A U G U S T O
a primeira noite na casa de yan.
restam apenas alguns minutos para uma da madrugada. estou na sala, deitado no sofá com um cobertor e um travesseiro. não é muito grande, mas serve pra mim. não é como na casa de gui, onde eu tinha uma cama só pra mim (ok, não era exatamente uma cama, e sim um colchão que eu colocava no chão do quarto de gui, e era tão alto e confortável que eu até cheguei a me questionar como eu dormi a minha vida inteira longe daquele colchão maravilhoso).
yan está no quarto com o irmão. ambos deitados, mas só um dormindo. estamos conversando sobre o final de semana. quero saber como foi o acampamento, e ele pede para que eu conte tudo sobre a festa.
pergunto sobre larissa, mesmo tendo acesso direto a ela. quer dizer, nós ainda temos aquele grupo juntos, mas está abandonado há tempos. enquanto espero por uma resposta dele, vejo que lari até saiu do grupo.
quando me dou conta, já estou desabafando completamente. sobre tudo. ou quase tudo. conto sobre a briga com gabriel, conto sobre como estou triste por minha mãe. não conto sobre o que quase aconteceu com o guilherme. também não conto que ando fumando mais de cinco cigarros por dia. principalmente hoje (ou ontem, tanto faz), depois da briga. e da tensão e do clima de despedida triste com gui e a família dele (a parte da tensão ele não sabe).
estou nervoso demais. ainda bem que gui deixou o nosso último maço comigo.
Y A N
Ele deve ter pegado no sono.
Eu disse alguma coisa de errado? Não. Acho que não. Devo ser um péssimo amigo. Por que estamos tão distantes? Estamos na mesma casa. Na mesma casa. Eu nem acredito que isso tá acontecendo.
Levanto da cama com cuidado, a fim de não acordar meu irmão. Ele está roncando, então acho que estou seguro.
Abro a porta, o que me faz dar de cara para a sala. Mas ele não está lá. Ele deveria estar no sofá, só com a luz do celular iluminando seu rosto.
Olho para a porta da sala.
A U G U S T O
— desculpa te deixar no vácuo — digo, automaticamente tentando esconder o cigarro, mas logo percebo que é estupidez.
— você continua nessa? — yan diz, sentando-se no meio-fio, bem próximo a mim. Nossas pernas se esbarram.
— me ajuda a aliviar o estresse — falo — julgamento é a última coisa que preciso agora, sinceramente.
ele fica em silêncio.
Y A N
Não sei o que dizer. Quero abraçá-lo, mas não sei como fazer isso. Nesse momento, nem a fumaça que o cigarro traz me irrita. Eu só quero que ele fique bem.
Quero protegê-lo.
Ele não faz ideia do quanto eu o amo.
A U G U S T O
— sabe — eu quebro o silêncio. o que se houve é barulho de rua na madrugada, um carro passando aqui e ali ou coisa do tipo — acho que a casa do guilherme me fez bem, mas no final o saldo é negativo. por que aquilo lá era uma utopia, sabe? nunca vou ter o que guilherme tem. Eu nunca nem tive um pai, quanto mais pais que me aceitassem.
ele pensa por uns segundos. está observando a fumaça. deve estar com um ódio terrível. ele sempre odiou me ver fumar.
— eu também sou sua família. eu te aceito. eu amo você. é isso que importa — ele diz, e então eu olho para ele. está tremendo com o vento gelado que passa por nós.
— talvez um dia eu supere isso. você perdeu sua mãe tão cedo, e eu não te vejo reclamar. eu sou um reclamão — digo, e ele sorri. meus olhos estão vermelhos de tanto que seguro minhas lágrimas.
— me desculpa por tudo — ele começa, e eu dou mais uma tragada — se eu pudesse voltar no tempo, mudaria tudo.
Y A N
Meu momento de coragem é interrompido pelo meu pai, que aparece da porta de casa nos chamando.
"O que vocês estão fazendo aí?" ele diz com sua voz grossa, e nós nos levantamos rapidamente. Augusto joga o cigarro no chão e dá três pisadas nele.
Mas foi tarde demais.
"Vocês estão fumando?" irritado, ele chega mais perto. Agora somos os três na rua.
