L U C A S
Descobri por acaso que Gabriel e o amigo entraram para as aulas de Teatro da escola. A primeira foi ontem, sexta, e agora eu preciso convencer a minha mãe de assinar o formulário que está no meu e-mail. Quer dizer, não é só isso, claro, ela precisa querer pagar a bagatela de (me recuso a dizer o valor absurdo) reais para que eu possa realizar esse sonho.
De me aproximar de Gabriel, digo.
Mãe: "Desde quando você quer fazer teatro?"
Eu: "Desde que eu descobri que o crush começou a fazer."
Mãe: "Acho que estou sendo boazinha demais, você não tá me levando a sério", ela diz, mandando eu me sentar ao seu lado no sofá de nossa sala.
Eu: "Não, é sério, eu sempre quis fazer teatro.''
Mãe: "Você já é pai. Não tem tempo para coisas de adolescente. Nem de pensar em crush", ela revirou os olhos "Tudo que eu fiz com seu pai, deixei de fazer com você. Por favor, não me faça perceber que fiz a escolha errada.''
Ok, quem ela acha que eu sou? Que eu sou como ele? Que se ela não fizer a minha vontade, vou embora? Vou abandoná-la?
Mãe: "Se você tivesse um emprego, eu até que deixaria. Quer dizer, eu não mandaria no seu dinheiro. Mas a gente já gasta demais com o seu filho, Lucas."
Eu: "Eu sei. Eu só dou mancada."
Mãe: "Não se chama um filho de mancada", ela olha para mim, sorrindo, "Você gostaria de ser chamado assim? Dei mancada quando tive o Lucas, dei muuuuuita mancada."
Eu: "Eu não estava falando sobre o Marcus", falo, e ela balança a cabeça.
Ok, eu estava falando sobre ele, sim. Mais ou menos.
Mãe: "Você vai aprender a ser um bom pai, tomar vergonha na cara; é questão de tempo."
PÁ.
Acho que estou precisando de um choque de realidade.
TZZZ.
G A B R I E L
É claro que eu falsifiquei a assinatura do prefeito da cidade para entrar nas aulas de Teatro do Colégio Nobre. Estou sem cara para encará-lo depois de todo aquele assunto sobre, nossa, tinha garotos gays na minha festa, mas eu resolvi introduzir o assunto em nossa "viagem" em família neste final de semana.
E é claro que ninguém deu a mínima.
Laura veio passar o final de semana com a gente. Eu adoro quando fazemos isso, mesmo que seja muito raro, mas pelo menos nunca vamos pra igreja no domingo nesses casos. Nós temos uma casa na região serrana do estado, então leva umas horas de sobe sobe sobe de carro (meu pai faz questão de dirigir nessas pequenas viagens), e depois aproveitamos a cidadezinha adorável e pequena que é Lagoinha.
Está fazendo uns treze graus agora, no meio da subida, sexta à noite. Minhas mãos estão congeladas, assim como as de Laura.
De qualquer forma, essa viagem veio na hora certa. A maior parte da cidade quase não pega rede celular, o que significa menos chances de ficar abrindo a conversa de Augusto a cada cinco minutos, vê-lo online e não conseguir dizer nada.
S A M U E L
Ajudar o meu pai a se mudar de nossa casa foi mais difícil do que eu poderia imaginar.
A semana inteira foi difícil, na verdade. Nada ajudou. Tomás, Laura, a amiga hacker de Gabriel e eu ainda estamos com uma lista de suspeitos muito grande sobre a conta de fofocas do Twitter, sem muitos grandes resultados em nossas pesquisas. Nem a aula inaugural de Teatro conseguiu me deixar feliz. O professor Rodrigo parece legal, e acho que tudo que ele falou promete, sim. Não vai demorar muito para que eu me anime.
Enfim, minha mãe m*l se despediu dele. As coisas deveriam ser assim? Você passa anos e anos com uma pessoa, e de repente vocês se tornam inimigos?
Até onde eu sei, ele não traiu ela. Mas eu não sei de quase nada, então...
- Talvez eu alugue um apertamento pra mim, um pouco mais perto do shopping - meu pai diz enquanto destrava o carro, abrindo o porta-malas.
- Apertamento?
- É - ele diz, sorrindo - Não preciso de muito espaço. Mas se você me prometer dormir lá sempre que der, posso alugar algo maior. Enquanto não vejo nada oficial, uma casa, um apartamento como esse aqui, não sei.
- Eu posso encarar esse "apertamento" como uma esperança de você ainda voltar pra casa?
- Sinto muito, filho. Mas sua mãe quer ainda menos que eu. Que isso aconteça - ele praticamente joga a mala dentro do carro.
- Você traiu ela? - pergunto.
Ele para por um momento. Olha para mim, depois olha para o carro, e então bate o porta-mala com força.
- Ela acha que eu fiz isso? - sua voz fica ríspida de repente.
- Não. Eu não faço ideia do que ela pensa. Nem do que aconteceu. Porque ninguém me fala nada.
- Então você acha que eu seria capaz de trair sua mãe? - ele pergunta.
