tudo que eu precisava (parte um)

2081 Words
G A B R I E L Eu tenho um f*****g encontro hoje. O único pequeno detalhe é o fato de termos marcado dentro de uma igreja, a igreja dos meus pais, mais precisamente. De qualquer forma, foi uma surpresa muito boa ser Augusto. O meu gaydar é o pior de todos, porque nem chegou a passar pela minha cabeça que aquele gostoso do vestiário era gay. Laura e eu estamos tão nervosos que a bendita resolveu ir para o culto hoje a fim de me vigiar, me dar cobertura, só para garantir que tudo daria certo, seja lá o que fôssemos fazer. Não fizemos planos. Conversamos sobre muitas coisas, menos sobre essa noite. - Gays não precisam conversar sobre o que vão fazer no encontro, porque a resposta óbvia é s**o. Soa quase como que uma pergunta retórica. - Você, como heterossexual aliada, não está permitida a fazer esse tipo de piada, ok? - E eu tô errada? - Laura me encara sorrindo. - Cala a boca! - rio, empurrando-a. Em seguida, finalmente entramos no templo. O culto começa, eles cantam louvores etc. mas eu não consigo prestar atenção em nada, pois meus olhos estão à procura dele. Minhas mãos estão suadas de tanto nervosismo. Eu estou todo suado, na verdade, mesmo a igreja possuindo ar-condicionado. Basicamente, estou me olhando na câmera frontal do celular de cinco em cinco minutos, porque eu tenho certeza de que meu cabelo está patético hoje. Na verdade, eu estou patético hoje. Eu preciso emagrecer. - Eu preciso emagrecer - digo a Laura, meio baixo, mas ela ouve. - Ei - seu olhar muda, porque isso lembra o velho Gabriel - Já passamos dessa fase. Nós somos gostosos do jeito que somos, entendeu? - Você não deveria falar gostosos na igreja.Não nesse contexto - falo, e ela sorri. - Quê? - ela provavelmente não me ouviu - Essa m***a de música tá muito alta. - Você também não deveria falar m***a aqui dentro - chego mais perto, e nós rimos. Ela me abraça de lado, o que me conforta. Por alguns minutos o nervosismo passa, mas não demora muito para meus olhos voltarem a procurar por Augusto. Será que ele vem mesmo? Talvez ele tenha simplesmente achado que tudo isso é loucura no momento em que pôs os pés para fora de casa - o que é perfeitamente normal e aceitável considerando o contexto. Mas, para minha surpresa, depois de quatro ou cinco músicas, ele chega. Eu disse que guardaria o lugar dele ao meu lado, então, quando Augusto chega de supetão, ele pega a bíblia guarda-lugar do banco e me entrega. - Não vai sair por aí sem seu escudo, irmão - ele sorri. Não consigo dizer nada. Eu deveria abraçá-lo? Meu Deus, gays são malucos. O que eu estou fazendo? Olho para Laura, que está com um sorriso de ponta a ponta. - Prazer, Laura - ela se apresenta, simpática. Augusto responde gentilmente e logo depois a música acaba, e finalmente somos liberados para nos sentarmos. Graças a Deus, minhas pernas já estavam me matando. Ele não espera muito para pegar o celular e me mandar uma mensagem. O meu, em questão de segundos, vibra em meu bolso. "Vou ao banheiro :)". Como eu deveria interpretar essa mensagem? Tipo, dentro de uma igreja, com meu pai sentado bem lá no ponto mais alto, ao lado do pastor? A minha mente diz: Vá atrás dele, gay. E é o que eu faço. Abro a porta, nervoso, e lá está ele, sob uma luz amarelada de frente para um espelho retangular enorme. Augusto está realmente lindo. Talvez até demais para mim (hoje eu estou a própria autossabotagem). Ele é n***o, estatura média, é magrelo, e está vestindo uma camisa azul de botão. - Você veio - ele sorri, olhando para mim através do espelho. - Eu que deveria falar isso! - me aproximo dele aos poucos, passo a passo. Alterno meu olhar entre ele a porta, preocupado de que alguém entre a qualquer momento. - Foi m*l pelo atraso. - Estou