"Só eu" Augusto diz, firme "Ele estava brigando comigo, na verdade" e ele olha para mim.
"Desse jeito sua mãe não vai voltar nunca" meu pai diz "Cadê o resto?" e abre as mãos, pedindo o maço.
A U G U S T O
entrego o resto dos cigarros pro velho alberto. a maldita lágrima cai em uma péssima hora. péssima hora.
— vamos entrar — ele diz, amaçando o caixa com as próprias mãos — e você, pare de chorar — e chega mais perto, pondo a mãos sobre a minha cabeça. ele puxa os meus cabelos, mas não dói. — homem não chora. limpa isso aí. estou aqui pra ajudar você. sua mãe não confia em mim à toa.
Y A N
Nós nos viramos em direção à porta, mas Augusto permanece parado. As lágrimas não param de descer.
Eu volto, eu pego em sua mão, eu o abraço. Meu pai já está lá dentro, então eu o abraço.
"Me abrace mais forte" eu o ouço dizer baixinho. Augusto parece tão quebrado que tenho medo de pôr força alguma sobre ele.
Isso parte meu coração.
E então eu começo a chorar também.
"Eu amo você" ele diz, soluçando "E quero que ela volte, Yan. Quero que ela volte logo."
***
A U G U S T O
no dia seguinte, gabriel me pede para encontrá-lo no shopping depois da aula. depois da aula dele, porque yan, guilherme e eu ainda estamos de férias até o fim desta semana.
antes de sair, almoço em casa. a comida de alberto é h******l, mas eu ainda não vi um real do suposto dinheiro que minha mãe deixou, então não tenho grana para mcdonald's nem nada. o dinheiro da passagem fica por conta do yan, aliás. gabriel até se ofereceu para pagar o almoço, mas é meio estranho considerando o fato de que estamos brigados.
— você já assistiu corra? — pergunto, fazendo uma cara f**a pelo mesmo arroz queimado de ontem. yan ri. o pai dele não sabe cozinhar.
— ah, já. é muito f**a. vi com a lari faz um bom tempo. eu comentei contigo, não?
— talvez — digo, sem muita certeza — mas, sabe, eu lembrei disso agora pouco. na festa, anteontem, samuel disse que o aniversário do gabriel estava aparecendo corra. o cara n***o indo visitar a família toda branca do namorado.
— gostei desse samuel — ele diz, sorrindo — a família dele é tão macabra assim? eu sairia correndo de lá.
— ah, ele exagerou um pouco. tinha pessoas negras lá. tipo, sem contar eu e o samuel, devia ter mais umas três, quatro. mas eu não falei com nenhuma delas. não falei com ninguém, né. fiquei com samuel e guilherme o tempo todo.
— deixa eu te adivinhar — yan apoiou o braço direito na mesa, o garfo na ponta de seus dedos com um pedacinho de frango pendurado — tinha uma empregada. e ela com certeza era n***a.
balanço a cabeça, rindo, e yan grita "aaaaaaah", e depois ri, cuspindo um pouco de arroz em cima de mim. eu cato alguns e jogo nele de volta.
— e ela ainda pegou a gente se pegando no quarto dele!
— quê? — ele riu, pondo o punho fechado sobre a boca.
— mas ela é legal. não vai contar nada. sério.
depois do almoço, nós continuamos sozinhos em casa, no mesmo clima bom, conversando e rindo. um sentimento parecido da noite em que resolvi fugir de casa e nós passamos um momento juntos. é bom ter yan de volta, como sempre foi.
agora ele está solteiro, o que sobre mais tempo para ser amigo, provavelmente. e talvez eu esteja solteiro em breve também. ou não, não sei.
eu me olho no espelho minutos antes de sair.
acho que ainda gosto de gabriel apesar de tudo. talvez eu descubra lá, hoje, na nossa conversa.
de qualquer forma, é bom pensar em um problema que não seja minha mãe. pelo menos por um tempo.
Y A N
Eu vou parecer h******l se dizer que estou torcendo para eles terminarem hoje? Eu já consigo imaginar a cena, Augusto chegando em casa, meio triste, e eu aqui, de braços abertos para consolá-lo.
"Tchau" digo quando ele abre a porta da frente "Boa sorte".
Acho que tem um sorriso diabólico no meu rosto agora mesmo.