Fico sem palavras.
Ele me abraça rapidamente, depois entra no carro, abaixa o vidro, sorri e diz, pausadamente, que isso não é um adeus, pelo menos não para nós dois.
Então por que eu continuo sentindo como se fosse?
Y A N
Meu pai está assistindo a VascoxFlamengo aos berros.
Ele ainda não se tocou que Augusto está sumido há seis horas.
É este o tipo de homem que uma mãe confia o seu filho?
G A B R I E L
Meu pai quebra o silêncio enquanto observa minha mãe, minha irmã e Laura brincarem no parquinho da praça que fica do outro lado da rua de nossa casa aqui; É manhã de domingo, a temperatura subiu um pouco, faz vinte graus. Ele está sentado na poltrona grande que temos da varanda com vista para o pequena praça, e eu, deitado na rede.
Laura ajuda Gabriela a subir a escada do escorrego, enquanto minha mãe a espera no final da descida de madeira. É engraçado vê-la assim, sendo mãe, já que Kátia não está aqui.
— Até que vocês dois combinam. Você podia namorar ela, sabia?
— Quem? — pergunto, distraído.
— Você e Laura. Ela podia emagrecer um pouco, pelo menos, mas tá tudo bem.
— Você fala como se eu fosse magro.
— Não é tão gordo quanto ela. E a mulher precisa se cuidar mais, né? — ele sorri, o que me faz querer vomitar. — Já está na hora, né? Com a sua idade eu já namorava em casa. Lembro dela até hoje. Vanessa dos cachinhos louros. A chamavam assim.
— Ah, não. Estou tranquilo assim. Focando nos estudos... — digo, mas só depois percebo o quanto essa resposta é péssima.
— Sempre se arruma um tempo para uns beijos quando se é jovem — ele diz. Minha irmã, depois de muita insistência de minha mãe, finalmente toma coragem e se deixa escorregar. A cena me faz sorrir. — Vai dizer que não tem ninguém que faz esse coração bater mais forte? — e agora ele olha para mim.
Tem sim, pai, eu penso. Tem, sim.
L U C A S
Taisa: "Estou oficialmente empregada. Em breve você estará livre de mim e do meu filho. Feliz?", ela me revela assim que minha mãe e minha avó saem para a reunião no centro espírita. Hoje ela ficou em casa porque Marcus ainda está doentinho, e é óbvio que ninguém confia em mim a esse ponto.
Eu: "Ainda não sei. Não pensei direito. Elas vão surtar, você sabe. Mas bem que você podia me arrumar uma vaguinha lá também. Ou melhor, pedir pra sua sogra arrumar."
Y A N
Continuo ignorando todas as mensagens de Alecsander.
E continuo tentando ignorar aquela cena ridícula de segunda na minha cabeça, os meus lábios nos lábios de outro garoto.
Talvez um, dois mês atrás, acho que estaria surtando pelo fato de ter sido um garoto. Mas agora a única coisa que me deixa triste é que o garoto não era Augusto.
Não foi especial como eu imaginei que seria. Não mesmo. Mas, nem foi um beijo de verdade, no fim de tudo.
Marlon deve estar lá, m*l por tudo que aconteceu. Não faço ideia do quanto ele gosta de mim, mas, tudo isso é meio irônico, não? Augusto está sei lá onde, sofrendo pelo Gabriel. E eu aqui, por ele. E Marlon lá, por mim. Um sofrendo pelo outro, e outro sofrendo pelo outro, e assim vai.
A vida é um grande estado contínuo de não-reciprocidade sem sentido.
Respiro fundo. O Flamengo acaba de fazer dois a um sobre o Vasco. Meu pai está surtando.
S A M U E L
- Acho que você está enterrando todas as suas chances que poderia ter com o Bruno - minha mãe diz enquanto assistimos ao penúltimo filme da nossa Lista Gay. Dessa vez, O Mau Exemplo de Cameron Post.
- Não quero deixar você sozinha - digo, sem tirar os olhos da TV. Os adolescentes estão plantando maconha, o que me faz entender o porquê de Clara ter recomendado esse filme (além do Fator Sapatão, é claro).
- Você fala como se eu fosse um bebê - ela me dá um empurrão. Acho que estamos mais amigos agora, desde que toda essa confusão começou. Pelo menos uma coisa boa em meio ao caos.
- O Bruno é uma pessoa legal. Ele não está bravo. Disse que entende a situação.
- Mas eu estou me sentindo m*l - ela diz, roubando meu balde de pipoca - Porque parece que estou arruinando a sua vida amorosa junto com a minha.
- Vida amorosa? - digo, rindo - Mulher, você era casada há decadas! Pelo amor de Deus.
- Chama o menino para vir pra cá então - ela sugere.
- Pra ele ver essa sua cara de derrotada? Não mesmo.
- Obrigado pela parte que me toca.
- De nada.
L U C A S
Taisa: "Eu preciso que você me diga com toda a sinceridade do mundo, Lucas", ela se aproxima com cuidado, balançando Marcus adormecido em seu colo. Ele já é pesado o suficiente para fazer o nosso braço formirgar em dez minutos. "Se eu fugisse, tipo, amanhã. Com o nosso filho. Você me impediria? Você entraria na justiça ou algo do tipo? Você vai fazer questão de ser pai dele?"
