aceitei o convite dele. Augusto não me chamou para t*****r com todas as palavras, mas acho que esse lance de vamos ver um filme lá em casa já deixou de ser meme. Ele definitivamente vai querer fazer alguma coisa e é claro que estou com medo. Se ele entendeu o que eu quis dizer (o que nem é algo tão difícil assim, acho que fui o mais claro possível sem parecer ridículo), Augusto sabe que sou virgem, então, bem, eu não sei. Só estou com medo. Acho que é normal. Meu corpo já deixou de ser uma questão faz um tempo, mas agora isso parece voltar um pouco. Odeio isso. Eu não sei se o fato dele já ter me visto me deixa mais tranquilo ou mais nervoso. Quero dizer, se ele viu e ainda assim está me chamando para "ver filme", isso significa que gostou, certo? Ou ele também estava meio bêbado e não se lembra? Até hoje, só fiquei nu na frente de um garoto. Digo, sexualmente falando, já que a experiência do banho pós PT com Augusto não conta. Foi uma experiência tranquila, mas ele não era, digamos, tão maravilhoso assim. Não como Augusto. É muita pressão. Ele me contou que desinstalou o Tinder. Acho que ele quis parecer fofo, então eu nem disse que já não tenho mais o app desde a nossa primeira conversa. Esse foi o "estou apaixonado por você" dele? Não sei. Eu m*l sei definir o que estou sentindo. Só sei que, quando leio uma mensagem dele, meu sorriso se abre automaticamente, e, apesar do susto, imaginar que fui banhado por ele me fez ter sonhos tensos. Bem tensos. Quando chego da escola, a empregada diz que precisa ir ao banheiro "urgente" e pede para que eu olhe a minha irmã para ela. Ela não é um bebê de colo, mas age como se fosse. Acho que Gabriela simplesmente sabe que é a criança mais bonita do mundo e que todos nós vamos fazer exatamente o que ela quiser. Começo um episódio de Dora com ela. Só assim para uma criança do século XXI ficar quieta. Quando acaba, percebo como Kátia está demorando. A mulher passou m*l mesmo. Fico nervoso ao ler as mensagens de Augusto, que diz já estar preparando tudo. Quando a mulher sai do banheiro, está com os olhos vermelhos de tanto chorar. - O que houve? - pergunto enquanto ela simplesmente vem e me abraça, como se tivéssemos toda a i********e do mundo. - Desculpa, mas não tem ninguém, então vai você mesmo - ela diz, me mostrando um teste de gravidez - Deu positivo. - Putz - digo, pegando o aparelho - Quero dizer, parabéns - sorrio, sem graça. Gabriela m*l tira os olhos da TV. - É putz mesmo - Kátia pega o teste da minha mão - Vou contar pra sua mãe assim que ela chegar, então não precisa fofocar pra ela, tá? - Relaxa, eu vou sair daqui a pouco. Só estava esperando por você. Ela diz obrigada. Finjo que nada disso é um problema e até digo "parabéns" novamente, mas a verdade é que minha mãe não aguenta mais trocar de babá. Parece que sempre dá uma coisa errada, mas esse é um tipo de "erro" novo. Acho que ela devia parar com tudo isso e ser mãe de verdade pelo menos uma vez na vida. Ela nem precisa mais trabalhar, essa é a verdade. Com tudo isso, acabo me atrasando para o encontro. Mas ele acontece. E ele está simplesmente perfeito quando abre a porta e me beija, calando minhas inseguranças. Augusto é realmente especial. - Cigarettes After s*x! - digo ao ouvir a música do Spotify aberto na TV da sala. - Até que eu gostei de algumas - ele sorri, pegando em minha mão - Aqui, vou te mostrar meu quarto. Não é incrível como o seu, mas... - Ah, para com isso - digo, seguindo-o. O quarto dele é muito agradável. E realmente tem a Beyoncé em uma das paredes, o que já vale por muita coisa. Fora isso, nada muito chamativo. Ele explica que não gosta de exagerar por conta da mãe, e eu entendo. De qualquer forma, tem uma cama, e é isso que importa. - Estou muito feliz que veio. De verdade - ele sorri. - Eu só queria dizer que exclui o Tinder desde a nossa primeira conversa - falo, porque não resisto. Precisava ver a reação dele. Augusto ri, depois me beija. Um beijo tão intenso que me faz não querer parar. Nunca. Ele passa as mãos por todo o meu corpo, e eu deixo. Quero senti-lo por completo. Quero finalmente poder me permitir por completo. Assim como ele. - A gente não vai fazer nada que você não queira, ok? - ele diz. É. Ele entendeu. - Eu acho que quero fazer tudo que é possível - falo, rindo. Augusto me deixa confiante. - Tudo que é possível é bastante coisa - ele sorri, levantando a sobrancelha. Tiro a camisa dele. Ele tira a minha. Agora já estamos na cama dele, deitados não tão confortavelmente assim, mas de uma forma maravilhosa. Quando ele começa a tirar a minha calça, lembro de Laura me pedindo pra contar a ela se o o**l dele é bom. "Nenhum garoto fez direito em mim até hoje. Não que eu já tenha pegado vários caras, mas você entendeu." Fecho os olhos e tudo que consigo pensar é algo definitivamente estranho, mas engraçado: Amiga, queria que você estivesse sentindo essa coisa maravilhosa comigo. Depois, beijo ele por completo. Cada pedaço. Cada parte que é possível ser beijada (ou quase). Ele parece tão feliz que logo todos os problemas desaparecem. Eu só quero senti-lo por completo. É quando me entrego a ele.
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