Y A N
Inventei de fugir de Augusto. Estou com vergonha de mim.
Larissa e eu nos garantimos nas matérias de hoje, então tudo acabou se encaixando. Nós passamos a manhã inteira no Parque Luz, apenas deitado em uma canga sobre a grama, namorando. Meio que estou me sentindo culpado por ter beijado lari pensando nele. Quis tentar perguntar sobre o tal encontro ontem, mas não consegui. Nem me dei o trabalho de mandar mensagem depois do culto. Estava tomado de raiva. Estou tomado pela raiva.
Depois de uma manhã relativamente tranquila - tirando os últimos minutos onde um amigo gay muito bonito de Lari nos encontrou -, esbarramos com Augusto e seu amigo, Guilherme. Eu simplesmente não suporto esse v***o. Para piorar, fez meu amigo começar a fumar junto com ele. Eu não chamaria esse tipo de pessoa de boa companhia.
"O culto foi bom?" pergunto enquanto almoçamos em minha casa com meu pai, mas me sinto um e******o logo em seguida. eu queria perguntar tudo, menos isso.
Ele semicerra os olhos para mim, e eu me odeio. Eu nunca me odiei tanto, tanto quanto me odeio nesse momento. Quero perguntar para ele como foi com o tal Gabriel. Quero gritar, quero saber se ele o beijou. Quero saber quem tomou a atitude. Quero saber se o beijo do Gabriel é bom.
Mas eu não digo nada, óbvio. Covarde, eu apenas o assisto comer como um desesperado e correr para casa logo em seguida.
"Que bicho mordeu ele?" meu pai pergunta enquanto recolhe nossos pratos da mesa. Não digo nada. Nem quero.
Estou... cansado. Cansado de viver a minha vida. Dormir e acordar e continuar na mesma situação. Quando esses pensamentos vem à tona, o resultado é sempre o mesmo: a minha mente começa a trabalhar contra mim. Um dia inteiro de autodestruição.
Tenho medo do que posso ser capaz de fazer quando estou em um dia como esse. Nunca termina bem, nunca. Então, com o pouco de força que me resta, me forço a levantar da cama no meio da tarde e ir até Augusto.
Chego e a porta está entreaberta. Bato duas vezes antes de passar, mesmo já sendo praticamente de casa, então eu vejo com o celular no ouvido.
"Oi" ele diz depois de despedir ao telefone "É... eu vou sair. Você quer alguma coisa?"
"Ah, sim, tudo bem. Depois nos falamos" eu quero perguntar para onde vai, mas as palavras simplesmente não saem.
"Você quer ficar aqui? O Xbox ainda tá ligado"
"Tá"
"Se sair, não esquece de trancar tudo" ele avisa enquanto caminha até a porta.
E vai embora.
G A B R I E L
- Desculpa ter sumido.
Fingir que estava passando m*l foi a pior desculpa para não ir à escola hoje. Mesmo meus pais não estando em casa, preciso enganar Kátia, a empregada, para conseguir fugir e encontrar Augusto, o que não é tarefa fácil. Ela é relativamente nova, então ainda não deu tempo da mulher me amar e odiar os patrões. Penso em Renato, o motorista, para me dar cobertura, mas não sei. Ele me pareceu estranho ontem. Não que ele seja meu amigo, mas sempre costuma ser simpático. E odeia meus pais, o que ajuda também.
- E se eu for aí? - Augusto me pega de surpresa.
- É... não sei. Não sei mesmo.
- Tudo bem. Desculpa. Nada a ver isso.
- Não, até que não é má ideia - digo, e minhas mãos estão tremendo - Mas você teria que vir, tipo, agora. Meus pais chegam em duas, três horas, lá pras sete horas.
"Adivinha quem está vindo aqui???" digito para Laura, completamente surtado, assim que encerro a ligação. "É o quê???????". "Eu acho que fiz besteira mas eu estou amando essa adrenalina?!?!". "Poc Aventureira", ela digita, "Emoji de menina sorrindo + meninas dançando + garoto-coração-garoto + milhares de corações".
Corro pro banho logo em seguida. Eu preciso estar no mínimo apresentável para receber um semi-deus em casa. Passo shampoo, hidrato o cabelo (finalmente!!) e passo hidratante, perfume e tudo que existe para deixar alguém cheiroso.
