eu acabo com você (parte 2)

1990 Words
G A B R I E L Acordo com uma mensagem de Laura na quinta de manhã. "Voltaram com o tal twitter. Postaram uma m***a sobre uma garota da nossa sala. Sobre o namorada dela, na verdade. Acho que você vai voltar pra escola no dia certo." "Que m***a", é tudo que eu digo, mesmo sabendo que ela tem razão. Parece h******l pensar assim, mas, talvez com outra pessoa na mira as pessoas se esqueçam de mim. O meu sumiço e o bloqueio da antiga conta evitaram de o assunto tomar grandes proporções, o que é bom, visto que meu pai não pode nem sonhar sobre seu filho ser gay. Sei que alguém ainda deve ter um print ou outro do tuíte por aí (Laura disse que postaram no grupo do f*******: do segundo ano), mas acho que não preciso me preocupar tanto, pelo menos por enquanto. Enquanto Rafael dirige à caminho do inferno, falo com Augusto ao telefone, o principal responsável pela minha coragem de voltar para aquele lugar. Laura me ajuda, mas só ele sabe dizer o que eu realmente preciso ouvir, porque ele entende exatamente o que estou sentindo. Tento ser discreto ao máximo para o motorista não desconfiar de nada. Para ele, estou falando com uma garota no telefone. Trocar pronomes não é lá um grande problema para gays. - Então, é isso? Não vai ter nenhuma piadinha? Ninguém fazendo uma cena escrota no refeitório? - falo com Laura quando estamos em nossa última aula do dia. - E você tá reclamando? - ela me olha, indignada - Olha, acho que você devia agradecer uma pessoa em específico. Um garoto do segundo ano. - Mas não foi no grupo deles que postaram os prints sobre mim? Aqueles merdas que se fodam, sinceramente. - É, foi lá - Laura pega o celular e abre o f*******: - Mas teve um garoto que fez um textão acabando com todos eles. Olha isso - ela me entrega, e eu passo o olho rapidamente sobre a postagem. - Samuel Pelloni. Quem é esse cara? - A bio dele no Twitter é "super-herói dos LGBT's" - ela diz, rindo. - Um tal de Tomás comentou um textão nesse post dele. - É. Ele parece ser legal também. O post é de terça, várias pessoas comentaram. Fiquei feliz por isso. - Nem só de babacas viverá o Universo. Nos últimos dez minutos da aula de Inglês, tratamos de investigar a vida desses super-gays nas redes sociais. Eu sigo, peço solicitação de amizade, enfim, tudo que tem direito. Quando o sinal toca, fico aliviado. Algumas pessoas da minha turma até vieram falar comigo, mas apenas para perguntar se eu estava bem - até mesmo a professor gostoso de matemática me procurou; fiquei metade feliz, metade triste por isso, porque não esperava que isso tivesse chegado até os professores. Mas, considerando tudo, não posso reclamar muito. A segunda vítima do (agora) @ffofocasnobres, uma menina que falta mais do que vem e nunca falamos, age naturalmente dentro de sala. Ela aparece até feliz demais, na verdade. O traídor em questão, namorado dela, é do terceiro ano, então não foi tão difícil dela fingir que ele não existe. Aliás, acho que ninguém da nossa turma conhece ele de fato. Eles provavelmente se conheceram fora daqui. Laura e eu não fazemos ideia. Após sermos liberados, Laura e eu vamos para a sala de computadores da escola. A razão principal é que estamos com saudade de fofocar pessoalmente e não querermos voltar para casa, claro, mas aproveitamos o tempo na frente das telas para começarmos um slide para o seminário de biologia que ocorrerá em alguns semanas. Ficamos quase trinta minutos sozinhos, livres para falarmos (quase) tudo que quisemos quando ele, o meu herói, entra no laboratório. Mas ele m*l presta atenção em nós, porque está com duas amigas, e uma delas está chorando: Dani, a garota da nossa sala que foi traída pelo namorado. - Eu juro que vou m***r o filho da p**a que está por trás do fofocasnobres. - Como você sabe que é homem? - Tá de brincadeira? - ela eleva o tom de voz, e o trio olha para nós rapidamente - Só pode ser um macho escroto postando essas coisas. - Mas a difamação foi contra o namorado dela. - É, mas quem acaba chorando no final? - Laura diz, estarrecida. - O idiotinha do namorado dela tá ótimo. Nada mudou pra ele. Você sabe como funcionam as coisas. - Você tem sempre razão - assinto, e ela sorri. De repente, quando a situação com Dani já está sob controle, recebo uma mensagem dele no twitter. "Tá melhor?" "Graças a você :)", respondo a ele, "Obrigado por tudo mesmo. Que Gaga te pague + emoji de coração". Ele manda emojis de risada, depois vai embora junto com as amigas. Nós conversamos ainda mais depois durante a tarde inteira. Sam, como gosta de ser chamado, é um cara legal. Depois de quase duas horas, vamos embora. Laura e eu discutimos bastante sobre quem pode estar por trás dos tuítes difamadores, mas não chegamos em grandes conclusões. Tá, nós sabemos que, muito provavelmente, é uma pessoa da nossa sala, já que os dois primeiros tuítes foram sobre mim e Dani, mas tudo parece muito sem sentido. Quer dizer, é o primeiro ano, a maioria m*l se conhece. Laura e eu somos exceção porque estamos aqui desde o ensino fundamental, mas pelo menos metade da turma só chegou aqui agora, no ensino médio. Como saí depois do horário, Renato acaba não tendo disponibilidade para me pegar, então vou de Uber para casa. A escola fica em uma esquina praticamente impossível de estacionar, então atravesso umas duas ruas para pedir o carro pelo aplicativo em um local mais calmo. - Viaaaaaaaaado! - três garotos que nunca vi gritam em minha direção, passando do outro lado da rua, usando o mesmo uniforme que eu, rindo. É, o dia não poderia ser perfeitamente normal. Dois minutos depois, pelo menos, estou no uber. Dez minutos depois, estou na minha cama, chorando por uma fração de segundos que conseguiu me desestabilizar por completo. A U G U S T O tenho um grande plano para este sábado. gui, gabriel e eu vamos à uma festa gay no centro. yan não deu a mínima para o meu convite, mas, bem eu meio que já esperava. foi guilherme quem mandou eu chamar apenas por educação, porque tinha certeza de que ele não iria querer; "ele não gosta de mim", argumentou ele. não está nenhum um pouco errado. o grande lance é conseguir tirar gabriel de casa. ele está bem melhor que antes, mas está com medo de fugir no meio da noite, e eu entendo, mas ao mesmo tempo quero muito que ele consiga se divertir. quero muito conseguir me divertir com ele ao meu lado, acima de tudo. de qualquer forma, eu também vou ter que "fugir", então estamos empatados. eu até poderia pedir a minha mãe, inventar uma mentira ou sei lá, mas prefiro evitar preocupações. volto antes dela acordar e tudo ficará bem. guilherme não faz o tipo de bom aluno. ele já tem dezenove anos, fazendo o terceiro ano do ensino médio pela segunda vez, mas, graças a deus, gui também tem um carro - na verdade o pai dele que tem um carro, e ele uma carteira de motorista, o que já facilita muito nossa vida. o tio guilherme (pais criativos!!) é super legal, então ele sabe basicamente de tudo que o filho faz. existem gays com sorte, por incrível que pareça (e pais héteros que não são babacas). Nós paramos na esquina da mansão do prefeito e o nosso Classic 2010 preto parece humilde demais para estar aqui. olho para o relógio no celular, que marca meia-noite e quarenta e cinco, o horário exato combinado com gabriel. com dois minutos de atraso, ele acaba parecendo. - vocês por acaso roubaram esse carro? - ele diz quando senta no banco traseiro e fecha a porta. - faria diferença pra você? - guilherme brinca. - ah, não - gabriel ri - provavelmente mais da metade do que tem na minha casa foi comprado com dinheiro roubado, então... - cara o seu pai é um prefeito de m***a, desculpa. - desculpas pelo quê? Meu pai é uma m***a em todos os sentidos! - guilherme fala, e os dois riem. não é que eu não odeie o prefeito dessa cidade, mas é difícil pra mim falar sobre pai porque eu nunca tive um. acho que a gente sempre valoriza mais o que não temos, afinal. gabriel nota meu silêncio e me pergunta se está tudo, e eu digo que sim. ligo a rádio no carro e logo a animação se instala em todos nós. será uma noite e tanto, espero. chegamos quase uma e meia da manhã. a festa começou dez, então já tá bem lotado. o espaço é pequeno, mas aconchegante. há luzes coloridas, música pop boa e, bom, gays. tá tudo ótimo. gabriel está meio tímido, o que é okay, já que a sua primeira vez. não conversamos muito sobre o que faríamos quando chegássemos aqui, somente sobre o como chegaríamos. - aposto que você nunca viu tanto v***o bonito junto - guilherme grita no ouvido dele, mas eu ouço. - ah, já sim - ele diz, e nós rimos. gui puxa gabriel até o bar. ele precisa beber, disse ele. quando me dou conta, perco os dois de vista e um garoto meio m*l-educado vem me beijar, do nada. eu não o afasto, mas torço para que gabriel não me veja. não que eu tenha obrigação de só ficar com ele, a gente nunca nem ficou, mas, não sei, sinto que ele ficaria chateado. eu quero ficar com ele, quero mesmo. quando eles voltam, eu estou livre. nós brindamos com as cervejas pagas por gui e dançamos um pouco. - p**a que pariu - gabriel grita. depois, se esconde atrás de mim, com as mãos em meus ombros. - o quê? - gui pergunta. - quem você viu? - digo pondo minha mão sobre a dele. - eu... putz. é o garoto. aquele garoto que me chamou de v***o na quinta. - típico - meu amigo revira os olhos - me diz quem é que eu resolvo isso agora. - ele viu você? - pergunto, e gui balança a cabeça. - mas ele vai me ver - guilherme solta seu fabo de cavalo e joga o cabelo pra trás. nós rimos, mas eu contenho gui. já às três da manhã, gabriel está bêbado. gui se conteve porque precisa nos levar pra casa, mas eu o perdi de vista desde de que ele beijou um certo garoto. eu não bebi por medo de ter que cuidar de qualquer um dos dois, mas principalmente gabriel, que, neste momento, já não se aguenta mais em pé. ele não para de repetir que o pai dele vai matá-lo, então eu o levo para um canto mais vazio possível. depois, quando ele diz que provavelmente vai vomitar, vamos para o banheiro. ele está realmente muito m*l, o que é péssimo. quantas garrafas esse garoto tomou? estou o segurando para que possa vomitar dentro do vaso. ele está chorando, o que parte meu coração. tecnicamente, tudo isso é culpa minha, então se alguma coisa r**m acontecer eu simplesmente não ficar m*l por muito tempo. depois de alguns minutos, gabriel parece melhor. estamos sentados no chão de uma das cabines quando ele diz que queria ter me beijado essa noite, mas que agora era tarde demais. - cara, se você contar pra alguém que me viu aqui, eu acabo com você, entendeu? - o tal garoto da escola de gabriel aparece na porta da nossa cabine, do nada. eu tomo um susto, mas me recupero rápido. - ah - gabriel começa a rir, e então olha para ele - o... viaaaaaado!
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