Mas tudo que vai, volta, e eu rio de mim mesmo quando vejo que tenho umas quinze mensagens de Alecs em meu celular.
A U G U S T O
estou dez minutos atrasado, caminhando até a praça de alimentação. na verdade, estou na escada rolante. na segunda. o motivo do atraso foi eu ter passado em uma banquinha de jornal para comprar um (literalmente) cigarro com o troco do dinheiro do ônibus.
chego, e lá está ele, de costas.
meu namorado.
Y A N
Alecs diz que Marlon tem um amigo que tem um homestudio. E que já gravou umas músicas, e que poderia gravar algumas minhas.
"Eu não tenho uma banda" falo, rindo.
"Nós somos uma banda" Alecs grita demais ao telefone, com sua voz bonita e aguda.
"Não existe banda com um guitarrista r**m. E eu nem sou guitarrista, pra começo de conversa."
"Vem aqui mais tarde, ok? Três e meia. daqui a pouco. Vou chegar por volta desse horário. Vou te mandar o endereço. É perto."
"Por que você quer tanto montar a d***a de uma banda?" pergunto, e eu realmente quero saber.
"Se você não quiser ter sua cara toda craquelada seria uma boa você aceitar logo que nós nascemos para saber uma banda" ele diz, e eu consigo ouvi-lo rir. Ele é maluco, mas nem tanto.
"Ok. Ok. Eu vou aí, mostro minhas músicas, vocês vão ver que é uma grande m***a e a gente encerra esse assunto."
"Tell me why é ótima, Yan" ele diz, e o meu coração para. Mas que filho da p**a?
"Você mexeu na p***a do meu caderno?"
"Só uma espiada. Você me deu um bolo no sábado, depois da festa, cara" ele diz com a maior naturalidade "Eu só vi essa música, tá bem?" ele mente, sei que sim.
Que maluco.
Que maluco filho da p**a.
Que maluco filho da p**a incherido desgraçado.
A U G U S T O
ele é bonito até mesmo em seu uniforme ridículo de escola de rico.
eu digo oi, ele diz oi. nossas mãos se encostam no centro da mesa quadrada. ele pergunta se estou bem, eu digo que sim, na medida do possível, mas ele não responde quando pergunto "e você?".
— lembra do dia do batismo? — gabriel começa, olhando para nossas mãos, depois para mim, depois para nossas mãos novamente — parece que já passou mais de um ano depois daquilo. ou anos, não sei.
— parece mesmo — sorrio, concordando. lembro do álbum de fotos que minha mãe criou no f*******:, eu mergulhando nas águas de diversos ângulos diferentes. parecia orkut.
é uma d***a lembrar dela.
— quando eu te vi, nunca passou pela minha cabeça que eu poderia te amar. foi tudo tão rápido, mas... não considero um erro. essa rapidez. acho perda de tempo essa coisa de ficar adiando as coisas. tipo, as pessoas acham que tem um mínimo de meses até você, sei lá, poder oficializar a coisa.
— as pessoas têm mania de querer oficializar tudo. dar um nome a tudo — falo, e ele assente.
— não quero perder o que temos. seja lá o que for isso. você nunca me pediu em namoro — ele levanta a sobrancelha, sorrindo.
— você também não — retruco.
— por você disse aquilo? "não vai dar certo?" — ele pergunta, e agora o clima pesa.
eu me sinto m*l pela conversa que acabei de ter com yan. estou sendo falso? eu estava sendo falso? ou eu só estava comentando fatos?
gabriel não é como o resto da família, isso eu sei. mas isso não significa que eu o conheço.
ele pensa que me conhece, mas ele nem ao menos sabe que ando fumando cigarro há um bom tempo, muito mais do que deveria. ele não sabe muitas coisas básicas sobre mim.
— acho que eu não sei o que quero de verdade — é tudo o que consigo dizer — eu só sei que não quero ser controlado por ninguém. mas eu sempre falho. ontem mesmo o pai do yan... me pegou fumando — e olho para ele.
gabriel semicerra os olhos, com a cabeça se inclinando para a esquerda aos pouquinhos.
mas ele não diz nada.
Y A N
Não tenho escolha, estou indo ao homestudio de Adriano, amigo do Marlon, o baterista da minha banda que ainda não existe.
