eu acabo com você (parte um)

1903 Words
S A M U E L Gabriel não apareceu na escola, o que me impediu de enfiar a p*****a em um homofóbico hoje. Uma pena. Enquanto eu não pago de super-herói dos LGBT's, me concentro na chegada de meu novo vizinho de condomínio, que chega amanhã. Ele é parente distante de Clara e Dani, o que significa chances significativas de ser um cara legal. Quando digo legal, quero dizer gay, ou no mínimo bi. Quero dizer legal a ponto de dar uma chance de beijar a boca dele, basicamente. Depois da minha rotina normal de terça-feira - escola, almoço com minha mãe e academia por duas horas -, estou livre durante a noite para ficar de bobeira. Chamo a meninas para um milkshake na sorveteria do condomínio, mas elas estão ocupadas. Só então me lembro de que peguei o número de Tomás e, bom, parece uma boa hora para dizer oi. Enquanto espero por uma resposta, abro o twitter, e, depois de me distrair por uns dez minutos, recebo finalmente um refresco: uma notificação do aplicativo dizendo que a minha denúncia foi feita e o usuário @fofocasnobres foi banido da rede. A ideia foi do próprio Tomás, aliás, e era o certo a se fazer. Agora é observar e torcer para que o engraçadinho homofóbico não volte de forma sutil, como @fofocasn0bres, por exemplo. Uma hora se passa, mas não recebo resposta alguma, então decido sair sozinho. Já está quase na hora dos meus pais chegarem do trabalho. Do mesmo trabalho, aliás. No geral, ultimamente, eles só sabem brigar quando estão em casa porque precisam manter a linha profissinal na frente dos colegas de trabalho, então, quando finalmente estão livre deles, já viu. Meus pais são advogados e praticamente cometeram suicídio ao ter a brilhante ideia de trabalharem juntos, no mesmo escritório. Um completo desastre. Eu não aguento mais, eles não aguentam mais. Eu fico dividido, porque, ao mesmo tempo que quero eles mais felizes do que estão agora, desejo os meus pais juntos. Já no shopping, estou com um milkshake do Bob's enorme pensando se vejo ou não A cinco passos de você pela quarta vez. Parece maluquice, mas não tem mais nada que preste em cartaz pro meu gosto. Se for pra pagar ingresso e não chorar, eu nem quero. - Parece que esse é o nosso ponto de encontro - Tomás aparece do nada me dando um susto, e eu quase derrubo meu Milkshake. - Garoto! - ponho a mão no coração, e ele ri - Por que você não me respondeu? - Ah, eu meio que estava em um encontro aqui. - E onde... - eu iria dizer "ele" porque torço para que todo mundo seja gay (vide a Lista), mas acabo sendo atropelado por Tomás. - Ela meio que me deu um bolo - ele lamenta, mas sem parecer dramático. - Ah - falo, apagando Tomás mentalmente da minha lista de Possíveis-Gays. - Já estou acostumado, então não se preocupa. Semana passada um garoto ficou uns dez minutos comigo dentro do cinema e aí recebeu uma ligação do nada. - E disse que precisava ir embora pois o avô havia parado no hospital - completo, e nós rimos - Foi m*l, já usei essa desculpa. Enquanto escrevo o nome dele na minha Lista Bi, nós entramos na fila do BK para pegar uma promoção qualquer para duas pessoas. Eu nem estou com tanta fome e não deveria comer besteira pelo segundo dia consecutivo, mas não quero fazer desfeita e ser o tipo de companhia que filha olhando alguém comer. Desde que minha mãe não saiba e eu malhe meia-hora a mais amanhã, tudo vai ficar bem. - Já viu A cinco passos de você? - pergunto enquanto coloco ketchup em uma batata, agindo normalmente, como se essa pergunta não fosse definir o futuro da nossa amizade. - Não - ele responde. Decepção. - Tem uma sessão em vinte minutos - sorrio - Então, se você me achou legal e gostaria de manter uma bela amizade comigo, por favor, vamos comprar nossos ingressos agora mesmo. - Ok. Eu vou chorar? - Aí está a grande questão. Se você não chorar, tem alguma coisa no dura e oca no lugar do seu coração. - Então, além de receber um grande bolo, você ainda vai me fazer chorar hoje? - Tomás joga uma batata em mim, mas eu me defendo - É, parece o ínicio de uma bela amizade mesmo. Nós terminamos nossos lanches e logo depois estamos dentro do cinema, quase na última fileira. A sessão está vazia, o que é ótimo. Eu odeio quando está lotada, porque a chance de ter um i*****l mexendo no celular perto de mim é grande, e eu não consigo ficar calado. Graças a Lorde, hoje a paz está garantida. Quando certo personagem e eu estou praticamente me segurando para não chorar de novo (tenho vergonha de chorar nas frente de quem não tenho intimida), sinto a mão de Tomás repousar sobre a minha. Congelo, e as lágrimas secam automaticamente. Dei a entender que isso seria um encontro? Quando está tocando uma das músicas tristes da trilha sonora maravilhosa, ele coloca a mão em meu rosto, acariciando minha bochecha. Nossos lábios se encontram, e aí é que me dou conta de que realmente não quero aquilo. Ou quero? - Desculpa - digo assim que me afasto - Eu acho que te fiz entender tudo errado. Me desculpa mesmo. A reação dele faz eu me sentir a pior pessoa do mundo. O que eu acabei de fazer? - Eu acho que preciso ir ver o meu avô no hospital - Tomás se levanta, e, sem olhar pra trás, sai da sala de cinema vazia. Fico até o final do filme e choro pela quarta vez, mas não pelo o que está se