G A B R I E L
Passo o domingo inteiro fingindo que não quero vomitar a cada cinco minutos. Eu ainda nem sei como consegui voltar pra casa, o que é meio desesperador. Para piorar, Augusto ainda não respondeu nenhuma de minhas mensagens, o que pode ser preocupante. Laura insiste em dizer que ele provavelmente está dormindo horrores, mas não sei. Sinto uma pontinha de preocupação. Ainda estou me sentindo culpado por ele ter apanhado por minha culpa. Para me defender. Porque eu estava bêbado demais para conseguir me defender sozinho. Não que eu fosse conseguir, claro, mas mesmo assim. Eu deveria estar com um olho roxo, não ele.
De qualquer forma, estou fodido amanhã na escola. Acho que nunca mais vou aparecer naquele lugar.
O dia passa naturalmente. Laura quer saber tudo o que aconteceu, e eu conto as partes que lembro. Quando chega a noite, estou melhor. Não exatamente bem, pois estou na igreja e o culto continua sendo o mesmo saco de sempre, mas a vontade de vomitar passa de vez. No fim, acabei vomitando somente duas vezes. Sorte de principiante?
Depois do culto, vamos a um restaurante, e, por coincidência, Sam está lá também. Ele está com um garoto bonito, o que é legal, mas fico meio receoso de ir até ele e meu pai perceber que tenho um amigo "completamente" gay. Dou um tchauzinho de longe e me sento com minha família, mas ele não me deixa escapar tão fácil dessa e me manda uma mensagem no twitter: "O filho do prefeito não pode vir até a mim, pobre mortal?" "Ah, desculpa. Não queria atrapalhar o casal + emoji de sorriso", digitei. "Você não quer que eu vá até aí apertar a mão do seu pai, né? Eu juro que a minha vontade é dar um murro nele".
Nós sorrimos um para o outro. A minha mãe me lança um olhar semicerrado e eu finjo que não é comigo. Digo para Sam que "já vou" enquanto penso no que vou fazer. Para disfarçar ainda mais, pego o cardápio e dou uma olhada em tudo até chegar a conclusão de que tudo aqui é absurdamente caro. Ou esse garoto é muito rico, ou esse boy dele que é muito rico, porque não é possível.
- Conhece aqueles meninos ali? - minha mãe pergunta, e eu congelo.
- Quem? - fecho o cardápio, rindo de nervoso.
- Os meninos - minha mãe, de frente para mim, dá uma olhada para trás - Aqueles dois ali.
- Quem? - agora meu pai também resolve procurá-los.
- Ah, sim. Sim. Um deles, na verdade. Ele é lá da escola.
- E você não vai lá falar com ele?
- Deixa eu adivinhar - meu pai junta as mãos - Vocês estão conversando por w******p - e as solta apontando para mim, sorrindo.
- Eu não duvido - ela diz - Uma vergonha isso.
- Vou lá - levanto, guardando o celular no bolso - Não demoro.
Minha mãe sorri em aprovação. Quanto mais perto chego, mais percebo que os dois estão absolutamente perfeitos. Eu simplesmente não tenho palavras pra descrever tanta beleza. Acho que eu assistiria um pornô desses dois sem nem pensar duas vezes.
- Finalmente! - Sam se levanta para me dar um abraço - Gabriel, Bruno. Bruno, Gabriel.
- Prazer - eu e Bruno dizemos ao mesmo tempo. Ele também se levanta e aperta minha mão.
- Vem sempre aqui? - o suposto namorado dele pergunta, o que me faz rir de leve.
- Às vezes. Meu pai que gosta daqui. Eu acho estupidamente caro.
- Também achei - Sam constata - Mas o Bruno insistiu pra gente ficar mesmo depois de passar o olho no cardápio.
- Uma vez só não mata - ele responde, e eu sorrio, assentindo.
Samuel pede para que eu me sente, e eu aceito logo depois de dar uma espiada na mesa dos meus pais. Eles parecem bem. Abro a conversa contando sobre ontem e Sam se lamenta por não ter ido me ver.
- Ah, deu tudo certo no final. Tirando a parte de que vomitei duas vezes hoje - conto, e os dois riem.
- Seu primeiro PT? - Bruno ri - Vocês são tão babys.
- Ele fala como se fosse um velho - Sam diz - Nem liga.
- O pior nem foi isso. Acabou rolando uma briga. O meu amigo, o Augusto, o que eu disse para você que iria comigo - falo olhando para ele - Ele acabou se machucando. Um cara lá cismou com a gente e...
- Um homofóbico bateu em vocês numa festa gay?
- Não era bem um homofóbico - digo, e os dois se entreolham.
- Tá, pode começar a falar. Quero saber em quem eu vou meter a p*****a amanhã.
Mesmo com medo, conto. Querendo ou não, sinto-me mais seguro se Sam estiver disposto a me ajudar amanhã. Mesmo que ele não faça nada, porque eu realmente não faço ideia do que ele é capaz - mas o simples fato de imaginar que ele poderia fazer alguma coisa me deixa mais tranquilo. Ou pelo menos com um mínimo de coragem para levantar da cama.
Depois de falar tudo e perceber que já fiquei tempo demais longe da minha mesa, volto para minha família. Eles não reclamam muito da demora, então ajo naturalmente. Nós comemos, conversamos as mesmas coisas de sempre e vamos embora.