Quando chego, sou recebido por um garoto gay. Claramente gay. Bizarramente gay. Indiscutivelmente gay: Marlon. Está com um casaco rosa e vermelho, e o cabelo liso escorrido — outrora solto, como de um astro de rock — amarrado, preso em um coque. Veste uma calça jeans meio vermelha, super skinny. O que fizeram com o baixista super-hétero da equipe de louvor da igreja????
"Oi" ele diz "Senta aí. Os garotos já estão chegando."
"Aqui não é a casa do Adriano? Seu amigo, Adriano" pergunto, sentando-me em um dos sofás.
"Total" e eu descubro que Marlon é péssimo em mentir "Eles foram comprar corda pro meu baixo. E uma baqueta nova pro Alecs."
"É presente? Porque corda pra baixo é meio caro, né" pergunto, e ele desvia o olhar. Agora está sentado no outro sofá, o maior, de frente para mim.
Eu me levanto. Começo a caminhar pela casa, o que deixa Marlon nervoso. Passo pela cozinha, pelo corredor, com duas portas fechadas, e volto para a sala. Vou até o rack, e, ao lado da TV, um porta-retrato caído, bem ao lado do telefone. Eu o levanto.
É uma foto de Marlon com os pais. E duas irmãs.
"O que tá acontecend.." digo, virando-me, mas é tarde demais para completar a frase.
Porque Marlon está me beijando. Os lábios deles nos meus. Os lábios de outro garoto nos meus lábios.
A U G U S T O
— você vai mesmo continuar com esse papo de ser controlado? — gabriel me olha sério, ignorando o que acabei de contar — sério, tipo, você acha que eu sou super livre, né? o ricaço de ribeirão.
— não, eu não acho.
— dinheiro não faz diferença nenhuma na minha vida pessoal, augusto. se eu finalmente for o filho gay, acabou. acabou tudo isso. e eu viro só um garoto comum, que pode entender os seus problemas. porque você age como se só você tivesse problemas.
— gabriel...
— eu arrisquei tudo ultimamente por você. eu nunca tinha feito isso por ninguém. nunca. eu levei você pra d***a da minha casa, pra d***a do meu quarto. eu fiz questão que você fosse lá, na minha festa. eu tive medo, medo o tempo todo, mas eu o puxei e o fiz tirar uma foto só comigo. e essa d***a de foto está aqui, na tela do meu celular o dia inteiro — ele já está falando alto demais, e eu não sei o que fazer.
ele me mostra a nossa foto em sua tela principal do Iphone.
— eu te pedi, por um dia, pra você vir sem as unhas pintadas, uma roupa mais discreta... por um dia, augusto. porque eu queria te proteger. eu queria me proteger também, claro. e você sabia que não adiantou nada? — ele ri, já com a voz alterada — porque a i****a da minha prima viu você e o guilherme de mãos dadas. e isso virou o assunto do almoço de domingo.
do que ele está falando? eu e guilherme de mãos dadas...
ah.
— eu nem quero saber porque vocês estavam de mãos dadas, sinceramente.
ajeito a gola da camisa. ponho as mãos na cabeça, e elas deslizam até o meu cabelo.
— por que você esconde as coisas, augusto? cara, o que você achou que eu diria? quando eu descobrisse que você fuma? achou que eu simplesmente fosse virar as costas e ir embora? ah, não, o perfeitinho filho do prefeito não vai entender a minha vida SUPER errada. porque eu sou descolado. eu fumo cigarro.
— desculpa — digo, repetidas vezes — desculpa. desculpa.
ele olha pra mim. depois olha pro alto, respirando fundo.
— sua prima entendeu tudo errado. sobre o lance de eu e o gui de mãos dadas. sério.
— essa não é a questão — ele diz — você dormiu na casa dele por um mês, augusto. pode ter acontecido qualquer coisa. eu não sei. você não fala nada. você não conversa!
— não aconteceu p***a nenhuma entre o guilherme e eu — falo, com mais raiva do que deveria.
meu corpo inteiro treme. a cena da madrugada de domingo me vem à cabeça, o olhar dele para mim através do espelho.
tento tocar a mãos de gabriel novamente, mas ele se afasta.