passando na tela, e sim por tudo que está acontecendo dentro de mim. droga. Y A N Quarta é dia de psicólogo. Ele também não sabe que sou gay. A consulta é de graça, dentro da universidade que meu irmão estuda, então não me sinto completamente confortável para falar sobre tudo com Rafael. Nem confio nele direito, o que é normal, já que esta é apenas a minha quarta vez aqui. Estou com medo de não conseguir me segurar hoje. A minha cabeça está a mil por hora, e os meus sentimentos por Augusto estão completamente descontrolados. Eu realmente não sei mais o que fazer, mas também não sei se o psicólogo pode ajudar. E se ele for b****a, tipo o meu outro-eu? Não sei. Sei que eles costumam ser imparciais sobre isso, ainda mais num lugar como esse, mas, enfim. A minha forma auto-destrutiva de ser está acabando comigo. "Estou apaixonado por uma garota" conto a ele no meio da consulta após um longo silêncio. "A sua namorada?" Rafael pergunta. "Não" digo, me sentindo e******o "É outra garota". "Não gosta mais da..." "Larissa" completo "Não, não é isso. Eu gosto dela. De verdade." "Entendo. Como você se sente sobre isso?" "Eu me sinto... um lixo. Um verdadeiro lixo" falo, mas sobre estar mentindo para ele. sinto-me um lixo por não conseguir falar sobre ser gay com absolutamente ninguém. Começo a chorar. Choro de soluçar, por minutos, e Rafael se levanta de sua cadeira para me dar alguns lencinhos. Depois ele se senta ao meu lado, de pernas cruzadas, no sofá laranja da sala. Ele está alisando a própria barba, olhando para mim, torcendo para que eu diga algo. Vejo isso mesmo com os olhos completamente vermelhos e embaçados. "Olha, Yan. Só queria que você soubesse que pode falar sobre qualquer coisa comigo. Qualquer coisa mesmo, tudo bem? Mas eu não vou te obrigar a falar" e então ele retorna para sua cadeira preta. O relógio em meu pulso diz que só tenho mais cinco minutos aqui dentro, então me despeço. Ainda não foi dessa vez, mas cheguei mais longe do que imaginei; para um garoto que sempre ouviu que homem não chora, o que acabou de acontecer é um ato bem significativo. Eu nunca havia chorado na frente de alguém desde o enterro de minha mãe, há quase dez anos atrás. m*l me lembro do dia, mas me recordo das lágrimas. Vou para casa sem passar no bloco da faculdade no qual meu irmão estuda, pois não quero que ele veja a minha cara de choro. Já tenho que encarar perguntas demais em casa pelo simples fato de decidir fazer terapia. Preciso correr de problemas que podem ser evitados. Quando chego em casa, Augusto está praticamente esperando por mim, porque foi só o tempo de eu girar a chave e empurrar a porta para eu ouvir o barulho da dele se abrindo. "Vai desistir da escola ou o quê?" ele pergunta. Terceiro dia fugindo do meu melhor amigo. Eu sou uma vergonha "O Gabriel eu até entendo, mas você?" "Hoje eu perdi a hora. Acho que o despertador não tocou" minto. "Toma cuidado para a diretora não acabar ligando pra cá e seu pai atender o telefone." "Amanhã eu vou, prometo." "Melhor mesmo" ele se senta no sofá de dois lugares de minha casa "Tenho que te contar sobre ontem." "Ah, é" finjo muito m*l estar interessado, acho "Foi tranquilo conseguir fugir da casa do prefeito?" "A casa tem várias saídas" Augusto ri "Mas foi bem legal, tirando a pequena parte do desespero. Gabriel é interessante.'' Mais que eu?, a minha cabeça pensa. "E vocês...?" eu nem acredito que estou perguntando isso. "Não. Ele não faz do tipo acelerado. Tô no tempo dele" diz, sorrindo. Ele realmente parece apaixonado. Por favor, alguém me dá um tiro. "Aconteceu uma coisa meio chata com ele" Augusto continua quando percebe que não vou dizer nada "Alguém da escola do Gabriel criou uma conta de fofocas no twitter e fiz um tuíte ofensivo sobre ele. Expondo ele, sabe." "Que chato" comento, fingindo preocupação. "É, bastante. Ele ficou muito m*l. Você sabe como é que, família da igreja, etc. É o mesmo caso que o meu" eu tento não desviar o olhar, mas falho "Só que ele tem pai, então é meio que pior, né? Mas a conta já foi deletada. Nós denunciamos." Nossa conversa é interrompida por meu pai, que chega do trabalho no mesmo horário de sempre. Nunca fiquei tão feliz em vê-lo. Mais tarde, quando digo que vou ao shopping apenas para acompanhar minha namorada, que quer comprar uma calça nova, Augusto se oferece para ir junto. Como se já não fosse r**m o suficiente, ele chama Guilherme, que Larissa tanto gosta. O tempo passa, eles riem e eu apenas observo. É como se eu estivesse vivendo no piloto automático, definitivamente. Eu espero que a terapia consiga resolver isso. Ou eu mesmo, também. Sei que não vou ser "consertado" do dia para ontem. Nem sei se é uma boa escolha de palavra para este contexto, considerando a minha situação atual. Só sei que quero ficar bem, melhor do que estou agora, independente do resultado final. No meio da madrugada, acordo com pesadelos perturbadores. E, praticamente em todos eles, eu termino com os meus lábios no dele. Eu simplesmente queria poder abrir a minha cabeça e arrancar Augusto do meu cérebro. Como não posso, choro baixinho para que meu irmão não acorde na parte de cima de nossa beliche. Acho que estou ficando bom em chorar na frente dos outros, pelo jeito.
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