Às dez e meia, quando estamos no carro, Augusto aparece. "Já adianto que não foi troco", ele começa, "a minha mãe surtou. Foi meio foda." "Você tá bem? Desculpa mesmo por tudo. Foi culpa minha. O seu olho... + emoji de carinha triste" "Não. Não foi culpa sua. Foi tudo maravilhoso ontem, tirando o b****a lá. Mas até a parte de você ficar doidão foi boa." "Quê? Não mesmo. Eu nem me lembro de como vim parar na minha cama." "Quer que eu te diga?", ele diz. "Você... Você entrou aqui em casa? Sério?", pergunto, já com o coração acelerado, pensando em ligar para Laura urgentemente. "Isso mesmo. E se você não acordou com a cabeça explodindo e fedendo a álcool, agradeça ao banho que te dei".
Dou um grito. Todos no carro olham para mim assustadíssimos.
A U G U S T O
disfarçar sexualidade só não é mais difícil do que tentar passar batido com um olho roxo no meio da cara.
é manhã de domingo, quase nove da manhã, e minha mãe está sentada na beira da cama esperando eu dizer para onde fui durante a madrugada. meu olho ainda dói, e, fora o fato de estar morrendo de sono e com as pernas meio doloridas, eu quero sumir. desaparecer.
- eu não vou sair daqui enquanto você não me contar como arrumou isso - ela aponta pro meu rosto - feliz? conseguiu me fazer perder o culto hoje.
- eu fui numa festa - digo, porque ela já está há mais de meia hora plantada em cima de mim - pronto, agora pode ir.
- festa? - ela franze o cenho - augusto, que tipo de festa era?
- festa. bebida. adolescentes. jovens. esse tipo de coisa. uma festa normal.
- você não saiu daquela vida, né? - ela cruza os braços, decepcionada - nem depois do batismo você teve a coragem de parar com...
- com o quê? - eu reviro os olhos. não aguento mais - olha, cansei. cansei do seu joguinho. você já sabe que eu sou gay, então a gente não precisa mais fingir. você não precisa fingir que nada aconteceu.
- eu não esqueci - minha mãe faz cara de nojo - eu queria poder esquecer, mas a minha mente não deixa. só Deus sabe o quanto eu queria poder apagar, rasgar aquela imagem da minha mente.
- também queria poder esquecer as coisas horríveis que você disse - digo, meio firme, meio triste.
- não sei o que fazer com você, sinceramente. só Deus.
- acho que você já orou o suficiente. e eu também. e olha só no que deu.
- não funciona porque você não quer que funcione. Deus tem poder para curar tudo. Tudo.
tenho vontade de chorar, mas me seguro. não posso demonstrar fragilidade. não posso deixar que ela pense que ainda estou perdido. ela precisa enxergar isso. enxergar que mudei. e que agora tenho plena certeza de quem sou. certeza de tudo.
- pode dar adeus - ela diz, já de pé, pegando o celular em cima da minha mesa do computador.
passamos o dia em silêncio. depois do almoço vou até a casa de yan, mas, com a namorada lá, ele não me dá tanta atenção. está claramente chateado comigo. pelo olho. por eu ter saído na madrugada, coisa que ele odeia. por tudo. só depois de um tempo, quando larissa nos deixa a sós para ir ao banheiro, ele pergunta o que aconteceu. conto tudo resumidamente e ele põe a culpa em gabriel. quando lari volta, fingimos que nada aconteceu.
e é isso. o meu melhor amigo se resumiu a isso em minha vida.
o culto hoje à noite é "mini" vigília, o que significa morrer de tédio até meia-noite. na hora em que todos estão cantando, yan cumpre o que prometeu: ele tira do bolso o chip que pegou do meu celular. o celular dele não tem crédito para outras operadoras senão a dele, então juntei o útil ao agradável, já que o número de gabriel está salvo no chip e eu não sabia de cor, evidentemente. nem o meu próprio número eu sei direito, pra falar a verdade. a ideia, na verdade, é deixar ela pensar que é realmente mais esperta que eu. foi assim que sobrevivi durante todo esse tempo. aliás, não gosto de dar outros motivos a ela para pensar o pior de mim. acho que ser gay já é o suficiente para ela me odiar.
nunca usei mensagem de texto, mas sei que meu plano dá direito a sei lá quantos mil SMS para todas as operadoras, então é o que faço. ao estilo antigo, falo com ele.
gabriel: eu não estou acreditando!!!!! :0
eu: foi sem maldade nenhuma. é sério. você precisava de um banho. fiquei com medo de acabar acordando alguém, mas não teve jeito. pelo menos deu tudo certo no final. você disse cada coisa engraçada, tinha que ver.
gabriel: meu deus do céu eu to com muita vergonha. me enterra †⚰
a música na igreja acaba, mas eu demoro para perceber. paro de sorrir. olho para a frente e minha mãe está orando no microfone. yan sussurra um "já chega", mas eu viro a cara. depois de tirar o meu chip do celular dele e devolvê-lo, simplesmente me levanto. nesse momento, minha mãe finaliza a oração e abre os olhos. encaro-a por um momento e finalmente me viro, caminhando em direção à saída do local. chega dessa p***a.
saio no meio do culto sem nem olhar para trás.