começando a me arrepender - digo, e ele faz uma cara assustada - Calma, calma - Meu Deus, eu sou um desastre - É só que... queria que estivéssemos em outro lugar. De preferência bem longe daqui. Você é muito lindo para eu ficar só... observando. - Não tem ninguém te impedindo - Augusto levanta a sobrancelha, malicioso. Ele não pode estar falando sério. O plano dele era realmente esse? Ele planejou me beijar no banheiro da igreja? Retiro que eu disse sobre gays engraçados. - Relaxa, tô brincando. Só te trouxe aqui pra poder te olhar direito. Lá dentro é meio desconfortável, um do lado do outro - ele se aproxima, e os nossos rostos ficam a poucos centímetros de distância - Gosto de encarar as coisas de frente. Quando os olhos verde-mel dele encaram os meus, eu m*l consigo respirar. Que p***a de olhos lindos são esses? Nas fotos eu não os percebi. Meu Deus. De repente, a porta se abre, então eu e ele nos afastamos rapidamente. Augusto, mais rápido, liga a torneira à sua frente e finge estar lavando as mãos com sabonete. Eu só fico parado mesmo, surtando. Bem, pelo menos eu não conheço esse cara, que agora está mijando em um dos mictórios. Infelizmente, esse é o momento mais intenso da noite. Nós ficamos conversando pelo bloco de anotações que fica no final da minha bíblia durante todo o culto graças à Laura, que tinha uma caneta na bolsa. Vez ou outra nossas mãos se encostaram, nada além disso. No dia seguinte, segunda-feira à noite, acontece algo tão r**m que consegue superar minha última sexta-feira, dia do meu batismo. Algum escroto daquela p***a de escola criou um twitter de fofocas, e, c*****o, a primeira vítima tinha que ser eu, é claro. Eu não faço ideia do que vou fazer. Honestamente? Nem sei como ainda não me joguei pela janela do meu quarto. Não quero pensar sobre amanhã, mesmo tendo aula particular de matemática marcada. Não quero pensar em ter que olhar para cara de todo mundo da escola. Laura me liga zilhões de vezes, mas não atendo. Eu só quero sumir. A U G U S T O gabriel não me responde desde ontem à noite. é terça, e a aula de português está o mesmo tédio de sempre, por isso coloco o bloom do troye no volume máximo em meus fones de ouvido. a professora é patética, ninguém a respeita, então eu não me importo. nem ela se importa, na verdade. a sala está meio silenciosa porque o cara mais bagunceiro não veio, yan. ele resolveu que era uma boa ideia m***r aula com a namoradinha em semana de revisão, e, bem, eu não julgo, já que estou aqui, mas ouvindo música. pelo menos estou bem atenta copiando os exercícios de revisão para a prova que estão no quadro. enfim, eu sempre soube me virar e me dar bem no final, principalmente em humanas. - cadê o casal? - guilherme me cutuca, e eu infelizmente preciso retirar os fones. - estou ocupada demais ouvindo troye - digo, ameaçando pôr os fones novamente. - se toca, garoto - ele me dá um tapinha de leve - cadê seus amiguinhos héteros? - sei lá. transando? eu realmente me sinto à vontade com guilherme. até mais do que com yan, principalmente depois que eu me assumi e ficamos sem nos falar durante um tempo. parece que nada mais é como antes. gui e eu só nos conhecemos há um ano, mas é como se já fosse uma vida inteira. bem, talvez o fato de sermos os únicos gays na sala (porque no colégio até que têm bastante) acabou tornando tudo mais fácil. parece que ele chegou no momento certo - quando eu praticamente perdi o meu quase irmão. nós conversamos sobre o novo álbum da ariana grande enquanto abro a conversa com gabriel diversas vezes. sei que não preciso ficar paranoico, mas eu já estou. se gui repara, ele não diz nada. a professora de português nos dispensa algum tempo depois e nós seguimos para o bloco b. aqui na escola nós é quem seguimos os