Pouco mais de trinta minutos depois, ele chega. Está com uma blusa escrito DKLA em branco e azul, e eu pego a referência. Augusto está simplesmente perfeito.
Eu o fiz entrar pela porta dos fundos a fim de não sermos vistos por Kátia. Até então, tudo certo. Estamos em meu quarto, e ele está admirado, observando o meu quarto sem nenhuma diva pop colada na parede: nada a ver comigo.
- O Senhor é o meu pastor e nada me faltará - ele lê, sorrindo para mim, olhando para o quadro com o versículo que fica atrás da minha porta.
- É, coisa do meu pai - digo, sem graça - Coloquei no lugar mais escondido possível.
- Mas também temos Peter Parker - ele aponta para a minha parede-de-heróis - E vários outros. Gostei.
- O meu quarto tem a Beyoncé colada na parede - ele fala enquanto se senta em minha cama - Mas a minha mãe pensa que é porque eu acho ela gostosa.
- Mas ela é gostosa - afirmo, e nós rimos.
- É, não deixa de ser mentira - eu me sento ao lado dele e sorrio - Mas eu prefiro outra coisa - ele diz, levantando uma das sobrancelhas.
Esse homem deve ter feito um curso de Como Seduzir um Gay. É a única explicação possível, porque, meu Deus, eu quero tirar a roupa dele neste exato momento.
- Eu tenho uma coleção de Divas Pop escondido. Quer ver? - digo, meio que cortando o clima, porque eu sou um completo i*****l e não frequentei um curso de sedução.
- Depende. Tem Lady Gaga?
- Óbvio que tem! - faço bico - Augusto, assim você até me ofende, sabia?
- Ah, sei lá, né - ele dá de ombros, rindo - Vai que você faz o estilo fã da Madonna.
- Tenho a discografia completa das duas. Odeio rivalidade feminina - digo enquanto pego meus discos escondidos atrás da minha estante cheia de livros.
- Ah, é - ele ri - Também acho isso a maior besteira.
Quando vejo, já estamos há uma hora conversando. O tempo passa rápido, e, vez ou outra, vou até a porta e ponho a mão na maçaneta só para ter certeza de que está trancada. Certa hora, quando Augusto vai ao banheiro (valeu pela suíte construída com dinheiro roubado, pai), mando uma mensagem rápida para Laura dizendo que ainda não nos beijamos. "Como assim? Se você tivesse me mandado um Ainda Não Transamos eu até entenderia, mas isso? + sticker da Nichole Bahls com a legenda: misericórdia...". Respondo com vários stickers e emojis de choro, e então ele volta.
Depois de alguns vídeos aleátorios, coloco uma live de trinta minutos da Beyoncé em minha TV, e nós comentamos pausadamente sobre tudo no vídeo. O que eu não esperava era que, em mais ou menos quinze minutos de vídeo, o meu pai batesse na porta do meu quarto.
- Gabriel? Melhorou, filho? - ele pergunta, e eu não consigo disfarçar a minha cara de desespero. Pauso o vídeo, e Augusto me incentiva a responder em sussurros.
- Um pouco. Ainda estou meio m*l - faço uma voz meio dramática bem m*l feito, mas é tudo que tenho.
- Bom, já estou aqui. Qualquer coisa estou no quarto. Se precisar ir ao hospital, vamos correndo.
Ele sai. Augusto nem parece desesperado, então eu sinto vergonha por estar com as mãos suando.
- Acho que vou ter que me esconder debaixo da sua cama, pelo jeito.
- Vou dar um jeito de tirar daqui, não se preocupa, tá? - digo, sem a menor ideia de como fazer isso, e ele apenas ri.
Agora, quando o momento de paz acaba, decido contar a ele o que aconteceu, o verdadeiro motivo de eu ter sumido por horas. Falo pra ele sobre minha escola, sobre como toda aquela porcaria funciona, e logo depois mostro a tal conta do twitter a ele. Ler aquele tuíte novamente me causa um bolo no estômago, mas eu tento me concentrar em ficar bem para não passar vergonha na frente dele.
- Não tive coragem de pisar fora deste quarto hoje. Não sei se vou conseguir mentir de novo para meus pais amanhã. Estou com medo.
- Eu sinto muito mesmo. Eu... eu nem sei o que dizer. - Augusto diz, e então me abraça.
E isso era exatamente tudo que eu precisava neste momento.