S A M U E L
O nome dele é Bruno. O que é bom, visto que não existe um Bruno hétero. Eu nunca vi, pelo menos. Clara me deu certeza de que no final de semana me arrumaria uma oportunidade de ficar mais próximo do meu novo vizinho, então, de quarta até hoje agi naturalmente: disse apenas 'oi' nas duas vezes em que passei por ele casualmente dentro do condomínio. Logo depois eu sempre gritava "gostoso" mentalmente, claro, mas ninguém precisa saber. Ele vai acabar sabendo, de qualquer jeito, se Deus quiser. De qualquer forma, a semana foi tranquila, tirando o que aconteceu com a Dani por causa daquele maldito fofoqueiro do Twitter, claro. Mas ela já está bem, então isso que importa.
Hoje, quase seis da tarde de sábado, mando mensagem para Clara mais uma vez. Ela me deve um date, não posso deixar passar batido.
eu:
cadê você, sapatão?
tô bem bonitinha aqui
esperando minha transa de sábado à noite
porque eu sempre transo sábado à noite
clara sapatão:
Me poupa viado
vamo respeitar aqui, vamo?
Já tá tudo certo sobre a nossa saída!!!
Mas ainda não entrei em detalhes sobre vida pessoal com ele
amor? tá na cara
disse oi duas vezes e foi o suficiente
Fato. Se Bruno fosse lá da escola estaria na lista gay em primeiro lugar, sublinhado e com milhares de ponto de exclamação!!!!! É uma pena ele estar aqui justamente para fazer faculdade, mas ok, até porque gosto de caras mais experientes.
Esperei pelos bonitos com minha mãe, assistindo ao nosso sexto filme da nossa maratona LGBT. Ela mesma propôs que fizéssemos isso, porque há duas semanas ela se tocou de que 99% dos filmes desse tipo que ela já havia visto não passavam de migalhas patéticas (ou eram só péssimos mesmo). Enfim, um anjo sem asas.
O de hoje, já nos minutos finais, é "Esteros", um filme argentino. A minha mãe adora cinema argentino, então pra ela foi juntar o útil ao agradável; a mulher é estranha.
- Acho que eu não entendi se ele é gay ou bi - ela diz enquanto um dos garotos principais tem uma discussão com a ex. - Ou eu só sou leiga demais no assunto?
- Eu estava pensando exatamente nisso!!! - falo, e ela ri.
Depois do filme não demora muito até Clara me ligar e pedir para encontrá-la com Dani e Bruno no estacionamento do condomínio. Quando chego, os três estão do lado de fora do carro me esperando. Ele está ridiculamente lindo de jaqueta jeans, barba por fazer e bermuda preta. Nós nos cumprimentamos formalmente até demais e entramos no carro.
A primeira coisa que descubro sobre ele é: o carro dele é movido à música. Tipo, literalmente.
- Começou a palhaçada - Dani, no banco do carona, resmunga.
- Calma, calma, calma - ele ri, deslizando o dedo sobre a tela do celular freneticamente - Esse carro não sai do lugar enquanto não encontro a música perfeita.
- Coloca Rihanna, por favor - Clara diz.
- Você é tipo o Baby Driver, então? - tomo coragem de falar com ele algo sem ser 'oi'.
- Exato - ele se vira, sorrindo, e então pisca pra mim. Eu aperto a coxa de Clara, e ela ri. - Aqui! Pronto, achei - ele diz, e então a música começa a tocar por todo o carro.
Começa a tocar Nights With You, e, putz, agora eu entendi o que ele quis dizer sobre a música perfeita. Pontos, muitos pontos comigo.
Minutos depois, estamos num bar conhecido. Fica em uma esquina da praça não muito distante do Colégio Nobre. Conhecia de vista. Ele é meio rústico, talvez meio hétero demais e sempre tem alguém cantando músicas hétero demais ao vivo. Hoje, por exemplo, tem um cara cantando algum sertanejo cafona que desconheço. É a minha primeira vez aqui e tudo é novidade, o que é ótimo. Nada como falar m*l de alguma coisa pela primeira vez.
- História, né? - pergunto sobre a faculdade já depois de duas cervejas. As meninas estão entretidas em alguma coisa no celular da Dani.
- Isso. Loucura, eu sei, eu sei.
- Não, não. Quer dizer, acho que fazer qualquer curso na faculdade já é uma loucura em si.
-Então você não vai fazer faculdade? - ele tomba a cabeça, o que acho fofo.
- Nunca disse que era normal - falo, e ele ri.
O tempo passa e flertamos menos do que eu imaginava. Esse garoto é um grande ponto de interrogação, na verdade. Em um minuto eu acho que ele vai, tipo, pedir meu telefone, e no outro eu acho que ele tem algum namorado secreto na internet. Sei lá. Fanfiqueira do jeito que sou, começo a imaginar uma história mirabolante dele com um ex mega tóxico, e, por isso, agora ele tem medo de se entregar facilmente a qualquer pessoa. Só pode ser isso.
