Y A N
Chorando.
Foi como passei a semana inteira. Hoje, para fechar, não poderia ser diferente. Tem tanta gente em volta de mim que sou incapaz de me mexer. A mãe de Augusto está com as mãos em minha cabeça, gritando. Eu simplesmente não consigo parar. Não consigo.
Ninguém sabe o motivo de eu ter ido ao "apelo", bem na frente de todos. Ninguém suspeita nada de mim. Claro que agora todos devem estar se questionando o porquê de tanto choro, mas tento não pensar nisso. No fim do culto, já caminhando para casa, ela até pergunta se estou "me sentindo melhor". Digo o que ela quer ouvir.
"E você sabe por que Augusto saiu daquele jeito da igreja?" ela pergunta, e eu digo que ele disse que não estava se sentindo bem. Nem sei porque minto por ele. Só faço.
Já perdi as contas de quantas vezes li e reli essa conversa dele com Gabriel. Me dá nojo. Me dá inveja. Reviro-me na cama de um lado para o outro tentando não acordar meu irmão. Sua cama fica só a alguns metros da minha. Leio mais uma vez, bloqueio a tela do celular, desbloqueio e leio mais uma vez.
Larissa, carinhosamente, pergunta se estou bem pela milésima vez. Já disse que não quero conversar sobre isso agora, mas ela continua insistindo. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas eu só quero o meu psicólogo.
Na segunda, meu pai me faz uma surpresa.
"Eu disse que compraria assim que pudesse. Demorou, mas foi" ele disse ao me entregar um violão novo.
Faz um bom tempo que o meu último quebrou. Ainda não sei tocar muito bem, mas é o suficiente para me divertir. Antigamente eu costumava até me arriscar em compor. Fiquei tanto tempo longe do instrumento que hoje nem sei mais por onde começar. Quem vai gostar disso é Rafael, o psicólogo. Ele costuma dizer que preciso de um meio para extravasar o que reprimo (e tenho quase certeza de que ele não estava falando sobre chorar em uma igreja com monte de gente gritando).
Já quase à noite, Larissa me manda uma mensagem pedindo para que eu fosse para a casa de Augusto. Achei que fingir estar bem diante dos dois na escola já havia sido o suficiente, mas pelo jeito não.
Quando entro, os dois estão sentados no sofá, sorrindo. Ela está com uma das mãos entrelaçada à dele. Ótimo. Ele está disposto a tirar tudo de mim.
"Lari tem uma coisa pra te contar" ele anuncia, sorrindo. Eles se levantam juntos.
"Primeiro de tudo, eu te amo" ela diz "E eu não estou gostando de outra pessoa. Não mesmo."
"Hã?" é definitivamente tudo que consigo dizer.
"Amor, eu sou bissexual. Eu sempre soube, mas tinha medo de te contar. Principalmente por causa de tudo entre vocês..."
Alguém me dá um tiro. Por favor.
"Mas eu disse a ela que você mudou" ele completa. Acho que nem ele acredita no que acabou de dizer.
"É. E fora que não quero passar a vida inteira com alguém que não me conhece por completo. Ou que não gosta do que eu sou. Eu não aguentava mais. Você sabe, isso pra mim é completamente normal. E é normal."
Antes que eles percebam a minha reação de pânico, sorrio. E depois começo a rir. Sem saber o que fazer com as mãos, coloca a direita na cintura e mordo os lábios. E rio.
"Eu não me importo. Eu amo você" falo.
Os dois correm e me abraçam. Depois Lari me beija e Augusto se afasta. Ele fala, animado, de como estava feliz pela minha reação.
"Bem que poderia ter sido assim comigo, né?" ele sorri, e isso me quebra por completo.
Estou rindo, mas quero chorar. Eu quero pular do prédio mais alto dessa cidade. Eu quero queimar por completo, o fogo consumindo cada parte do meu corpo.
Quero morrer, mas também quero viver. Viver com ele. Tudo que eu quero agora é dizer a Augusto que eu o amo mais do que qualquer coisa nesse mundo.
Só isso.
S A M U E L
Hoje eu quebro a cara do desgraçado.
Ontem, assim como Gabriel, o garoto que bateu em Augusto faltou. Clara e eu descobrimos o i********: dele e vimos que ele postou vários stories com diversos filtros para ninguém ver seu rosto machucado. Sabemos que o tal de Lucas não apanhou tanto quanto bateu, mas mesmo assim. Se depender de mim, nenhum filtro vai resolver o problema.
- Ai, para de show. Você não vai bater em ninguém - a sapatão diz até alto demais.
- Ele é um b****a, Clara. Precisa de uma lição - comento no meio da aula de matemática enquanto copiava números do quadro.