professores, basicamente, então é um troca-troca o dia inteiro. ainda não dez da manhã e eu não aguento mais, principalmente por ser aula de contabilidade. uó. dez minutos depois o quadro está repleto de números. a professora priscila, a priscilão, é meio chata (mesmo sendo super nossa aliada no clã lgbt), então eu preciso meio que fazer certas artimanhas para ouvir the good side em meu fone. estou fodidamente melancólica nesta bela manhã. - garota, tá apaixonada ou o quê? - o gay não se segura por muito tempo - fica olhando essa m***a de celular de cinco em cinco minutos. e eu meio que vi o nome dele. desembucha sobre o gaybriel. - é só um garoto do tinder - explico. - aham, só um cara do tinder - gui ri da minha cara - o que ele te fez? pediu nude, você mandou e ele sumiu? - i****a - ele me faz rir - não. a gente se viu no domingo. aí ontem à noite ele sumiu. nenhuma mensagem desde então. - vocês o quê? - guilherme diz alto, e toda a turma se vira para nós, inclusive priscilão - como que tu não me conta uma coisa dessas? - ele ri da reação do pessoal, baixando o tom de voz. - a gente literalmente só se viu. não rolou nada. - ah. que desperdício de passagem de ônibus, meu pai. a professora nos manda calar a boca. alguns dão risadinha, mas eu não ligo. só quero a hora passe logo. só quero receber uma mensagem de gabriel. quando eu acho que algo vai finalmente dar certo, o destino me diz não dessa forma. típico. - você está sendo dramático, muito dramático - gui me passa seu cigarro na praça perto de nossa escola. quase duas da tarde e nada dele. - tipo, ninguém some assim. sei lá - dou uma tragada, solto a fumaça e o devolvo. - ele vai aparecer, tá ok? vai sim - recebo dois tapinhas nas costas e um sorriso. enquanto faço trança nos cabelos longos e lisos de guilherme, conto a ele como foi o encontro de ontem. digo a ele sobre o olhar nervoso de gabriel, a forma como ele andava, o jeito como tremia sua caneta enquanto escrevia à mão nas últimas páginas de sua bíblia. não estávamos falando nada demais, mas para ele parecia uma final de campeonato, meio que estar acordado em uma noite em que sai um álbum surpresa da beyoncé, na verdade, mesmo que já não seja tão novidade assim. sei lá, ele é especial. de algum jeito. ele só é. estamos quase indo embora quando os pombinhos chegam. yan faz cara f**a quando vê o (terceiro) cigarro de gui na minha mão, mas meio que deixa para reclamar comigo mais tarde. larissa nos abraça, feliz, contando que eles quase transaram no parque hoje mais cedo. eu finjo estar interessado e ouvindo tudo até ir embora junto a eles. gui segue o próprio caminho em outro ônibus. quando chegamos, vou para casa dele almoçar, nós e Alberto. o irmão de yan não está em casa, o que é bom. um hétero é ok, dois é suportável, três é impossível. - yan disse que você visitou a catedral ontem - o pai dele comenta enquanto corta um pedaço de bife. - ah, é - engulo em seco, com a imagem de gabriel em minha cabeça - lá é bem maior que a nossa - digo a última palavra de forma arrastada. - é sim - ele balança a cabeça - já fui lá várias vezes. é muito bom lá. bom mesmo. - o culto foi bom? - yan pergunta olhando para o prato. - uhum - semicerro os olhos sem pensar. pelo menos o pai dele não estava me olhando. por que ele fez essa m***a de pergunta? estou sem paciência nenhuma para ele. para ninguém, aliás. como o mais rápido que posso para ir para casa logo, pois odeio descontar as minhas frustrações nos outros. enquanto gabriel não aparecer, não vou ficar bem. por isso, horas depois, quando o sol se põe, decido ligar para ele. f**a-se se parece cedo demais para ligar para ele. um, dois, três quatro, cinco... seis toques. e então ele atende.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD