lista de suspeitos/maria joana

2668 Words
G A B R I E L As férias acabaram no momento certo. Pelo menos na escola eu ganho novos problemas, o que deixa mais fácil, na medida do possível, a difícil tarefa de pensar em como responder Augusto. não vai dar certo. Não consigo parar de pensar nele. Nem mesmo o Leogato, o professor que rouba toda a atenção dos cálculos para ele, consegue me fazer esquecer aquela mensagem. não vai dar certo. — Você precisa responder aquela d***a de mensagem logo — Laura diz, dando um estalo bem próximo do meu nariz. — Eu não sei o que dizer — falo, saindo do transe. A lousa já está repleta de cálculos, até a questão número seis, e eu ainda estou na primeira. — Vocês precisam conversar. Pessoalmente. Não se fala esse tipo de coisa pelo celular — ela diz como se eu fosse um completo i****a, como se nós fôssemos — é isso que você precisa responder. E ela está certa, como sempre. E é isso que eu faço. Mas a mensagem nem chega pra ele. Deve estar dormindo ainda. Augusto ainda está de férias, então provavelmente ainda está dormindo. Na mesma casa que Yan. Provavelmente na mesma cama. Provavelmente, de conchinha, ou então Augusto com a cabeça repousada sobre o peitoral do irmão. Quem acordar primeiro dirá "bom dia", e então vai rolar um selinho matutino, com bafo e tudo. É isto. — Posso apagar a primeira? — Leogato me desperta, sorrindo, pondo o dedo indicador em meu caderno. — Ah, claro, pode, pode sim, professor — digo, todo sem graça, porque eu estou todo errado e porque ele é bonito demais. S A M U E L Na escola, Clara Sapatão não tem a namoradinha 4:20, então é óbvio que ela age como se nada estivesse errado entre a gente. Ela demorou pra perceber que eu estou tentando ser frio com ela, ou só ficou se fazendo mesmo, mas, agora, já no intervalo, ela começa a reclamar enquanto mastiga pão, carne e alface. - Vai me falar qual é o problema ou nem? - Eu é que te pergunto - digo, ela franze o cenho - Nas férias, eu não existia. Agora que o casal C&C foi separado pela escola, eu volto a ser importante? - Seu leonino de m***a - ela diz, rindo. Mesmo querendo rir, continuo sério - Deixa de ser ridículo. Eu sempre fui sua amiga e sempre vou ser. No sábado eu tava muito r**m, sem condições de absolutamente nada. E eu te chamei pra ir junto com a gente, mas você é careta o suficiente pra achar que maconha é d***a. - Maconha é d***a - digo, bebericando suco diet r**m no meu canudo de papel terrível - E aquela garota é uma péssima influência. Cara, imagina se minha mãe fica sabendo que eu fumei maconha? Você conhece aquela mulher. - Ela é advogada, não policial - ela riu - Se alguém pegar a gente com a Maria Joana, sua mãe pode nos defender. E de graça, olha que legal. E, para, não é como se eu nunca tivesse fumado antes, ok? A Carla só me facilitou as coisas. - Porque eu te salvei, por isso você parou - digo, até alto demais, e alguns olham para nós ao redor. - Você tem um complexo de super-herói fodido - ela diz, e agora só sobrou carne na mão dela. Clara come o último pedaço e lambe os dedos. - Calada - digo, mexendo o suco dentro da latinha em círculos. Nós ficamos em silêncio por alguns minutos até Dani chegar, sentar em nossa mesa e chamar nossa atenção. - O merdinha do Twitter resolveu voltar hoje. Saudações de volta às aulas - ela diz, mostrando a tela do celular aberta no @fofocasnobres2. - Mas que p**a que pariu - Clara diz, pegando minha latinha de suco. Eu tombo a cabeça, com os olhos semicerrados. - Ele fez uns cinco tuítes seguidos. E isso só faz uns dez minutos. - Então ele tá aqui na escola - concluo. - Ou não. Hoje é o primeiro dia, acho que metade da escola faltou - Clara diz, devolvendo minha latinha. Ela acabou com a d***a do meu suco r**m. - Você devia falar com o Tomás - Dani sugere, como uma vidente, porque logo depois o meu celular começa a vibrar. Tomás está me ligando. L U C A S Estou nervoso pela entrevista de Taisa. Não quero ajudá-la a praticamente fugir com o meu filho. Não faço ideia do que minha mãe e minha avó seriam capazes de fazer se isso realmente acontecer. A velha iria surtar, com certeza. Talvez até colocaria a polícia no meio disso. Já até consigo ver as manchetes: "Bebê é sequestrado pela mãe. Pai é um adolescente irresponsável." Ou talvez não. Todos saberiam sobre mim, inclusive meu pai, onde quer que ele esteja. Elas arriscariam tudo a esse ponto? Talvez. A velha é imprevisível. Quero contar tudo pra minha mãe, porque não costumo esconder nada dela. Mas Taisa praticamente falou comigo em tom de ameaça, como se me tivesse na palma de sua mão. Por hora, estou fingindo concordar com o plano, o que já me faz sentir péssimo. Na hora do intervalo abriram as inscrições para o Teatro, a grande novidade do semestre. Além da multidão se amontoando ao redor da tela grande anunciando a notícia, vi Gabriel passando por eles bem rapidamente pelo corredor. O i****a do Lucas, claro, não teve coragem de pelo menos acenar ou tentar dizer um oi. Lucas estava preocupado demais com a presença de seu fiel escudeiro pé-no-saco, Rafael. Fiquei torcendo pra que ele não o chamasse de v***o, e ele não disse nada. Acho que ele nem notou Gabriel passar por nós. Talvez eu tenha poderes telepáticos. Na aula de literatura, a professora Rute chama a atenção de todos, de repente, interrompendo seu monólogo sobre a Semana de Arte Moderna. Quando me dou conta, quase todo mundo está mexendo no celular. Ao meu lado, uma garota patricinha chamada Lailla, que está tendo um caso com Rafael, está no Twitter. E acho que todo mundo está também. Ela rola a tela para cima, e a foto de perfil é um FN em uma fonte tosca, azul. Eu: "É aquele Twitter de fofocas de novo", comento com Rafa. Rafael: "Mas que p***a é essa?", ele diz alto, olhando para o celular. Rute vem até nós, até ele, e pede o celular. Acho que isso é menos pior do que ser suspenso. Todos guardam os celulares, e aparentemente eu sou o único que não sabe que fofoca veio à público. Peço para Rute ir ao banheiro, e, quando chego lá, já abrindo o Twitter feito um louco, Gabriel está de frente pro espelho, lavando as mãos. E o primeiro (último) tuíte da tela diz: Rafael, do terceiro ano, é um cuzão. Eu o vi pegando a Letícia, do segundo ano, numa festa no último sábado. Sai dessa, Lailla. Gabriel: "Se eu fosse uma pessoa r**m, estaria me sentindo vingado agora", ele diz, o que me deixa emocionado. Ele tá falando comigo. Eu: "Você não é como o Rafa. Nem como eu. Você é uma pessoa boa." Ele seca as mãos, em silêncio, depois dá um sorriso discreto e vai embora. De qualquer forma, ele falou comigo. É um começo. Enquanto eu aproveito a viagem pra mijar, Taisa me liga, e eu seguro (aquilo) com a mão esquerda e a atendo com a direita. S A M U E L - Eu tenho uma teoria - Tomás diz enquanto matamos nossas respectivas aulas no corredor, indo em direção ao banheiro. - Eu tenho a prática, que é meter um soco no merdinha que não tem o que fazer e adora fofocar no Twitter - falo, abrindo a porta, dando de cara com Lucas, que está fechando o zíper com a mão esquerda e segurando o telefone com a direita. Consigo ver a cueca vermelha dele. - Acho que não é a mesma pessoa desde a primeira vez. Na verdade, acho que são três pessoas diferentes. Desde o começo. Ele passa por nós, em silêncio, claramente evitando contato visual, mas nossos olhos se esbarram. A porta se fecha. - Como assim? - pergunto confuso. - Tipo, desde a primeira vez que a conta foi criada, nós já a derrubamos umas três vezes - e Tomás abre uma pasta com prints em seu celular - Tenho prints da maioria os tuítes das contas anteriores. O padrão do horário de postagem não é o mesmo. Por exemplo, hoje, os tuítes foram feitos no horário do intervalo. Provavelmente a pessoa está aqui, na escola, e ela não é tão inteligente quanto os fofoqueiros anteriores. - E você tem tipo uma lista de suspeitos? - dou zoom no celular de Tomás, em um dos tuítes da primeira conta feita. - Mais ou menos. Acho que você podia me ajudar nisso - ele diz, e nós sorrimos. G A B R I E L Samuel resolveu bancar de super-herói de novo. Não estou reclamando, gosto disso nele. Aliás, eu só acho que ele está assim porque o amigo do Lucas não foi o único atingido. Tem um gay no meio da lista de novas vítimas, é claro. Tomás também está ajudando. Espero que ele seja bom nessa coisa de hacker. Aliás, acho que eu conheço uma tão boa quanto ele, ou melhor. — Sam e Tomás têm uma teoria sobre o Fofocas Nobres. Acho que você podia ajudá-los com suas habilidades de hacker. — Gabriel, fala sério — Laura diz, sem tirar os olhos do quadro, copiando cálculos e mais cálculos — O máximo que eu consegui achar no computador do seu pai foi um histórico vergonhoso no xvideos. — Não custa nada tentar — falo, e ela sorri. S A M U E L E eu me inscrevi no teatro, só enviando um formulário de informações preenchido para o e-mail que estava no telão de anúncios da escola, depois de quase m***r a aula de física inteira com Tomás, dentro do banheiro. Claro que minha mãe vai ter que assinar algum tipo de autorização depois, mas tanto faz.  Gabriel disse que sua amiga Laura é hacker e pode nos ajudar, o que é bom. E eu, claro, já disse para Gabriel se inscrever nas aulas de teatro também. O pai dele é o prefeito, dinheiro não é o problema. Mas o que importa mesmo é que, mais tarde, eu tenho um encontro com Bruno. Nós vamos ao cinema. Espero que ele não me peça em namoro de novo, pelo amor de Deus. G A B R I E L Teatro? Nunca pensei em fazer teatro. Samuel com certeza é bom nisso. Só de lembrar dele me defendendo na praça de alimentação do shopping, consigo imaginá-lo atuando. Daria um ótimo ator, sem dúvidas. Ele tem um... uma coisa artística. Não sei. Ser estrela para ele parece algo natural. Tipo o meu pai, só que de um jeito positivo. Ele defende LGBT'S. O super-gay da Escola Nobre. O tempo passa e o primeiro dia acaba. Hora da saída. Hora de ir encontrar Augusto, porque ele aceitou meu convite. Vamos conversar de garoto pra garoto. Namorado para namorado. Nós ainda somos namorados? S A M U E L Chego em casa e meu pai está de terno, sentado no sofá com uma cerveja na mão. Ele me olha, sério, e pede para que eu me sente.  Ele põe a garrafa no chão, longe o bastante de seu pé.  A TV está desligada. Não há barulho algum, só o silêncio. E às vezes isso é suficiente para que você entenda tudo. Ele ameaça abrir a boca, mas então para. Ele começa a chorar da forma mais hétero possível. L U C A S Rafael está devastado. Nós estamos, na verdade. Taisa disse que gostaram muito dela lá, e que está muito confiante. A ligação com o "sim" ou o "não" sai até sexta.   