Eu: "E quem me garante que depois de um tempo eu não vou receber uma carta dizendo que preciso pagar pensão?"
Taisa: "Não vou precisar de um centavo seu. Nem da sua mãe. O que me prende a vocês é justamente isso."
Eu: "Você é meio ingrata, sabia? Fala como se a gente fosse o vilão da situação. Eu não fiz o filho sozinho. E elas nos deram tudo. Elas te deram abrigo enquanto a p***a do seu pai te deixou na rua", falo, com o tom de voz mais alto, e provavelmente com o rosto mais vermelho que o normal.
Marcus acorda chorando.
Y A N
"Já estou voltando" Augusto diz assim que atende. Ouço barulho de trânsito ao fundo "Estou no ônibus."
"Aonde você foi?" pergunto, mais aliviado.
"Desculpa por te deixar preocupado. Seu pai disse alguma coisa? "
"Ocupado demais vendo o jogo. Só volta logo, tá bem? "
"Cinco minutos" ele finaliza.
L U C A S
Marcus continua chorando sem parar.
Taisa: "Que m***a de pai você é", ela diz, tentando acalmar nosso filho, fechando a porta do quarto do bebê atrás de si.
Sei que sou. Eu tive a quem puxar, afinal.
Essa situação me fez lembrar do meu pai, no final do ano passado, quando Marcus havia nascido poucos dias antes e ele me ligou. Era o meu aniversário. A última vez que isso acontecera foi quatro anos antes, quando completei treze anos.
Cara estranho que chamo de pai: "Filho!", ele disse com a maior naturalidade do mundo, "Parabéns!".
Eu tive o azar de atender o telefone naquele dia, coisa que nunca faço. Eu jamais poderia imaginar. Se minha mãe tivesse atendido, diria que eu não estava em casa. E a minha avó simplesmente teria desligado na cara dele.
Eu: "Ah, oi... pa...i" falei, meio engasgado.
Ele: "Como você está?" eu o ouvi dizer enquanto minha mãe virou o rosto rapidamente em minha direção, junto com a minha avó, logo depois do meu "i".
Eu: "Nós vamos cantar o parabéns agora. Pode ligar depois?", disse, e a minha avó já estava praticamente puxando o meu braço à força.
Ele: "Mas já? Bom, tudo bem."
E essa foi a última coisa que eu o ouvi dizer, a última vez que ouvi a voz dele, porque a minha avó conseguiu me fazer esbarrar na m***a do botãozinho vermelho, e depois o pi pi pi...
Tudo bem.
Não tá nada 'tudo bem'. Nada.
S A M U E L
- Você tem certeza de que sua mãe tá de boa com isso? - Bruno me pergunta enquanto entramos em seu carro e batemos a porta. A mão dele se estende até o som vagarosamente. Ele faz um carinho em minha perna.
- Eu que não queria deixá-la sozinha. Ela insistiu para que eu saísse hoje, já que adiei a semana inteira com você.
- Bom, se ela diz que tudo bem, fico tranquilo - ele sorri, apertando o start.
- Temos muito o que conversar - falo, e ele já está abrindo sua playlist de corrida no celular.
- Com toda certeza. Já avisou pra sua mãe que só voltamos amanhã de manhã? - ele pisca para mim.
Engraçadinho.
- Terminei o seu livro. O primeiro. Eu gostei bastante. O casal, mesmo sendo hétero, é bem fofo - digo, e ele dá risada.
- Ah, é? - ele diz, entregando-me seu celular - Já que você conseguiu passar por todas aquelas páginas cheia de heterossexualidade, vou te recompensar - eu pego o celular, e ele morde os lábios. - Hoje a escolha da música é por sua conta. Escolhe direito, entendeu? Ou esse carro não sai do lugar.
- Quanta honra, Baby Driver - digo, e depois começo a rolar a playlist de Bruno.
Mas eu saio dela, e resolvo escolher outra, uma bem específica, uma que consiga dizer tudo que tento dizer a ele, mas não consigo.
Dou play. Ele semicerra os olhos, não reconhecendo a música, e então me olha.
G A B R I E L
Nós estávamos em um almoço milagroso, no qual minha mãe cozinhara, quando bateram na porta de nossa sossegada casa de Lagoinha. Laura elogiou a comida de minha mãe três vezes, o que achei meio forçado, já que a carna assada estava boa, mas não tão boa quanto a de Kátia.
Agora ninguém sabe o que fazer. Meu pai está nos dizendo "não digam nada" enquanto um policial o empurra para dentro do carro onde uma sirene pisca em azul e vermelho em cima.
Foi de repente.
E todo mundo está em choque. E Gabriela não para de perguntar para onde o papai foi. E minha mãe já está perdendo a sua aura de mãe, irritando-se com minha irmã.
E Laura e eu estamos sem palavras.
No fim das contas, acho que eu estava certo. Meu pai é mesmo um bandido.