- Então o bebê também está no Ensino Médio? Eu me sinto até m*l de estar bebendo na frente de vocês.
- Estamos felizes com nossos sucos - Dani diz, e eu desejo morrer.
- É que eu faço academia - digo, o que não é mentira.
- E não tem um dia do lixo? - ele me pergunta, sorrindo, o que me faz sorrir também.
- A única bebida r**m que esse garoto toma é Mineirinho - Clara comenta, e ele ri.
- Ninguém me respeita mais - falo olhando para ele.
- Ah, eu gosto de Mineirinho. Sério mesmo - Bruno, mais uma vez, pisca para mim.
O que só pode significar uma coisa: a minha teoria sobre não existir um Bruno hétero estava certa. Quero dizer, quando a gente vai se beijar mesmo?
No carro, voltando para casa, Clara troca mensagens comigo mesmo estando do meu lado.
clara sapatão:
Ele é meio baixo, né?
Mas com ele você não pareceu se importar muito com altura, risus.
eu:
O que eu posso fazer?
Não existem gays com mais de 1,89.
clara sapatão:
A solidão do gay passivo alto demais.
eu:
EXATO!!!!!!!!!!
Quando chego em casa, às onze, meu pai está acordado vendo TV na sala. Eu o cumprimento de longe, mas ele parece concentrado no filme, então passo rápido para não atrapalhar. Enquanto bebo água na cozinha, ele me chama.
- Achei que estivesse concentrado no filme - acabo dizendo.
- Sua mãe disse que foi sair com o garoto novo do condomínio - ele diz, me chamando pra sentar ao lado dele.
- Ela tá no quarto?
- Sim. Mas não fuja do assunto.
- Não foi bem isso. É só um primo distante da Clara e da Dani. A gente deu um passeiozinho de carro no centro. Ele quis parar num bar. No Kevin's.
- Sua mãe sabe que você bebeu?
- Eu não bebi - sorrio.
- Não sei. Eu nunca sei de nada da sua vida. Sua mãe que sabe.
- Ai meu Deus. Ciúmes? - falo, balançando a cabeça.
- Não, nem um pouco - ele balança a cabeça também - Só queria saber porque ninguém me chamou para a grande maratona de filmes gays - ele diz, apontando pra TV.
Eu nem havia notado que ele estava assistindo Com Amor, Simon, porque meu pai assiste qualquer coisa em um volume absurdamente baixo. É inevitável rir.
- Bom, é... Putz - digo, o que significa que não sei o que dizer.
- Sua mãe e eu não estamos muito bem, mas eu não quero perder momentos bons que incluam você. Isso é injusto.
- É só que... não achei que fosse querer ver. Sinceramente. Não porque são gays, mas porque não existe simplesmente um filme de ação com um protagonista gay. Sei lá. Infelizmente não pode existir um Duro de m***r assumidamente homossexual.
- Tá vendo o que eu faço por você? Estou assistindo um filme adolescente. Sem armas. Sem explosões. Sem gente morrendo. Sem zombies!
- E com gays - completo.
- É - ele diz - Com garotos como meu filho.
Ele me abraça, o que é algo incomum. Esse tipo de coisa me faz sentir como um filho merdinha, porque dificilmente faço esse tipo de coisa com os meus pais. Sei lá, mas quando você é um garoto gay sortudo com pais diferentes da maioria dos outros garotos gays, tudo parece cair sobre você. Como se eu precisasse ser grato o tempo todo. Não que eu não seja, não é isso. É só que muitos garotos que eu gostei já me fizeram sentir assim; meus problemas sempre pareceram pequenos demais diante dos deles, porque tudo que eles queriam era ter pais como os meus, simplesmente.
De madrugada, logo depois do fim do segundo filme do dia, Bruno simplesmente me liga. Que tipo de pessoa com menos de 45 anos ainda usa a função LIGAR?
- Estava olhando o f*******: - ele começou, o que o fez parecer ainda mais velho - tem uma festa rolando aqui perto. Quer ir?
- Tipo, agora agora?
- Agora, agora - ele ri - É perto. De carro, claro. Tá dando só alguns minutos de carro no Maps.
- Já sei do que você tá falando. Tem até um amigo meu da escola por lá - disse, mesmo Gabriel não sendo ainda exatamente um amigo.
- Te encontro em dez minutos lá no carro, ok?
E lá estávamos nós mais uma vez. A cerimônia de Baby Driver se repetiu, claro. Levou uns dois minutos até ele encontrar a música perfeita, e era do Zayn.
E foi assim que eu dei pela primeira vez dentro de um carro.