Estou na casa dele, jogando FIFA e o ouvindo xingar a cada cinco minutos. Ele faz o terceiro gol (estou deixando ele vencer, não quero mais estresse), e eu começo a pensar sobre o que ouvi de Samuel e seu amigo no banheiro. Ok, eu sei que o nome dele é Tomás, mas só porque todo mundo comenta o fato dele ser trans (de um jeito r**m), e eu acho isso uma babaquice. Mas, mesmo assim... Será que aquilo faz algum sentido? Não sei. Ele não para de falar sobre Lailla. E que ela não quer falar com ele. E que ele está muito, muito chateado. Acho que não tem nem motivo para ele ficar assim, a pseudo relação deles não dava tão certo assim. Mas, quer dizer, é verdade, não é? O que escreveram no tuíte. Ele foi praquela tal festa sem mim. "Vai ter muita mulher, Lucas." O Lucas, muito mais sábio, não foi. Mas ele sim. O i****a do Rafael. O i****a do meu amigo Rafael. E, de repente, PÁ. Volto pra realidade. Mas não foi o meu pai ou minhas memórias falsas ou toda a desgraça que a minha vida vem sendo ultimamente, mas sim o controle do PS4, que foi arremessado na parede, a poucos metros da TV. A LG gigantesca se salvou por pouco. Rafael: "Você não tá prestando atenção em nada. Nem em mim, nem na p***a do jogo", ele diz, revoltado, e então se levanta do sofá "Que m***a de amigo você é!" Olho para o placar do jogo, chocado. Nove a zero. S A M U E L "Sua mãe e eu vamos nos separar" meu pai começa, meio gaguejando "Ela está sem coragem para te dizer isso. Ela não disse, mas eu sei" ele suspira, depois olha para a aliança em seu dedo. E eu olho também. E não consigo olhar de volta pra ele. "Nós seguramos enquanto foi possível, mas agora... agora está impossível, Samuel" diz. Meu pai pega no meu queixo, fazendo-me levantar a cabeça. Eu continuo a olhar para baixo. Não quero encará-lo; não quero encarar a verdade que está lá, me encarando. "Eu poderia dizer que um dia você vai entender tudo isso, mas, de verdade, espero que não entenda. Espero que você encontre um cara legal. E que vocês sejam felizes pra sempre." Permaneço em silêncio. Quero abraçá-lo. Quero abraçar minha mãe. Olho para ele. "...Mas nem tudo é pra sempre. Nem todo mundo tem essa sorte" ele continua "E, de certa forma, eu e sua mãe fomos para sempre durante muito tempo, por quase vinte e dois anos. É assim que as coisas são." Silêncio. Acho que consigo ouvir os nossos corações batendo bem forte. Meu pai parece estar soando em seu terno. Não está exatamente frio hoje, mesmo sendo (tecnicamente) inverno.  "Eu vou continuar sendo seu pai, e ela vai continuar sendo a sua mãe. Dentre as poucas coisas infinitas no mundo, ser filho está no topo da lista. Você vai ser meu filho pra sempre." Ele me abraça. E eu sinto muito por tudo isso. Por eles. Porque eu nunca imaginei que uma coisa dessas fosse acontecer. Nós somos a família perfeita, sabe? Os pais sensatos que aceitam o filho gay de boas. Quantas garotos e garotas no mundo têm isso? E os meus pais também, lindos demais. Perfeitos um para o outro. Sempre foi assim. E agora tudo vai ficar no passado. Nós éramos a família perfeita. Eles eram perfeitos um para o outro. Meu pai está suado, e a camisa social branca está colada em seu corpo n***o. Nós nos afastamos, e ele tenta sorrir. E eu tento fingir que estou bem. Talvez eu cancele meu encontro desta noite com Bruno. Talvez eu esteja triste demais para ter um momento feliz. Não sei. Talvez eu ligue pra Clara. Acho que preciso relaxar, espairecer, digerir tudo isso. Talvez, meu Deus, eu só precise de uma Maria Joana das boas.
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