- Você não mata nem formiga. Se toca. Deixa isso pra lá. Você nem conhece o garoto que apanhou.
- Eu vou falar com ele, ok? Colocar uma pressão. Nada demais.
- Se você levar um socão, eu vou rir - ela diz, rindo.
- Gente, o Twitter - alguém em nossa sala diz alto.
O fofoqueiro ataca novamente. Dessa vez são três tuítes, um seguido do outro: dois sobre duas garotas do primeiro ano, da sala de Dani e Gabriel, e a outra vítima é um garoto da minha sala. O burburinho começa e logo todos olham para ele. O professor pede silêncio.
- Isso é ridículo - fala João, o novo exposto - Esse cara não deve ter mais nada de verdadeiro pra postar e começou a inventar as coisas.
- Vai dizer que tu não deu mesmo uma rapidinha no banheiro da escola? - um outro garoto obviamente hétero pergunta, e todos riem.
- E você só não fez isso porque o masculino e o feminino são separados, né? - respondo, e todos continuam a rir. Alguém até faz um "uuuu".
- Chega - Leogato, o professor, diz - E guardem os celulares, por favor.
A primeira aula do dia acaba. Lucas é do terceiro ano, então tento dar uma volta no corredor dos formandos para ver se o encontro, mas nada. Na janela de uma das sala acabo passando o olhar em Tomás, que acaba dando um meio sorriso. Pelo jeito a raiva passou. Mais tarde, ele me procura no corredor principal da escola.
- Ele não veio hoje - é a primeira coisa que ele diz - Nem ontem. E provavelmente não virá amanhã.
- Achei que estivesse com raiva de mim - falo, caminhando ao lado dele.
- Eu fiquei. Um pouco. Você não insistiu muito também nas mensagens.
- Não queria ser chato. Sei lá. Foi um começo r**m. De qualquer forma, desculpa. Mas como você sabe que estou esperando por Lucas?
- Eu ouvi um pessoal lá da sala dizendo que ele está com a cara meio r**m. E você se expõe demais no twitter - diz, e nós sorrimos.
- Um dia eu paro de colocar a minha vida inteira lá.
- Você nunca vai ser vítima do fofocas nobres, né? Se alguém quiser saber alguma coisa, tá tudo lá.
- Ah, para de exagero. A conta é trancada!
- Claro, claro - ele sorri, dando um passo a frente, despedindo-se - Depois quero saber como foi o lance do carro!
Eu começo a rir. Já tinha até me esquecido de que tinha tuitado sobre isso. Não foi abertamente, claro. Só um breve comentário. Também sei ser misterioso quando quero.
Já na rua, Gabriel vem me dizer um oi. Nós comentamos sobre o sumiço de Lucas, e ele diz que se sente mais aliviado sabendo que o garoto não vem. Depois falamos sobre como estamos com raiva da segunda volta daquela maldita conta do Twitter. Ele diz que uma das garotas da sala dele que foram atacadas está arrasada.
Na hora do almoço, vou até o apartamento de Bruno. O garoto está apaixonado por mim, certeza. Ele está com o tempo totalmente livre por conta do início do semestre da faculdade só acontecer em dois meses. Ele não passou na lista regular, então quem entra pela lista de espera sempre começa na segunda metade do ano.
Outro fato sobre ele: escritor. Bruno me leva para conhecer seu quarto (sem maldade, segundo ele). Tem um quadro do Panic! At the Disco, uma TV gigante, um PC de mesa e uma estante com diversos livros, incluindo os seus.
- Esse eu publiquei com dezesseis. O segundo com dezessete e o último no começo desse ano - ele me mostra a trilogia completa.
- Nossa. Tipo, eu vou levar séculos pra ler isso tudo. Por que você acha que as pessoas assistem Game of Thrones?
- Para, não é tão grande assim - ele ri - Aqui, o primeiro só tem 245 páginas - e mostra a última página do livro rapidamente.
- Mesmo assim - rio, agora abraçando os três livros - Mas eu prometo que vou ler, tá? Sinta-se privilegiado. Mas, então - vou ao assunto que estou curioso pra perguntar - a gente não conversou muito sobre família. Seus pais sabem sobre você? Quer dizer, não é qualquer pai que deixa o filho vir morar sozinho aos dezenove anos.
- Ah, sabem. Os velhos são tranquilos - ele ri.
- E qual é a dos casais héteros? - sorrio olhando para as capas dos livros. Sou terrível.
- Ah - ele passa a mão no cabelo e desvia o olhar por um milissegundo - É que eu sou bi.
- Entendi - respondo sério, mas ele nem imagina que estou rindo por dentro.